Semilunar e a musicalidade dentro de nós

Música é a expressão artística mais inspiradora. Tudo pode se transmitido por conta das frequências que vem das cordas, sopro, batidas e voz. Uma experiência que leva você a sentir o mundo a sua volta. Essas sensações, com a combinação de quadrinhos com música, é que transformam Semilunar, de Camilo Solano, em uma obra tão singular.

Financiada pela iniciativa do ProAC do governo do estado de São Paulo em 2016, a produção de Solano teve a produção de dois anos e a HQ teve seu lançamento oficial em novembro de 2017, pela Balão Editorial. A trajetória de criação do trabalho foi comentada por Solano em uma entrevista para o Terra Zero, mas agora quero escrever e comentar essa história.

Semilunar é um osso da mão e ele está situado no centro da fileira proximal do carpo (no pulso), entre os ossos escafoide e piramidal. Em termos bastante técnicos, esse nome é um gatilho para conhecermos Maria, uma menina que sofre de disfemia, a popular gagueira. A menina tem que lidar com essa limitação e, para isso, sua mãe a ensinou a cantar e declamar poemas. Dessa forma, a protagonista conseguiria se concentrar para poder se comunicar melhor com as pessoas.

Maria é uma menina muito dócil e que tem o sonho de se tornar uma musicista. Sua vida tem uma virada quando ela descobre que pode entrar em uma escola de música renomada tocando o seu violão. Entretanto, nem tudo é fácil na vida dessa menina tão talentosa. Algo acontece e ela tem que aprender a driblar novamente seus limites.

Solano constrói uma narrativa muito bem distribuída e de uma naturalidade invejável. O autor testa seus limites quando se trata de quadrinhos: colore, diagrama de formas variadas, escreve poemas e músicas para tentar deixar o mundo de Maria ainda mais completo e o leitor criar afeto pela protagonista, vivenciando o drama da garota em todos os níveis. É perceptível o grande cuidado para que o roteiro ficasse sem arestas e que nos sentíssemos parte da vida de Maria.

Outra personagem que merece destaque na escrita de Solano é a mãe de Maria. A sua ideia era criar uma persona que inspirasse a protagonista e ainda cobrasse o melhor da menina. Essa dualidade fala muito sobre milhares de relações entre pais e filhos. Adultos algumas vezes frustados por não terem conseguindo alcançar seus objetivos, jogando esse fardo para seus filhos que muitas vezes não estão preparados ou não querem seguir o mesmo caminho do seus progenitores. Dentro de Semilunar, essa discussão é feita de forma simples, mas é compensada com a profundidade com que a mãe de Maria se expressa perante a filha e seus objetivos traçados.

Tudo o que foi comentado acima só mostra o poder da história contada em Semilunar. Um gibi que fala sobre dificuldades que a vida nos expõe diariamente, sobre vencer seus limites, sobre amar e principalmente sobre sonhar e realizar. É um gibi para se ler e reler, dada a força dessa história que inspira e respira arte e musicalidade. Um casamento perfeito para os amantes das duas vertentes. Não ficaria nada surpreso se essa obra entrar no quadro de premiações para quadrinhos em 2018.

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