The Heap: O primeiro Monstro do Pântano

Embora faça parte de mitos e lendas ao redor do mundo por centenas de anos, como os kelpies escoceses e o kappa japonês, o arquétipo dos monstros do pântano — ou muck-monsters, como são chamados nos EUA — apareceu pela primeira vez na cultura pop em agosto de 1940 no conto “It!” de Theodore Sturgeon, publicado na revista Unknown. Na história, um monstro feito de plantas surge em um pântano em torno do esqueleto do corretor da bolsa de valores, Roger Kirk, morto durante o crash da Bolsa de Nova Iorque em 1929.

It Sturgeon Marvel
Quadrinização do conto “It!”, de Theodore Surgeon, feita pela Marvel nos anos 1970.

Dois anos depois, em dezembro de 1942, chegava às bancas americanas a revista Air Fighters Comics #03, publicada pela Hillman Publications, trazendo em suas páginas a HQ Sky Wolf, escrita por Harry Stein e desenhada por Mort Leav, que contava a história do Barão Eric von Emmelman, um piloto alemão da Primeira Guerra Mundial, parte do esquadrão comandado pelo Barão Vermelho, que é abatido durante um combate e cai em um pântano polonês em 1918. Graças à vontade de viver de Emmelman, seu corpo foi coberto pela vegetação local, permitindo que ele sobrevivesse e ressurgisse como uma criatura humanoide feita de plantas e musgo conhecida como The Heap, ou Monstro, como foi chamado no Brasil.

Perambulando pelos charcos próximos a uma pequena cidade da Polônia, a criatura se depara com os destroços do avião do temível Barão Von Tundra, do alto comando nazista. O Barão, recém-abatido pelo herói Sky Wolf, é reconhecido pelo monstro como um compatriota alemão e a criatura leva o vilão de volta para a cidade onde é capturada pelos capangas do Barão para ser usada para torturar os prisioneiros. Durante a noite, Sky Wolf chega sorrateiramente à cidade, liberta os poloneses capturados e enfrenta o Barão Von Tundra e seus capangas. Durante o conflito, o Monstro se liberta e é detido por uma bomba lançada pelo herói. O Monstro voltaria às páginas de Air Fighters na edição de número 9, de junho de 1943, na HQ The Heap Returns, com roteiro atribuído atualmente a Harry Stein e ilustrada por Dan Barry, na qual o Monstro rouba um avião nazista (!!!) e acaba sendo abatido por Sky Wolf.

Em suas primeiras aventuras, o visual do Monstro era bastante diferente daquele pelo qual é mais reconhecido. Ao contrário do corpo verde com uma raiz pendendo de sua face como uma tromba, a criatura era branca e possuía dois grandes e vampíricos caninos, com os quais se alimentava sugando o sangue de animais. Foi apenas em Air Fighters #10, de setembro de 1945, que a criatura receberia seu primeiro redesign pelo desenhista John Belfi, que a deixaria com a forma pela qual é mais reconhecida. Também intitulada The Heap Returns!, a HQ, cujo autor permanece desconhecido, reconta a origem do Monstro com mais detalhes e o coloca novamente frente a frente com nazistas e o herói Sky Wolf.

Muito superior às duas histórias anteriores, The Heap Returns! desenvolve melhor a criatura, dando a ela um aspecto mais humano e menos animalesco, tornando-a um monstro atormentado mais aos moldes da criatura de Frankenstein, bem semelhante à personalidade desenvolvida por Len Wein para o seu próprio “muck-monster” em House of Secrets #92, quando criou o Monstro do Pântano. No final da HQ, após se envolver no assassinato da mulher que tentava proteger, a criatura se sacrifica para derrotar os nazistas e finalmente é reconhecida por Sky Wolf como um herói.

A partir daí o Monstro vaga pelo mundo auxiliando aqueles em necessidade, muitas vezes de maneira incompreendida, e enfrentando criaturas mais bizarras do que ele mesmo. Com o tempo, nosso anti-herói teve até um parceiro mirim, o jovem Rick Wood, cujo biplano de brinquedo frequentemente desenterrava memórias do passado da criatura e desencadeia a improvável amizade entre os dois personagens, conforme mostrado em Airboy Comics #09 de outubro de 1946, na história “Enter: Rick Wood”, escrita por Bill Woofolk e desenhada por ninguém mais, ninguém menos que Carmine Infantino. A criatura se tornou um dos astros das páginas da revista e passou a viver inúmeras aventuras ao lado de seu jovem amigo Rick até o gibi ser cancelado em maio de 1953, quando a editora encerrou suas atividades envolvendo revistas em quadrinhos.

A primeira ressurreição de The Heap, em 1971, pela Skywald.

Os direitos do personagem da Hillman permaneceram no limbo até que a editora Skywald Publications, especializada em quadrinhos de horror em preto e branco no formato magazine, ressuscitou o monstro em uma edição one-shot intitulada “The Heap”, escrita por Robert Kahniger e ilustrada por Tom Sutton em setembro de 1971. Nesta nova versão, o piloto, agora chamado Jim Roberts, cai com seu avião em um depósito de lixo tóxico, transformando-se em uma criatura mutante e inteligente feita de musgo. Roy Thomas, fã declarado do personagem e criador do Homem-Coisa, muck-monster da Marvel, alega ter sido o responsável por incentivar que a Skywald trouxesse o monstro de volta. Segundo o escritor, ele sugeriu ao cofundador da editora, Sol Brodsky, que ele trouxesse o personagem de volta usando como referência o sucesso do Homem-Coisa. The Heap estrelaria posteriormente nas páginas da revista Psycho da Skywald nas edições 2 a 13, entre 1971 e 1973, até a editora vir à falência.

The Heap no Parlamento das Árvores. Arte: Stan Woch e Ron Randall.

O Monstro faz uma rápida, e não oficial, aparição em meio ao Parlamento das Árvores em abril de 1986 na Swamp Thing #47 da DC Comics, em uma história escrita por Alan Moore e ilustrada por Stan Woch e Ron Randall. Woch voltaria ao personagem alguns meses, depois quando a Eclipse Comics adquiriu os direitos dos personagens da Hillman e lançou uma nova e atualizada revista intitulada Airboy, escrita por Chuck Dixon. A criatura retorna em Airboy #03, de agosto de 1986, e se torna um personagem recorrente nas páginas da revista até a última edição, de número 50, em outubro de 1989.

Ainda em 1986, o monstro participou de três edições da revista The New Wave onde a criatura se alia ao grupo de heróis místicos meio hippies. O Monstro apareceu em algumas edições inéditas publicadas pela Eclipse junto de outros personagens da editora e em reedições de clássicos da Hillman até 1993, quando a Eclipse fecharia as portas.

Com a falência da Eclipse em 1995, Todd McFarlane adquiriu os direitos sobre as propriedades intelectuais da editora, incluindo The Heap e também Miracleman, que anos depois levaria o artista a um longo processo litigioso. Como parte do projeto de expansão do seu universo super-heroico na Image , McFarlane atualizou o nonstro como parte da revista Spawn, seu maior sucesso. Aparecendo pela primeira vez em Spawn #73, de junho de 1998, esta nova versão do Monstro é um mendigo chamado Eddie Beckett que acaba assassinado após encontrar um saco de necroplasma, a substância que cobre o corpo do Spawn. A substância reage à sua morte aderindo todo o lixo ao seu redor à sua pele para mantê-lo vivo. Essa nova versão do Monstro acabaria enfrentando e engolindo Spawn, mandando-o para o “Mundo Verde” por duas vezes, até ser novamente esquecida.

The Heap na versão Image. Arte de Greg Capullo.

Em agosto de 2011, a Moonstone Books, uma pequena editora de Chicago especializada em quadrinhos de personagens advindos da literatura pulp, que havia recentemente adquirido os direitos dos personagens da Hillman, lançou uma minissérie em três partes intitulada The Heap, escrita por Charles Knauf e ilustrada por Sam Kivela. Essa nova versão do monstro possui uma origem muito próxima do original, mas com algumas diferenças, como a inclusão de alguns elementos da mitologia nórdica e aproximando a criatura muito mais de uma entidade mitológica, como o cernuno ou os “homens verdes”, defensora da natureza e do planeta Terra. Foi a última vez que vimos o monstro nas páginas dos quadrinhos, mas recentemente, em junho de 2015, a Image publicou uma nova versão de Airboy escrita por James Robinson e,  portanto, podemos nos arriscar a dizer que os direitos do personagem ainda permaneçam nas mãos da Image, que pode ressuscitá-lo a qualquer momento.

Revista Mundo Juvenil #7.

No Brasil, o monstro fez sua estreia na revista Mundo Juvenil #03 da Editora Aliança, em setembro de 1953, com a história publicada originalmente em Airboy Comics #09 de 1946, e posteriormente, nas edições 6 e 7 de Mundo Juvenil até voltar ao país, mais de cinquenta anos depois, nas páginas de Spawn #148, de outubro de 2005. Você também pode identificá-lo pelo pequeno avião de brinquedo na página 120 do Livro Quatro de A Saga do Monstro do Pântano, publicado no Brasil pela Panini em abril de 2015. Mais recentemente, o monstro apareceu na coletânea Os Morcegos-Cérebros de Vênus e Outras Histórias, da Editora Mino, na história O Lodo, tradução utilizada para The Heap no encadernado.

Tendo sido o primeiro de uma longa série de criaturas pantanosas formadas de musgo, vegetais e até mesmo lixo, o monstro põe fim, de uma vez por todas, àquela famosa e recorrente discussão entre quem veio primeiro, o Monstro do Pântano ou o Homem-Coisa, já que ambos os responsáveis pelos muck-monsters da DC e Marvel, Len Wein e Steve Gerber, muitas vezes declararam publicamente terem sido leitores assíduos das revistas da Hillman e fãs de carteirinha de The Heap. Steve Gerber, inclusive, era tão fã do personagem que repetiu a homenagem no episódio “Prisão Sem Muros” do desenho Caverna do Dragão, para o qual escreveu o roteiro.

Porque Caverna do Dragão é muito referencial, realmente. Isso acontece no episódio “Prisão sem muros“, escrito por Steve Gerber para a primeira temporada da animação.

Pelo visto, os cadáveres enterrados no fértil solo do pântano da imaginação não param de dar frutos.