Capa de New X-Men #144, o início da fase de Morrison e Quitely. Por Frank Quitely.

[#XMenDarkPhoenix] Os X-Men de Morrison e Quitely ainda são relevantes?

Os X-Men estão voltando às telonas neste ano de 2018, pouco mais de dois anos depois de seu último e divisivo filme, X-Men: Apocalipse, o último dirigido por Bryan Singer. O diretor estadunidense foi responsável por mostrar ao mundo que não só era possível fazer grandes filmes de super-heróis quando iniciou a franquia no ano 2000 como também deixou claro que grupos de super-heróis davam certo nas telonas. Isso foi reforçado com X2, lançado três anos depois.

Contudo, em X-Men: Apocalipse o diretor se deixou levar por vícios e uma trama pouco convincente, fazendo um dos filmes mais fracos da extensa franquia até agora. Espera-se que o produtor Simon Kinberg entregue algo diferente quando X-Men: Fênix Negra for lançado no final deste ano. Ele está com os X-Men na Fox há muitos anos, como produtor e roteirista, mas esta é sua primeira vez dirigindo um longa-metragem.

Enquanto nenhum trailer é divulgado (o que não deve demorar para acontecer), os fãs observam a produção como podem com fotos vazadas e as poucas imagens promocionais oficiais divulgadas pelo estúdio até agora. No último final de semana, porém, fomos surpreendidos com algo nunca imaginado: uma foto vazada de toda a equipe com os uniformes criados pelo desenhista escocês Frank Quitely para a fase dos mutantes nos quadrinhos que seu amigo e colaborador de longa data Grant Morrison escreveu no início dos anos 2000.

Os X-Men de Morrison e Quitely representados no novo filme dos X-Men.
Os X-Men de Morrison e Quitely representados no novo filme dos X-Men.

Aqueles eram outros tempos. Na virada do século e na esteira do sucesso do primeiro filme do grupo, os X-Men estavam prontos para ser revolucionados nos quadrinhos. Joe Quesada tinha assumido a direção editorial da Marvel há pouco tempo e sua transformação na Casa das Ideias com personagens como Demolidor e Pantera Negra lhe abriu muitas portas. Era chegada a hora dos medalhões passarem por suas mãos. Com Morrison fora da DC depois de muitos anos trabalhando lá, Quesada convenceu Morrison e Quitely a trabalharem para a Marvel pela primeira vez, e suas tarefas não eram pequenas.

Morrison começou os trabalhos com o parceiro Quitely ao seu lado. Outros desenhistas fizeram parte desta fase, como Ethan Van Sciver, Igor Kordey e o lendário Marc Silvestri, mas foi a parceria Morrison/Quitely que vendeu o quadrinho para os novos leitores. Primeiramente, o autor escreveu um manifesto sobre como os gibis dos mutantes deveriam ser para o século 21: acessíveis, diferentes, modernos. Em seguida, foi criado o que ele mesmo chamou de símbolo mágico que representava os X-Men: o logotipo ficaria da mesma forma em qualquer posição. Para Morrison, aquilo era uma representação da magia e da iconografia que os mutantes de Stan Lee e Jack Kirby representavam.

A passagem dele pelo título ficou marcada por muitas coisas, sendo a principal delas, pelo menos no início, o visual dos X-Men, que ficou uniforme, modernizado e muito parecido com o do cinema. Design de Frank Quitely, com sugestões de Morrison. E é assim que Nicholas Hoult (Fera), Sophie Turner (Jean Grey), Alexandra Shipp (Tempestade), Tye Sheridan (Ciclope) e Kodi Smit-McPhee (Noturno) estarão em X-Men: Fênix Negra. Sem dúvidas, o filme terá seu público. Mas e os X-Men de Morrison e Quitely? Ainda têm? Ainda é relevante?

É difícil esquecer a apresentação de Ciclope, Wolverine, Jean Grey, Fera, Professor Xavier e Emma Frost na imortal capa de New X-men #114, como uma banda de rock indo para uma casa de sadomasoquismo…

Capa de New X-Men #144, o início da fase de Morrison e Quitely. Por Frank Quitely.
Capa de New X-Men #144, o início da fase de Morrison e Quitely. Por Frank Quitely.

A capa, aliás, dá o tom de como Morrison lidou com este time. O triângulo Ciclope, Emma Frost e Jean Grey, mais à frente, foram importantes para a maior parte da passagem do autor pelo título. Mesmo que Wolverine fosse extremamente popular, ele está mais ao fundo, e realmente só teve destaque nas missões quando foi necessário. Ao fundo, o Fera, com ares de quem está escondendo um segredo, e o quase misterioso Professor Xavier, um homem que muitas vezes colocou seus pupilos em perigo e, não à toa, está quase nas sombras ao fundo da capa. Mas não é só isso.

Metaforicamente falando, Morrison fez o que a maioria de outros escritores fizeram nos títulos X, que é falar sobre oprimidos e opressores. Contudo, há uma diferença bem grande aí: enquanto a maioria dos autores que trabalharam com os X-Men normalmente fazem a clássica comparação racial dos brancos (opressores) vs negros (oprimidos), o escocês partiu para um caminho um pouco diferente, falando não apenas disso, mas também de sexualidade e política. Desde os uniformes de couro preto até a saída do armário falsa do Fera, passando inclusive pelas várias aparições da palavra “sex” em uma das edições desenhadas por EVS, a passagem de Grant Morrison pelos mutantes tirou os leitores da alienação e mostrou diversidade das formas mais incomuns para um público majoritariamente heterossexual – só faltou o autor colocar mais personagens descaradamente queer.

Ainda em termos sociopolíticos, o autor fez uso de um tema muito recorrente da dramaturgia (o irmão gêmeo maligno) ao criar a vilã Cassandra, irmã do Professor X, mas utilizando isso como mote para fazer a escola dos mutantes ser aberta ao público e reconhecida internacionalmente como lar educacional de excluídos com superpoderes naturais pela primeira vez. Este fator foi tão importante que se seguiu pelos anos a seguir nas revistas dos X-Men, com destaques para as de autoria de Kieron Gillen, Jason Aaron e Joss Whedon. Isso também vale para a inclusão de Emma Frost no time e sua complicada relação com todos os membros, bem como para a tragédia inédita de Genosha e o que ela significou para a comunidade mutante.

Morrison também explorou a universalidade do gene mutante ao ir para vários cantos do mundo criando novos personagens, como Fantomex (o francês babaca sobrevivente dos experimentos Arma X), cujo sistema nervoso central era externalizado às vezes na forma de uma nave especial muito louca, e Xorn, um pacífico mutante asiático, quase budista, que depois se revelou como apenas uma nova forma de Magneto (provavelmente a pior escolha que o autor fez em toda sua fase). Em tempos que a indústria reconhecia cada vez mais a globalização de seus quadrinhos, o timing de Morrison não poderia ser melhor ao criar gente nova e de outros países.

Com tantas ideias assim, Morrison aproveitou para colocá-las em temas familiares a fim de manter um certo padrão de tonalidade na revista. Portanto, viagens espaciais, a ameaça da Fênix Negra, futuros distópicos e o poder assombroso de Magneto e suas ameaças fizeram parte de todas as histórias que ele escreveu, assim como fazem parte da maioria das fases de todos os grandes escritores de revistas dos X-Men. O arquiteto do mundo mutante, Chris Claremont, é homenageado em vários momentos, mas sem que o escocês perca sua identidade ou saia de sua proposta. Foi assim com a morte de Jean Grey que ele escreveu, personagem que ficou no túmulo desde então e só voltou de verdade recentemente. Ou seja, muito de sua colaboração para o mito ressoa até hoje!

Capa de New X-Men #136 por Frank Quitely.
Capa de New X-Men #136 por Frank Quitely.

Pode ser que a escolha dos uniformes do novo filme sejam uma atualização do que foi feito no primeiro X-Men. Pode ser que seja uma referência clara ao trabalho dos dois escoceses nos quadrinhos deles. Mas o que realmente importa é que o que eles fizeram não passou em branco, e nunca será tarde demais fazer uma releitura deste material. E se você quiser saber mais sobre ele ou relembrá-lo com mais detalhes, não deixe de ouvir nosso ComicPod especial sobre esta fase clicando aqui!

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