[#Superman80Anos] Action Comics #300 e Superman, o Último Homem Sobre a Terra

[Nota do autor: Sejam bem-vindos ao primeiro artigo especial de 80 anos do Superman! No decorrer de todo 2018, teremos textos inéditos e reedições dos maiores textos que o Terra Zero já fez sobre o personagem, para celebrar mais uma década de sua vida reluzente e inspiradora. Não percam!]

SUPERMAN se torna O ÚLTIMO HOMEM SOBRE A TERRA quando ele é… capturado pelo SOL VERMELHO!”

1963 ficou conhecido como o ano em que John F. Kennedy foi assassino, em novembro, mas outros eventos importantes o marcaram, inclusive dentro do que hoje chamamos de cultura pop, como a estreia televisiva de Astro Boy, de Osamu Tezuka, e a gravação do primeiro álbum dos Beatles, Please Please Me, no lendário estúdio Abbey Road, em Londres. Nos Estados Unidos, mais especificamente nos quadrinhos de super-heróis, coisas muito importantes aconteciam.

A Marvel estava explodindo com suas criações estabelecidas nos dois anos anteriores por Stan Lee, Jack Kirby e Steve Ditko, principalmente. Foi naquele ANO que surgiram os Vingadores e os X-Men, só para se ter uma ideia. Enquanto isso, na Distinta Concorrência, o mercado continuava forte para seus personagens já estabelecidos. O Superman, seu carro-chefe, estava chegando à preciosa marca de 300 edições publicadas do título Action Comics, a publicação que deu início à cultura de super-heróis nos Estados Unidos, exatos 25 anos antes.

Action Comics 300 Curt Swan
O Último Homem Sobre a Terra em capa de Curt Swan.

Diferente do que acontece nas últimas décadas, naqueles anos as editoras não costumavam promover grandes celebrações para uma determinada numeração alcançada de uma revista. Contudo, para Action Comics #300 o editor Mort Weisinger preparou, ao lado dos renomados criadores Edmond Hamilton e Al Plastino, um conto que explorasse como o seria o destino do planeta e do Homem de Aço daqui a um milhão de anos. Para nós, leitores modernos, esse tipo de premissa foi explorada diversas vezes; para os jovens ávidos por colecionar contos do Superman em plenos anos 1960, imaginar o Superman como o Último Homem Sobre a Terra era algo jamais visto.

Naquela época, Action Comics tinha um grupo rotativo de escritores e desenhistas. Geralmente, Leo Dorfman cuidava dos textos do título, mas ao lado dele também estavam Hamilton (cuja especialidade era ficção científica, já que ele fora um dos primeiros escritores publicados na antológica revista pulp Weird Tales) e ninguém menos que Jerry Siegel, o cocriador do personagem, na época um funcionário da DC. Al Plastino era um dos principais desenhistas e, seja pela especialidade da história ou por uma simples questão de agenda, coube a ele desenhar o conto de Hamilton para a 300ª edição de Action. Contudo, sabendo da identificação que os fãs tinham por ele e da popularidade de seu nome, a DC acionou Curt Swan para fazer a capa, que foi finalizada por George Klein.

Então, em maio de 1963, Action Comics #300 chegou às bancas dos Estados Unidos, trazendo consigo uma história que imaginava como seria o Superman no papel de Último Homem Sobre aa Terra, um homem solitário em um mundo que adoeceu 1 milhão de anos depois da época em que ele vivia. A premissa partiu de Hamilton, que utilizou-se da Brigada da Vingança ao Superman (uma espécie de equipe de extermínio do Homem de Aço criada um ano antes para atacar o Superboy) para jogar o Azulão em um futuro no qual ele não tivesse utilidade – um no qual o sol da Terra tivesse se tornado vermelho, como o kryptoniano, fazendo de Kal-El um mero humano.

Página de Action Comics #300 por Al Plastino.
Página de Action Comics #300 por Al Plastino.
Página de Action Comics #300 por Al Plastino.
Página de Action Comics #300 por Al Plastino.

Como trunfo, essa história possui aspectos de ficção científica muito comuns daquele período e alguns questionamentos interessantes sobre o futuro da humanidade. A fim de celebrar quem o Homem de Aço foi, a sociedade, que está abandonando o planeta moribundo com a mais alta tecnologia disponível (ao contrário do que aconteceu com Krypton) escolhe deixar alguns androides de pessoas relacionadas à vida do Superman perambulando pela destruída Metrópolis a fim de mantê-la com alguma sobrevida, mesmo que seja artificial. Portanto, quando o verdadeiro Azulão chega lá, é recebido com susto e estranheza, em um tema da história que serve para questionar sua importância no futuro e o quanto de inteligência podemos dar às nossas máquinas.

Como quase todas as histórias da época, esta também é bastante inventiva e explora os efeitos da radiação e do medo da guerra nuclear que foi espalhado pelo mundo durante toda a Guerra Fria. Ainda que os efeitos mostrados na HQ sejam considerado simplórios hoje em dia, eles também representam um reflexo de um medo que demorou para passar, principalmente no inconsciente coletivo dos estadunidenses.

Capa de Curt Swan foi homenageada por Kerry Gammil nos anos 1980 em Superman #29.
Capa de Curt Swan foi homenageada por Kerry Gammil nos anos 1980 em Superman #29.

É normal ver o Superman se deparando com monstros gigantes e seres que se adaptaram à vida terrestre arenosa e sem água enquanto traça uma jornada para sua Fortaleza da Solidão, onde muitas das respostas que precisa estão guardadas. Ou seja, além de criar uma missão para o herói, a história de Hamilton e Plastino também analisa brevemente os efeitos da guerra e da aniquilação do planeta com o passar das eras. De forma breve, e até um pouco inocente, mas eficiente.

Raríssima nos Estados Unidos, esta história foi a primeira que previu o destino do Superman diante do fim da humanidade, algo que acontecerá novamente pelas mãos de Tom King e Clay Mann na edição comemorativa Action Comics #1000 a história completa já pode ser lida aqui. No Brasil, o conto de Action Comics #300 foi impresso em duas ocasiões: Superman nº 33 (Ebal, 1967) e Superman nº 27 (Ebal, nova série, 1979).