Ninguém mais sabe ler quadrinhos. Mas será que um dia souberam?

p align=”justify”bParece que ninguém mais sabe ler quadrinhos/b. Mas será que um dia souberam? A interpretação de texto é, por vezes, tão aberta a confusões quanto o não entendimento do que o cerne de um personagem significa a partir do momento em que se passa a venerá-lo. Parece complicado, né? Vamos tentar simplificar essa sentença maluca./p
p align=”justify”Ler quadrinhos requer span style=”text-decoration: underline;”atenção/span. Por mais que livros e narrações em áudio permitam uso maior e mais avançado da imaginação, que cria imagens próprias e duradouras na mente do receptor, quadrinhos são uma narrativa gráfica e sequencial na qual o desenhista conta a verdadeira história para quem a consome. Ainda existe na indústria um problema de reconhecimento artístico no sentido de que o público pensa muito mais em consumir um gibi pelo escritor do que pelo desenhista, mesmo que eles precisem sempre trabalhar lado a lado para que a narrativa faça sentido. A partir daí, na teoria, o que vier é consequência./p
p align=”justify”Mas não deveria ser assim./p
p align=”justify”Quantas vezes você ouviu um fã dos bX-Men /bfazer uma piada infame, seja de cunho racial, homofóbico ou qualquer outra dessas coisas? Sim, sabemos que você já ouviu. Essa é a consequência pretendida pelos criadores das histórias desses personagens, que são uma minoria perseguida, como judeus na Segunda Guerra, como os negros e como os homossexuais, até hoje?/p
p align=”justify”Quantas vezes um admirador de bV de Vingança /bnão conseguiu entender que aquela fábula distópica é fruto de situações do mundo real? E que, como tal, poderiam ser refletidas em um novo estado sociopolítico do planeta em algum momento do nosso futuro? Um estado apto a fazer com que “indesejáveis” como negros, membros da comunidade LGBTQ e pessoas consideradas de esquerda no espectro político fosse rechaçadas simplesmente por serem desse jeito. a href=”http://g1.globo.com/jornal-nacional/noticia/2018/03/em-sp-duas-acoes-violentas-de-policiais-militares-causam-repudio.html”Isso está acontecendo agora, exatamente agora/a, no mundo todo, a href=”http://bit.ly/2G8XG6O”especialmente no nosso País/a!/p

img class=”wp-image-94982 size-medium” src=”http://www.terrazero.com.br/wp-content/uploads/2018/03/ler-quadrinhos-brasil-630×318.jpg” alt=”Ler quadrinhos também é um exercício de entendimento do que acontece no mundo.” width=”630″ height=”318″ Ler quadrinhos também é um exercício de entendimento do que acontece no mundo. p align=”justify”A span style=”text-decoration: underline;”hipocrisia/span do leitor que não compreende o material que está nas suas mãos normalmente caminha de mãos dadas com o ato de ler quadrinhos. Porque a leitura permite, sim, como qualquer outra observação de obras de arte, diferentes reações e sentimentos. Mas um quadrinho de vertente política normalmente passa uma mensagem span style=”text-decoration: underline;”clara/span. Se esta mensagem se perder na mente do receptor, ele não entendeu aquela obra. E esse entendimento incorreto ficará enraizado em sua mente span style=”text-decoration: underline;”para sempre/span./p
p align=”justify”Então, é culpa do leitor não saber ler um quadrinho? Também não. Ou pelo menos span style=”text-decoration: underline;”não totalmente/span. Quando existe uma falha no sistema educacional (como existe por aqui e em outros pontos do continente americano, inclusive nos Estados Unidos, donos de uma educação pública falida), os leitores podem não estar suficientemente preparados para absorver a plenitude da mensagem de uma obra. Qualquer obra, de qualquer mídia. span style=”text-decoration: underline;”Isso retroalimenta a falência do sistema/span. Se um leitor não estiver preparado para entender uma mensagem de uma HQ, que muitas vezes é extremamente clara, como ele pode decidir o futuro de um país nas urnas?/p
p align=”justify”Quadrinho é política. Todos? Nem todos, mas a maioria span style=”text-decoration: underline;”sim/span./p

img class=”size-full wp-image-86961″ src=”http://www.terrazero.com.br/wp-content/uploads/2016/12/Action_Comics_1.jpg” alt=”Capa de Action Comics #1.” width=”300″ height=”416″ Capa de Action Comics #1. p align=”justify”Isso ocorre desde o mais puro começo, em iAction Comics #1/i, de 1938, quando o Superman tinha vertentes de esquerda e lutava contra magnatas trogloditas asquerosos do capitalismo selvagem pós-quebra-da-bolsa dos Estados Unidos. Ele pode ter sido adaptado com o passar dos anos, mas não se engane; a essência do Superman permanece a mesma: defender oprimidos de qualquer sorte. Admiradores do personagem que compartilham de pensamentos como, por exemplo, “bandido bom é bandido morto”, certamente não estão fazendo justiça ao primeiro super-herói, tampouco entenderam sua mensagem. Ou não possuem bagagem para compreendê-lo ou são, simplesmente, hipócritas./p
p align=”justify”O problema da hipocrisia é que, muitas vezes, ela é autoalimentada pelo leitor. Na cabeça dele, explicações são criadas para divergir do pensamento comum, seja por ele se sentir especial ao pensar diferente ou mesmo para dar sustentação ao que ela acredita — mesmo que os fatos não conversem com essas ideias. Entre os exemplos mais comuns deste tipo de engano no meio dos quadrinhos estão bV de Vingança/b, a passagem de Dennis O’Neil e Neal Adams pela revista do bLanterna Verde /bnos anos 1960 e, claro, os bX-Men/b./p
h3 align=”justify”span style=”color: #0000ff;”bX-Men/b/span/h3
p align=”justify””iX-Men fala sobre encontrar alívio entre outros marginalizados/i” – bSean Howe/b, em entrevista ao bHuffington Post /bem 2016./p

img class=”size-medium wp-image-94983″ src=”http://www.terrazero.com.br/wp-content/uploads/2018/03/Xmen_classics_1_by_artadams-630×646.png” alt=”Os X-Men clássicos no traço de Art Adams.” width=”630″ height=”646″ Os X-Men clássicos no traço de Art Adams. p align=”justify”O caso dos mutantes é o mais amplo de todos. Vejam, seus criadores eram judeus que viram o que aconteceu com os seus na Europa, duas décadas antes de os X-Men nascerem. Também ouviram o que bMalcolm X /be bMartin Luther King Jr./b tinham a dizer sobre os direitos civis dos negros nos Estados Unidos, e os viram ser assassinados pouco tempo depois. Apesar de só fazerem sucesso de verdade uma década depois, eles foram criados com uma certa identidade política, logo de cara./p
p align=”justify”Que dirá a graphic novel bDeus Ama, O Homem Mata /b(1982), de bChris Claremont/b eb Brent Anderson/b, na qual o antagonista é bWilliam Stryker/b, um telepastor i(já não temos demais desses caras?)/i e militar que persegue mutantes? No lendário quadrinho, Stryker os acusa de serem criaturas odiadas por Deus e alguns até são assassinados. É então que o bProfessor Xavier/b, os bX-Men/b e bMagneto/b unem esforços para impedir o genocídio./p
p align=”justify”Esta história, como sabemos, tornou-se a principal influência para o filme bX2 /b(2003), provavelmente o melhor filme da franquia dos X-Men até hoje. Howe também contou na entrevista ao HuffPost supracitada que: “Estão explícitos na história os paralelos entre o preconceito contra os mutantes e a homofobia e o racismo da vida real. Muito disso foi reciclado nos filmes”. E estes temas nunca estiveram tão atuais, com as redes sociais e as ruas sendo tomadas pelos autodenominados “cidadãos de bem” (geralmente cristãos, de visão sociopolítica extremamente conservadora) que continuam span style=”text-decoration: underline;”massacrando/span, com palavras ou ações, quem é diferente deles./p

img class=”” src=”http://geeksinaction.com.br/wp-content/uploads/2017/02/1420496_496123187153398_41420822_n.jpg” alt=”Cena de Deus Ama, O Home Mata, em arte de Brent Anderson.” width=”629″ height=”298″ Cena de Deus Ama, O Home Mata, em arte de Brent Anderson. p align=”justify”Isso significa que os X-Men foram 100% baseados nisso? Claro que não, já que em sua concepção também estão alinhados conceitos de ficção científica e outras ideias que Kirby teve engavetadas por um tempo. Contudo, a exclusão social desses personagens ressoa ainda mais com os grupos que sofrem até hoje por terem nascido em um mundo que também os exclui. É importantíssimo que eles sejam representados com força total até que aqueles da ‘sociedade’ que, como diriam os antigos, “estão por cima da carne seca” entendam que eles não são exclusivos. span style=”text-decoration: underline;”Seleção natural não tem nada a ver com exclusivismo, racismo estrutural e crimes de ódio/span./p
p align=”justify”Aliás, isso nos leva a uma importantíssima entrevista com o ator e documentarista bStephen Fry /bfeita pelo comediante e italk show host /iescocês bCraig Ferguson /bhá poucos anos. Nela, Fry estava falando de seu documentário ibOut There/b/i, sobre pessoas que saem do armário em diversos países. Em Uganda, o cineasta foi surpreendido pelo seguinte diálogo com Ministro de Éticas e Integridade:/p
p align=”justify” style=”padding-left: 30px;”– Em vez de se preocupar com a sexualidade de um adulto, por que o país não está interessado em resolver questões mais sérias como a alta taxa de estupro infantil, que chega a ser quase epidêmica?
– Ah, mas este é o tipo certo de estupro infantil!
– Você tem noção de que isso está sendo filmado? O que quis dizer com isso?
– Sim, claro. É o jeito certo: um homem estuprando uma menina. É natural./p

p align=”justify”É nesta sociedade que queremos viver? Será que não merecemos viver em uma sociedade que considera bTempestade e Estrela Polar tão importantes quanto Jean Grey e Wolverine/b?/p
h3 align=”justify”span style=”color: #0000ff;”bLanterna Verde/Arqueiro Verde/b/span/h3
p align=”justify”Nunca tivemos no Brasil um quadrinho como este de bDennis O’Neil /be bNeal Adams/b, uma obra de arte com personagens que andassem de cabo a rabo pelo país vendo as mazelas que sofremos. Sabemos delas, mas elas nunca foram representadas na nona arte da forma arrebatadora em que estiveram nas histórias dos heróis esmeralda. A veia política de esquerda aplicada ao bArqueiro/b nesta época começou a dar sentido para sua própria existência, já que ele passou anos – sejamos francos – sem ser muita coisa além de uma imitação do Batman. De repente, ele adquiriu voz própria./p
p align=”justify”Desafiando seu amigo bHal Jordan/b a percorrer o país com ele para ver como a humanidade estava adoecendo enquanto o Lanterna percorria o universo em assuntos de outras raças, bOliver Queen/b é o conduíte que faz o leitor entender como era a América pós-bLyndon Johnson/b e então bRichard Nixon/b – um país abandonado, de minorias massacradas, escravidão moderna e nem um pouco parecida com a tão desejada “terra da liberdade” ou “o lar dos bravos”./p
p align=”justify”Esta fase ficou muito marcada pela HQ que mostra bRicardito/b usando drogas, cujos efeitos ainda ressoam na indústria estadunidense. Ela delsaiu sem o selo do Comics Code Authority, que censurava o material para determinados públicos, e/del virou o mercado do avesso, com algumas bancas e lojas se recusando a vendê-la e seus autores falando em universidades pelo país, em um movimento não apenas de aceitação do quadrinho na cultura, mas também de entendimento de sua posição como veículo sociopolítico./p
p align=”justify”Contudo, o que determina o teor sóbrio e adulto dessas histórias está na primeira edição da fase. Estes três quadros sintetizam tudo:/p

img class=”size-medium wp-image-94985″ src=”http://www.terrazero.com.br/wp-content/uploads/2018/03/lanternagibi-e1484673558380-arqueiro-racismo-630×551.jpg” alt=”Arte de Neal Adams e Dick Giordano.” width=”630″ height=”551″ Arte de Neal Adams e Dick Giordano.

h3 align=”justify”span style=”color: #0000ff;”bV de Vingança/b/span/h3
p align=”justify”iV de Vingança/i dispensa apresentações, e a HQ tem tantas frases boas que devemos deixá-las falarem por si próprias. Elas explicam o teor da coisa e, se você não entender, certamente não sabe ler quadrinhos:/p
p align=”justify” style=”padding-left: 30px;”i- O povo não deve temer seu estado. O estado deve temer seu povo./i/p
p align=”justify” style=”padding-left: 30px;”i- Por baixo dessa carne existe um ideal. E as ideias nunca morrem…/i/p
p align=”justify” style=”padding-left: 30px;”i- Os artistas usam a mentira para revelar a verdade, enquanto os políticos usam a mentira para escondê-la./i/p
p align=”justify” style=”padding-left: 30px;”i- Igualdade, justiça e liberdade são mais que palavras; são perspectivas!/i/p
p align=”justify” style=”padding-left: 30px;”i- Ideias não são só carne e osso. Ideias são à prova de balas./i/p
p align=”justify” style=”padding-left: 30px;”i- O medo se tornou a arma principal desse governo. /i[alô, Brasil!]/p
p align=”justify” style=”padding-left: 30px;”i- A anarquia ostenta duas faces. A de Destruidores e a de Criadores. Os Destruidores derrubam impérios, e com os destroços, os Criadores erguem Mundos Melhores./i/p
h3 align=”justify”span style=”color: #0000ff;”b2018/b/span/h3
p align=”justify”É esquisito dizer isso, mas, quando se fala de ler quadrinhos, parece que estamos vivendo span style=”text-decoration: underline;”um retrocesso/span. Com apenas alguns das dezenas (talvez centenas) de exemplos que existem oferecidos acima, pudemos notar que, em diferentes períodos, houve questionamentos importantíssimos sobre o sistema e formas artísticas e classudas de enfrentá-lo. Aconteceu lá atrás com bSuperman /be bMulher-Maravilha /bnos Estados Unidos — e em outros lugares, dentro e fora do país, na mesma mídia, pelo mundo todo com o passar dos anos. E é estranho notar como as coisas estão mudando depressa, span style=”text-decoration: underline;”e para pior/span./p
p align=”justify”img class=”aligncenter size-medium wp-image-41139″ src=”http://www.terrazero.com.br/wp-content/uploads/2013/05/Blue-Is-the-Warmest-Colour-Poster-630×856.jpg” alt=”” width=”630″ height=”856″/p
p align=”justify”Há cinco anos, batemos palma por bAzul É a Cor Mais Quente /bter faturado a iPalma de Ouro/i em Cannes. Foi o primeiro filme baseado em uma história em quadrinhos e receber um prêmio dessa magnitude. Será que o efeito seria o mesmo em 2018? A polarização que está em voga principalmente no continente americano causaria provavelmente uma divisão sem precedentes no reconhecimento de uma obra de arte. Não se enganem: os “cidadãos de bem” ficariam malucos e isso daria muito, mas muito pano pra manga nas redes sociais — redes, aliás, que provavelmente possuem, com suas políticas e algoritmos, papel fundamental nessa polarização, e que influencia politicamente seus usuários sem que eles saibam, como revelado pelos jornais ia href=”https://www.theguardian.com/technology/2018/mar/17/facebook-cambridge-analytica-kogan-data-algorithm”The Guardian/a/i e ia href=”https://www.nytimes.com/2016/11/20/opinion/cambridge-analytica-facebook-quiz.html”The New York Times/a/i no último sábado, acerca da conivência do Facebook com o uso ilegal de dados de 50 milhões de pessoas por parte da empresa Cambridge Analytica./p
p align=”justify”Felizmente, a indústria em si é combativa aos retrocessos e as grandes editoras estão servindo de exemplo para as pequenas, que enxergam mais possibilidade de negócio conforme o público batalha contra a cíclica maré conservadora em que vivemos no momento. Entendam, aliás, já que utilizamos a palavra ‘conservadora’ aqui, que não há problema nenhum em ser aliado de políticas conservadoras. bO problema é ter ódio, é ser extremo, é ser excludente, é dar oportunidades a quem já as têm nas mãos e deixar às traças quem precisa de ajuda e luta para sobreviver todos os dias com o mínimo de dignidade, para também ter um espaço ao sol./b/p
p align=”justify”E já que a indústria está batalhando, é bem provável que os quadrinhos exemplificados mais acima no texto se dessem tão bem hoje quanto na época, pois suas mensagens são universais; o Mal existe no coração humano e anda ao lado principalmente daqueles que estão no poder. Cabe a nós enfrentá-los; com lápis, papel, voz alta e perseverança. E se você não puder fazer tudo isso, não se preocupe: apenas aprenda a ler quadrinhos. Entenda a mensagem, busque conhecer os autores. Isso vai mudar tudo!/p

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