[#Review] Horror e xenofobia em Infidel da Image Comics

Muitos leitores reclamam de uma escassez de bons títulos de terror em quadrinhos atualmente. O gênero, que muitas vezes é associado aos velhos moldes de histórias tradicionais da EC Comics e republicações de material da Vertigo e da Dark Horse, tem um público fiel, mas que muitas vezes não sabe onde procurar histórias em continuidade mais recentes para ler. É aí que entra a nova leva de quadrinhos voltados para este gênero pela Image nos últimos anos. Com títulos como Redlands, a recente Gideon Falls e, agora, Infidel, a Image se estabelece como uma fonte abundante de publicações de terror de qualidade nesta década.

Infidel é o primeiro quadrinho autoral do ex-editor de Monstro do Pântano, Pornsak Pichetshote, com arte de Aaron Campbell (O Sombra) e cores de José Villarrubia — que trabalhou na popular maxissérie Promethea. Nesta minissérie em cinco partes, uma moça muçulmana chamada Aisha se muda com o namorado Tom e sua jovem enteada Kris para um velho prédio. No prédio mora também a mãe de Tom, Leslie: uma senhora com histórico de ódio religioso mas aparentemente recuperada de sua intolerância. Em meio a esse campo minado familiar, Aisha começa a ser assombrada por horríveis visões de fantasmas cheios de ódio. As visões começam a noite, mas logo a personagem começa a ter essas visões durante o dia e duvidar de sua sanidade em meio às situações cotidianas.

Aisha está tentando conviver com sua nova família e não enlouquecer por conta de suas alucinações. Usando isso, o roteiro de Pichetshote nos dá um prato cheio para sequências de horror com muitos temas atuais e diálogos que promovem o debate acerca do ódio racial. Infidel tem um ritmo muito veloz para um quadrinho de terror. A história já começa em meio a um momento de desespero da protagonista. As introduções de elenco principal são feitas em cerca de quatro páginas rapidamente e de maneira eficaz, em uma cena cheia de referências divertidas a Star Wars. Depois disso, mergulhamos no drama psicológico de Aisha e sua difícil relação com Tom e sua família. Apesar de termos bastante diálogo, Pichetshote mantém um ritmo com cadência narrativa eficiente e explora os temas pertinentes a esta família sem parecer panfletário. Aqui temos um retrato honesto da mulher muçulmana, com algumas de suas dificuldades e reações a situações tanto absurdas quanto corriqueiras.

A arte de Aaron Campbell com José Villarrubia em Infidel é grosseira e rústica, no melhor sentido das palavras. Com um visual que tem muito de Michael Gaydos e de Jock, Infidel alterna de maneira suave cenas horripilantes e passagens mais mundanas, com a mesma qualidade. O entrosamento entre arte e colorização é nítido e a fotografia de diálogo de Campbell acentua bastante o teor áspero do roteiro de Pichetshote. Temos um quadrinho com a apresentação gráfica e um acabamento que se encaixa perfeitamente à proposta de sua história. O quadrinho é discreto quando a história precisa se movimentar e visceral nos momentos adequados. É muito importante no visual de obras em quadrinhos de horror manter sempre um clima pesado. Isso, Campbell e Villarrubia tiram de letra.

Apesar de tocar temas atuais e bastante pertinentes no mundo moderno, a primeira edição de Infidel não nos mostra um quadrinho político. Aqui temos simplesmente uma história de uma família com relações um pouco tensas devido às diferenças de crenças de seus componentes. Em meio a isso o roteiro nos leva a explorar um tipo de horror que usa esses elementos de xenofobia e ódio racial como combustível para a história. Pichetshote, Campbell e Villarrubia nos mostram que, mesmo cercado por forças sobrenaturais incompreensíveis e fora do nosso controle, o ser humano ainda é o grande responsável pelos nossos maiores medos e consternações.

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