[Review] Gideon Falls, o novo mistério de Lemire e Sorrentino

Há quadrinhos que transitam de forma tão natural entre gêneros que fica até difícil encaixá-los em um categoria específica. Isto se aplica nitidamente ao novo trabalho autoral da dupla responsável por Arqueiro Verde e Velho Logan, Jeff Lemire e Andrea Sorrentino: Gideon Falls, lançada este mês pela Image, está envolta em espesso mistério desde sua sinopse. No entanto, o conteúdo aborda temas psicológicos, adquirindo contornos dramáticos nesta primeira edição com muita propriedade. Completando o clima muito pesado já estabelecido, a história deixa o leitor com uma pequena amostra de que esta dupla pode fazer terror em alto nível, ao final desta edição de estreia.

Gideon Falls se passa em dois ambientes completamente distintos e é protagonizada por dois personagens que parecem não ter relação alguma. O relutante e fracassado Padre Fred, recém chegado à pequena cidade de Gideon Falls, é introduzido como um personagem incomodado e cansado. Fred tem de assumir o lugar do falecido sacerdote da paróquia local em uma pequena comunidade cheia de segredos sangrentos. Em outra cidade muito maior, o jovem Norton é obcecado em catar o lixo a procura de artefatos misteriosos de uma conspiração que parece só existir na sua própria cabeça. No limite de sua sanidade, Norton está prestes a perder sua própria liberdade para a loucura quando sua terapeuta ameaça interná-lo novamente em uma instituição psiquiátrica. O roteiro alterna entre cenas dos dois personagens com momentos que aparentemente não tem nada a ver uns com os outros, mas que se comunicam pelo clima incômodo e pela sensação de perda de comunicação com a realidade em diversos momentos.

Lemire é cirúrgico e sutil como em poucos de seus roteiros em Gideon Falls. Para fãs de alguns de seus outros trabalhos, o quadrinho pode parecer muito mais lento que o usual, mas novamente, tudo faz parte da construção de clima que roteiro e arte propõem nesta revista. O leitor só recebe pequenas pistas do grande mosaico planejado para esta publicação. Os diálogos em momento algum tocam temas sobrenaturais ou citam algum tipo de incidente violento e mesmo assim, a leitura deste início de arco nos dá a sensação de que algo muito ruim irá acontecer com esses personagens.

Andrea Sorrentino, após suas passagens por DC e Marvel, é um artista que dispensa apresentações para o fã de quadrinhos. O traço, a caracterização, a fotografia e, principalmente, a diagramação em Gideon Falls são parte integral do roteiro de Lemire. Pode-se dizer que mais de 70% do que Lemire quer passar nesta história é transmitido por técnicas aplicadas ali por Sorrentino. Norton não mostra o rosto em nenhum momento, por exemplo.  Na diagramação da cena de sua coleta de lixo a diagramação é pungente, e isso é acentuado até mesmo na escolha de colorização de Dave Stewart, usando o vermelho gritante em itens e personagens específicos. Tudo isso é uma parte importante deste roteiro. Sorrentino se tornou aquele tipo de ilustrador que você reconhece em uma página, devido às suas técnicas tão características. Gideon Falls só confirma isso.

Gideon Falls é um dos quadrinhos mais sutis que Jeff Lemire já produziu. Com toda essa sutileza e convite ao mistério, o quadrinho ganha ares de seriado de suspense, muito menos que de um quadrinho seriado. A primeira edição pode passar completamente despercebida por leitores — e até críticos — com gosto por um tipo de material mais espalhafatoso ou direto. Se você é um desses, realmente, esta leitura não vai causar impacto algum. No entanto, pode ser uma ótima leitura para os que apreciam um roteiro de suspense psicológico e terror que não entrega sangue e vísceras de bandeja logo nas primeiras páginas, mas que cria um clima denso e verdadeiramente tenso ao decorrer do quadrinho. Com uma arte muito distinta e de extremo bom gosto,  com um elenco pequeno que parece não ter relação alguma entre si, esta é uma das melhores edições de estreia da Image neste início de 2018.

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