Days of Hate: As veias da América estão abertas em HQ de Ales Kot

Se ano passado falamos do quadrinho de temática estarrecedora de Howard Chaykin, The Divided States of Hysteria, desta vez voltamos a um tema muito semelhante com o novo trabalho do checo Aleš Kot, conhecido no Brasil principalmente por suas histórias com o Esquadrão Suicida, na DC, durante o período dos Novos 52. Ele está lançando uma nova HQ pela Image, Days of Hate, que lida com alguns dos temas mais duros que o autor enxerga na atual América de Donald Trump.

Invadido pelos alemães durante a Segunda Guerra Mundial, seu país sentiu na pele a força implacável daqueles movidos pelo ódio e pela intolerância. Graças aos discursos do atual presidente dos Estados Unidos, movimentos deste tipo estão ganhando voz dentro do país em uma ascensão de discursos preconceituosos como não se via há décadas lá dentro. Chegamos ao ponto de vermos nazistas desfilando pelas ruas como se seu ódio pelo que é diferente fosse a coisa mais normal do mundo – falamos sobre isso mês passado.

Muitas das decisões de Trump estão desfazendo o que Barack Obama fez em seus dois mandatos, minando conquistas pequenas mas importantes para minorias e favorecendo pessoas que já estavam no poder: a indústria bélica, os intolerantes, os corruptos, os engravatados.

Caá da primeira edição de Days of Hate por Danijel Zezelj.
Capa da primeira edição de Days of Hate por Danijel Zezelj.

Se o que aconteceu até agora não serve de exemplo para provar o apodrecimento do “bastião do mundo livre”, as recentes afirmações republicanas de que os judeus foram mortos aos milhões na Segunda Guerra apenas porque não estavam armados para se defender talvez faça as pessoas pensarem. Essa retórica está se espalhando como praga pela internet, e homens como Trump, membros da NRA e seguidores da chamada “alt+right” só têm a ganhar com isso.

Mas do que Days of Hate realmente fala? De tudo isso e mais um pouco.

Em um futuro nada distante (2022), os Estados Unidos passaram por uma segunda Guerra Civil. Campos de trabalho escravo e concentração foram instituídos em várias partes do país para “grupos suspeitos” serem observados pela extrema direita, algo que o governo finge não ver. Minorias raciais, religiosas ou a comunidade LGBTQ são os principais alvos destes campos. Oprimidos e enfurecidos por sua situação, eles se revoltam e acabam tornando-se os terroristas que a extrema direita, também terrorista, os acusa de serem.

Página de Days of Hate em arte de Danijel Zezelj e cores de Jordie Bellaire.
Página de Days of Hate em arte de Danijel Zezelj e cores de Jordie Bellaire.

É uma situação irônica criada pelo ódio de ambas as partes, mostrando que as coisas sempre são mais nebulosas do que realmente parecem – diabos, o quadrinho abre com uma frase Steve Bannon e o primeiro capítulo se chama America First:

Essa é uma das consequências indesejadas do movimento de libertação das mulheres – que as mulheres que de fato liderariam o país seriam femininas, seriam pró-família, teriam maridos, amariam seus filhos. Que não seriam um bando de sapatas.

Amanda e Huian são as personagens principais da história. Casadas no passado, as duas se separaram muito antes da história de Days of Hate começar. Amanda agora trabalha infiltrada em pequenas concentrações neonazistas para matá-los, e Huian está cooperando com o governo para capturar sua ex-esposa enquanto decide se vai tirar a própria vida ou não. Bissexual, Amanda está com um rapaz de origem islâmica, que também é perseguido pela América atual, uma que é muito próxima da que existe neste momento no mundo real.

Capa da segunda edição de Days of Hate por Danijel Zezelj.
Capa da segunda edição de Days of Hate por Danijel Zezelj.

Assusta quando um trabalho de ficção demonstra acuidade para com a realidade. É assim com séries de TV como The Handmaid’s Tale e Homeland, por exemplo, ainda que cada uma tenha seus motivos para refletirem a realidade ou o que ela pode se tornar muito em breve. Houve muita preocupação na década passada quando George W. Bush assumiu a presidência e favoreceu alguns dos grupos que citamos acima. Contudo, o que ele permitiu que fosse feito parece brincadeira de criança perto do que os Estados Unidos se tornaram nos últimos 24 meses.

Os imbecis venceram.

E não se enganem: eles estão de todos os lados. Extremismo é ruim por si só, não importa o lado, e é essa a mensagem que Kot passa logo de cara, o que é muito bem reforçado pelo chiaroscuro da arte magnífica de Danijel Zezelj.

Há muitas semelhanças entre Days of Hate e obras como Handmaid’s, por exemplo, como citamos acima, mas nela há algo mais. Dá pra ver que Kot está furioso com o mundo ignorante das redes sociais, o mundo tomado pela destruição social perpetrada pelo Facebook (saibam mais neste artigo da Wired). Mexer com um checo furioso não parece uma coisa muito sábia…

O mais interessante disso tudo, no entanto, é como este quadrinho vem na esteira da própria obra de Chaykin. É notável como os filmes que estão concorrendo a prêmios neste ano, bem como diversas séries de TV estão lutando contra o que o mundo está se tornando. É engraçado notar que os momentos mais sombrios do planeta são os que permitem trabalhos artísticos mais significativos. O fato de a Rússia estar na posição em que está hoje, bem como a dessa estranha Guerra Fria entre EUA e Coreia do Norte, nos leva de volta às histórias mais clássicas de espionagem, assim como as previsões mais sombrias do nosso futuro.

Capa da vindoura Days of Hate #3.
Capa da vindoura Days of Hate #3.

Novamente estamos entrando em um período preocupante, tanto para o ocidente como para o oriente. A sociedade moderna já viu isso antes. Para o bem ou para o mal, a História é cíclica. Contudo, o final do conflito depende de nossa luta.

Days of Hate já está em sua segunda edição nos EUA e terá mais dez capítulos. Kot ainda vai foder muitas mentes com a força de sua narrativa.

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com