[#CCXP2017] Jorge, da Comix, fala de mercado nacional e suas altas e baixas

Demorou quase uma década de site para que o Terra Zero finalmente conversasse em um papo aberto com Jorge Rodrigues, da Comix Comic Shop, há um bom tempo a loja de quadrinhos e colecionáveis mais importante do Brasil.

Foi durante a CCXP 2017 que ele dedicou um pouco de seu tempo apertado para conversar com o site sobre o mercado brasileiro, as estratégias de vendas para grandes eventos, como a CCXP, a dura concorrência com a Amazon, a história da Comix e como sua família veio ao Brasil. Confiram abaixo a transcrição completa de uma das mais importantes entrevistas da história do Terra Zero!

Terra Zero: Jorge, como está o evento para você neste ano?

Jorge Rodrigues: Está bom. Bem lotado e com o público interessado no produto, graças à presença dos quadrinhos nas diversas mídias que temos à disposição hoje em dia, como os filmes, a TV e a internet.

Ano passado vimos uma entrevista sua com a Barbados na qual você comentou que 2016 foi um bom ano para o crescimento de quadrinhos no mercado nacional. Você diria que o mesmo se repetiu agora em 2017?

Hoje vivemos uma situação um pouco diferente, muito por causa dos problemas econômicos do país. O que enxergamos é as pessoas querendo consumir e não podendo. Caso contrário, estaríamos estourando de vendas, mas o que se vê é que o país, no momento, não promove a grande escala de consumo necessária. Por outro lado, o mercado editorial não se sentiu tão ameaçado assim e continuou colocando produtos na prateleira. Aqui na feira, sem contar os independentes, acredito que estejamos com cerca de 50 lançamentos entre editoras de pequeno e grande porte.

Camilo Rodrigues e Jorge, que comandam a equipe da Comix. Foto: Míriam Castro/AE
Camilo Rodrigues e Jorge, que comandam a equipe da Comix. Foto: Míriam Castro/AE

Mas eles puxaram o freio em algum momento.

Sim, no começo do ano houve uma queda de vendas muito brusca, mas já é uma época em que as pessoas têm mais gastos mesmo, o que faz com que produtos como quadrinhos, literatura e entretenimento em geral fiquem de lado. Porém, no início do segundo semestre tivemos uma retomada, graças a eventos grandes como a Bienal do Livro, por exemplo, que sempre promovem o consumo deste tipo de material.

Você diria que foi prejudicial para a Comix o adiamento do Festival de Quadrinhos de Belo Horizonte para 2018? [Nota: o evento acontecerá entre os dias 30 de maio e 3 de junho]

Sim, o FIQ é um evento com o qual normalmente contamos, pois ele vinha em um crescimento constante que também aumentava as vendas de quadrinhos. Mas é aquela coisa, recebemos a notícia do cancelamento da edição 2017 já com a esperança do adiamento dela para uma data próxima.

E como vocês selecionam que títulos e quantidades levar para cada evento que participam?

Nós levamos os títulos que atendem ao público que vão em cada um desses eventos. Por exemplo, na Bienal do Livro nós não temos tantos colecionadores de quadrinhos, mas sim o público que conhece os personagens das séries de TV ou dos filmes. Há muitos leitores jovens também. Então levamos muitos mangás, quadrinhos do Flash e do Arqueiro Verde e os blockbusters que sempre chamam a atenção do público, como Watchmen e V de Vingança. Já em uma feira como essa, sabemos que a nata dos colecionadores de quadrinhos está aqui, então podemos trazer mais coisas, algumas delas direcionadas a certos tipos de leitores.

Vocês possuem alguma relação direta com as editoras para operações de vendas em eventos assim? Conversamos ontem com o Paulo Maffia, da Abril [Nota: Confiram a entrevista em vídeo aqui!] e ele nos disse que vocês possuem um relacionamento bem intrínseco em situações assim.

Essa relação para operações de vendas existe mesmo. O que acontece muitas vezes é que uma determinada editora não tem como investir em pessoal e estande para estar no evento sabendo que há riscos de não conseguir retorno do investimento. Ou seja, às vezes o produto deles não paga sozinho todas as despesas de estar aqui.

Para uma editora cult como a Veneta, por exemplo, há público para ela aqui na feira também, sem dúvidas, mas não vale a pena para eles investir 30 ou 40 mil reais em estande e montagem de pessoal e produtos sendo que há um risco de este valor não ser atingido nas vendas. Portanto, vale muito mais a pena nos procurar para que vendamos seu material, seja de forma consignada, com promoções ou o que for. Tem material da Mythos que não veio pra cá, da Devir… Então estávamos conversamos com o pessoal justamente para termos o acervo deles disponível aqui.

E como vocês estão lidando com a concorrência de lojas grandes que estão chegando com tudo no Brasil, como a Amazon?

Não é uma concorrência fácil, mas há alternativas. Nós temos que ir pra cima. Por isso marcamos presença em eventos, seja no norte ou no sul do país ou mesmo aqui, sempre mostrando a marca da Comix para todo mundo. Outro diferencial é que temos todo o acervo de publicações mensais das editoras e diversos tipos de colecionáveis com os quais eles não trabalham, e isso ajuda bastante.

Temos mais de 30 anos de vida no Brasil e passamos todo esse tempo mostrando para o mercado que existe uma loja, um lugar onde pessoas interessadas nesses produtos estarão lá para consumir. Também mantemos nossa loja virtual ativa, e hoje temos mais de 14 mil produtos cadastrados nela. [Nota: antes de esta entrevista ir ao ar, a loja online da Comix passou por uma mudança completa, certamente motivada pela concorrência digital enfrentada atualmente.]

O que notamos é que não podemos competir com eles no quesito preço. Eles praticamente pagam para vender. Portanto, a saída foi competir nos fortalecendo no que eles não têm. Material alternativo e independentes e outras coisas que enriquecem nosso acervo.

Aproveitando que você falou das décadas de vida da Comix aqui, conte como foi a chegada da sua família aqui, vinda da Angola, e a criação da banca de jornal que futuramente se tornou a loja.

Sim, é verdade. Meu pai veio para o Brasil em 1975 criar os filhos depois que estourou a guerra civil na Angola. Ele abriu um restaurante, mas o estabelecimento faliu em um ano e meu pai se viu na situação de criar uma família desempregado, arrumando, em seguida, serviço de balconista. Meu irmão, Carlos, que é dono da Editora Criativo, foi quem começou a Comix de verdade. Ele comprou uma banca de jornal e começou a procurar o diferencial dos quadrinhos, pois já amava a mídia na época e quis investir nisso.

Na época ele foi procurar a Martins Fontes, que tinha a coleção Opera Erotica, foi atrás da L&PM… Coisas que antes só existiam nas livrarias passam a estar na banca dele. Foi então que a gente começou a virar referencial, mesmo com as dificuldades todas de conseguir alguns materiais, pois banca de jornal não tinha CNPJ, e não ter um documento assim às vezes dificultava muito a aquisição de títulos. Além disso, a Devir surgiu nessa época também e, apesar de hoje eles serem conhecido por card games e board games, naqueles anos eles basicamente importadores de quadrinhos e nos enxergaram como uma referência. Chegamos a ter cerca de 300 clientes fiéis que iam semanalmente comprar quadrinhos importados lá, pois o delay entre o material lá de fora e as publicações aqui era de uns cinco anos.

Outra coisa que nos ajudou a crescer foi a Art & Comics, pois uma pessoa chegava lá querendo saber como podia desenhar para o mercado americano e o pessoal falava para nos procurar e comprar quadrinhos de determinados artistas para aprender a desenhar como eles, pois aquilo era o que fazia sucesso no momento. Assim fomos virando referência neste sentido também, de saber o que indicar para este pessoal.

Desde essa época também participávamos de eventos. Íamos para faculdades, para Bienais do Livro, a Bienal de Quadrinhos do Rio de Janeiro, que pouca gente deve se lembrar…

E o que você acha que a Comix representa hoje para o cenário nacional?

Cara, acho que nada, não (risos)! Se fosse pra ganhar dinheiro eu faria qualquer outra coisa, mas faço o que faço porque sou apaixonado.

E mesmo fazendo tanto como você faz pelos quadrinhos no Brasil, tem alguma coisa a mais que você gostaria de fazer?

Acho que não. Veja, começamos a fazer eventos de quadrinhos no Brasil quando isso nem existia por aqui. Nós já estamos participando de uma Comic Con, provavelmente a maior do mundo atualmente, o que era um sonho imenso, e até editamos quadrinhos. Fizemos produtos exclusivos com a Panini, meu irmão fez bastante coisa com a Opera Graphica… Quando houve uma destruição do selo Vertigo por aqui nós criamos o HQ Clube, um coletivo de lojas que criasse produtos e distribuísse os gibis semanalmente, assim como é feito nos Estados Unidos.

Infelizmente, não deu certo. Muitas lojas não se aguentam e é uma estrutura difícil de manter. Às vezes o dono da loja também acha que ter um comércio de quadrinhos é só abrir as portas e ficar no balcão lendo gibi que as vendas vão simplesmente chegar até ele; não se leva em conta que é necessário atrair seu cliente, conhecer os quadrinhos e divulgá-los também.

Acredito também que temos muito a crescer. Temos mais ou menos 200 mil pessoas passando aqui pelo evento, mas não temos nenhum quadrinhos vendendo 200 mil exemplares (risos).

O que vocês estão planejando para 2018? Teremos finalmente uma nova edição do Fest Comix?

Olha, quero muito fazer outra edição. O local que fazemos, que é aqui mesmo no SP Expo, encareceu bastante e minhas vendas do ano caíram 35%. Realmente não teve como fazermos uma nova edição do Fest em 2017. Mas comecei a procurar novos lugares e encontrei uma faculdade com a qual vou sentar para conversar depois que a CCXP acabar.

Para este ano eu tinha uma ideia mais abrangente, que era conseguir um lugar mais barato e fazer um evento para não cobrar entrada e chamar a atenção do pessoal que está meio duro, que quer apenas completar uns números de suas coleções, mas infelizmente não rolou. Ainda não posso prometer que vai rolar em 2018, mas com certeza estamos tentando.

Por fim, Jorge, deixe uma mensagem para nossos leitores e ouvintes, que são apaixonados por quadrinhos e com certeza os consomem também na Comix!

Continuem comprando quadrinhos! Afinal, é para isso que estamos aqui! O artista só produz um quadrinho se alguém estiver comprando. E não importa de onde você compre; o que importa é continuar incentivando o mercado para que as ideias brotem e ele continue a crescer.

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