[Catarse] Daniel Sousa apresenta seu Entrespaço

Drama e ficção são gêneros que flertam a todo momento em qualquer tipo de formato narrativo. Nos quadrinhos a fórmula é receita para material interessante e profundo ao mesmo tempo. Em 2018 o quadrinista Daniel Sousa lança a campanha para arrecadação de recursos via Catarse para seu novo trabalho, Entrespaço, que busca unir a ficção clássica a temas como introspecção e jornadas pessoais.

Para apresentar o projeto, Daniel conversou com o Terra Zero e nos contou tudo sobre a criação de Entrespaço, suas influências como artista de quadrinhos, seu método de trabalho e planos futuros.


Terra Zero: Então, em seu primeiro trabalho solo nós vamos até o espaço. De onde veio a inspiração para esta trama?

Daniel Sousa: O isolamento do personagem foi essencial para trabalhar a questão psicológica da trama, e uma viagem espacial solitária foi a minha primeira e única idéia. Junte a isso o fato de que eu sempre fui aficionado por ficção científica, mesmo antes de o ser por quadrinhos (e olha que lá se vão uns 35 anos de vício), então acredito que foi um caminho natural. Apesar de admirar caras como Asimov, Frank Herbert, Larry Niven e Joe Haldeman — que possuem um teor mais aventureiro em suas obras (em maior ou menor grau), meus maiores ídolos no sci-fi sempre foram Arthur C. Clarke e Philip K. Dick. Embora o Clarke sempre tivesse uma pegada mais realista – Encontro com Rama sendo um exemplo clássico – ele também possui muito conteúdo calcado no teor psicológico, como 2001 e O Fim da Infância, por exemplo. Da mesma maneira, toda a obra do Philip K. Dick é muito carregada de questões psicológicas — Androides sonham com Ovelhas Elétricas?, Os Três Estigmas de Palmer Eldritch, Labirinto da Morte, entre outros. Outra inspiração foi o arco do Moore onde o Monstro do Pântano tem sua frequência desconectada da Terra e é forçado a explorar diversas civilizações pelo universo. Toda a passagem do Moore pelo título é indiscutível, mas esse arco sempre ficou na minha cabeça. Lunar, o filme de 2009, foi uma inspiração para a HQ. Eu assisti o filme muito tempo depois de ter escrito o conto que serviria de base para esse projeto, mas a direção do Duncan Jones e a fotografia me impressionaram bastante. Ah sim, também tem o lance de que quando criança eu acreditava que tinha nascido em Marte.

Enfim, as referências sempre estiveram à minha volta, mas o fato é que o ponto central da história é o isolamento do astronauta. Olhando por esse lado, o espaço acaba sendo mais um MacGuffin do que qualquer outra coisa (E sim, eu mencionei o MacGuffin só pra parecer que eu sou culto).

Um astronauta sozinho na lua em uma missão de resgate abre um leque imenso de analogias. Esse protagonista é resultado de alguma espécie de autorreflexão?

Com certeza. Como eu escrevi na apresentação da campanha no Catarse, o roteiro reflete um período complicado da minha vida. Na verdade isso é uma coisa meio engraçada. Algumas pessoas que me conhecem pessoalmente vieram me perguntar/especular sobre esse tal período quando lancei a campanha de financiamento coletivo. Acho que por eu ser um cara casado e com filhos é natural deduzir que se tratasse de algum problema familiar. E não era.
A trajetória do astronauta reflete, sim, um peso que eu carregava nas costas, mas trata-se mais de determinação do que qualquer outra coisa. Eu não quero me alongar muito sobre o assunto, pois falar demais sobre o tema implicaria em entregar todo o conteúdo relevante da história, e eu realmente quero o leitor não só tenha alguns bons momentos de leitura, mas também acompanhe a trama e tenha acesso à essa mesma reflexão durante a viagem.
Pessoalmente, essa reflexão foi praticamente uma catarse, e tem ditado como toco a minha vida desde então. O fato é que o texto original, que escrevi em forma de conto em 2011, é mais a consequência dessa catarse do que um lamento sobre qualquer situação anterior a ela. Então trata-se de uma coisa positiva. Juro pra você.

Qual a dificuldade de roteirizar e desenhar algo com o teor semi abstrato como Entrespaço?

Foi difícil pra caramba, em vários aspectos. Primeiro, porque fazia muito tempo que eu não me dedicava a desenhar sequencialmente. Acho que consegui um resultado legal, mas estou me cobrando muito por aqui. A HQ já está inteiramente desenhada, mas como só vai para a gráfica ao final da campanha, estou aproveitando para retocar algumas passagens. Acho que essa é uma paranoia pela qual qualquer quadrinista passe, mas por ser um projeto autoral e o meu primeiro a ver a luz do dia, a pressão interna é maior. Segundo, chegou um momento que eu precisei me desconectar um pouco do aspecto psicológico para dar seguimento aos desenhos, principalmente em situações que envolviam desenhar maquinário. Cara, aprendi a odiar maquinários. Mas passados esses momentos, foi bem difícil compor cenas de teor dramático quando o personagem principal usa um capacete. Tive que contar quase que exclusivamente com a postura corporal do astronauta e o apoio do cenário (ou da falta dele) para transmitir alguma coisa, e isso foi realmente complicado. E por último, o roteiro também precisou de muitos ajustes. Algo que funciona exclusivamente como texto não funciona necessariamente bem em uma HQ, pois o andamento é outro. Então a HQ e o conto, apesar de compartilharem a mesma história, tem as narrativas construídas de formas diferentes.

Quais as principais influências na sua narrativa e arte neste quadrinho?

Além dos já mencionados Clarke e Dick, não dá para fugir da influência do mestre Morrison quando se trata de narrativas que possuem mais de uma camada de informação. Posso dizer o mesmo de J. M. DeMatteis com seus trabalhos em Moonshadow, Blood e numa escala diferente, Dr. Fate. Diametralmente oposto à isso, Warren Ellis é um deus para mim. Um deus sujo, pervertido e sem o menor amor por seus súditos, mas um deus mesmo assim, hahaha. A capacidade que esse cara tem de falar sobre QUALQUER coisa sempre me impressionou, e a falta de limites para abordar todo o tipo de situação me transformou em fã desde Doom 2099. Quem já leu Crooked Little Vein, o primeiro livro dele, sabe do que estou falando. Ao mesmo tempo, ele consegue ser conciso o suficiente em Planetary e prolixo e infame em Transmetropolitan. Para esta HQ, a influência de Ellis não chega a transparecer muito, por se tratar de uma história mais contida, mas ele influencia diretamente tudo o que escrevo. Na arte, sou fã de carteirinha de Dave McKean e Bill Sienkiewicz desde sempre. Ben Templesmith é uma pedra fundamental no meu traço atual, assim como Mike Mignola. Mais uma vez, não creio que seja possível perceber muito dessas influências em Entrespaço, pelo mesmo motivo, mas o pouco que já desenhei do meu próximo projeto já deixa isso bem mais claro tanto no traço quanto nas cores. Desenhar esta HQ foi uma experiência que vai além de ilustrar uma história por diversão, então, da mesma maneira que precisei entrar em contato com muita coisa pessoal no roteiro, a arte tem um estilo diferente de tudo que costumo desenhar. É um traço bem mais contido em alguns momentos, e mais distorcido quando necessário. Mas nem por isso deixei de consultar a minha coleção quando buscava por inspiração. Além disso, sou fã assumido do Mario Cau, com quem tive poucas (mas boas) aulas de desenho. A noção de composição que ele tem ao criar os quadros é incrível. Terapia é uma viagem visual impressionante. Em 2006, frequentei um workshop de ilustração com o Daniel Bueno, que além de ser um cara muito gente boa, tem um estilo bem peculiar de trabalhar com colagens. Há alguns anos criei uma série de ilustrações para um livro de contos — que ainda está em processo de publicação pelo autor — e pude colocar para fora uma grande influência do trabalho do Bueno.

Entrespaço é inspirado em um conto de sua autoria chamado O Homem do espaço de 2011, certo? Como foi retornar a este conto como seu primeiro trabalho autoral em quadrinhos?

Foi tão catártico quanto escrevê-lo da primeira vez. Como eu disse antes, o conto é bem pessoal, metaforicamente falando. Rever a narrativa foi como olhar de uma boa distância para tudo que eu consegui botar em prática de lá para cá. Produzir quadrinhos é uma vontade que surgiu praticamente no mesmo momento que comecei a lê-las. Considerando a zona que é a minha rotina (casado, 4 filhos, trabalhando como autônomo em casa há 5 anos), foi uma vitória bem maior do que pode parecer finalizar essa HQ. Retornar ao conto como a primeira HQ minha que vê a luz do dia é importante não só pelo teor pessoal da história, mas também porque é a primeira de muitas. Eu reclamei por muito tempo sobre trabalhar exclusivamente para pagar as contas e deixar de lado meus projetos pessoais, e percebi que entrar de cabeça nessa produção era apenas uma questão de me organizar internamente.

O homem no espaço me lembra a música homônima de Jorge Benjor? Ahahahaha… Há alguma relação da história com esta canção? Ou outra inspiração musical, como David Bowie neste trabalho?

Hahahahaha. Confesso que precisei procurar a letra do Jorge Benjor para responder, e falo com tranquilidade que não. São temas completamente diferentes. Sobre o Bowie, não tem nem como fugir da afirmação. Duas das recompensas da campanha no Catarse tem justamente como título Major Tom e Bowie. Tenho uma playlist do dele que tocou continuamente durante os 3 meses que levei para produzir esta HQ.

Agora, a letra de Space Oddity tem várias interpretações, mas eu realmente não me atentei às letras mas sim ao clima. A música do Bowie como um todo, especialmente nessa fase que vai de Space Oddity até Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (ô titulo longo) e o Black Star foram essenciais para a ambientação. Também aproveitei da psicodelia do Zappa e de uma banda que eu adoro que é o Colour Haze para entrar no clima cada vez que sentava para desenhar, mas de uma maneira mais literal não houve uma inspiração direta para a criação desse projeto. Da mesma maneira, a fase mais, aham, tranquila dos caras do [Einzturzende] Neubauten também tocou bastante por aqui.

Entrespaço será vendida também no FIQ 2018. Qual a expectativa para este evento?

Entrespaço será lançada durante o FIQ 2018. Eu poderia dizer que eu estou contente com a oportunidade de participar do evento, mas estaria sendo contido. Na verdade eu estou em estado de euforia constante por aqui e contando para todos, de parentes e amigos próximos até a moça do caixa no supermercado. Pode ser também que eu tenha incluído a informação no campo de observações do app quando pedi uma pizza no dia que recebi o email da confirmação da equipe do FIQ. Então sim, a expectativa é imensa. Estar do outro lado da mesa de um evento desse porte, junto de gente que está começando como eu, profissionais que já estão na estrada há um bom tempo e também de monstros da HQ mundial é ao mesmo tempo aterrorizante e muito empolgante. Se uma só pessoa parar para folhear a revista por lá, já estarei realizado. Espero sobreviver até a data do evento.

Entrespaço abre “espaço” para novas hqs autorais daqui para frente? Você já pensa em outros projetos autorais para o futuro?

Definitivamente sim. Na verdade, antes de começar a adaptação do meu conto para Entrespaço eu já estava trabalhando em uma HQ chamada O Bar do Pântano. É um projeto com arte minha e roteiros do Felipe Tazzo. Além de já ter 2 livros de crônicas publicados, o Tazzo é um cara que consegue ser produtor cultural, fotógrafo, cervejeiro e ainda encontrar tempo para discutir sobre os 9 círculos do inferno e transformar isso em um universo imenso a ser explorado em forma de quadrinhos — do qual O Bar do Inferno é a primeira peça. Eu já havia desenhado as 3 primeiras páginas quando percebi que precisava tirar Entrespaço do meu sistema. Assim que fechar os arquivos de Entrespaço já continuo de onde parei no Bar do Inferno. Também tenho um arquivo de idéias que fui colecionando ao longo dos anos, então mais projetos solo também surgirão com o tempo. Então, se tudo der certo, vai ser uma atrás da outra.

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