[Review] Trindade: Com grande potencial, Manapul falha na execução

Parece ser uma daquelas coisas que não tinha como dar errado: uma nova HQ da Trindade da DC (Superman, Batman e Mulher-Maravilha) com roteiro e arte do superstar Francis Manapul, que seria apoiado por alguns outros artistas fill-in em algumas edições de cada arco de histórias. De fama principalmente de The Flash, pré e pós-Novos 52, Manapul é um dos maiores desenhistas da última década a trabalhar nos Estados Unidos, e vê-lo no comando de uma revista deste calibre deixou fãs da DC ouriçados pelo mundo todo.

Infelizmente, já de cara dá pra dizer que Manapul não atingiu as expectativas. Trindade, que acabou de sair pela Panini em todo o Brasil, é um gibi bacana e, em alguns momentos, muito interessante, mas não passou perto de alcançar o que poderia ter conseguido. E nem estamos falando aqui de toda a expectativa gerada em torno de Manapul, mas sim da própria execução da história diante de sua premissa.

Na história, logo após um jantar na fazenda dos Kent arrumado por Lois Lane a Trindade parece estar envolta de um estranho mundo onírico com diversas familiaridades em relação ao passado de Clark Kent, Bruce Wayne e Diana Prince, mas algumas peças estão fora do lugar. Os três sabem disso, o que confirma a eles a presença de suas consciências dentro do mundo de fantasia. Cabe a cada um deles, portanto, descobrir como sair daquilo e, eventualmente, capturar o(a) responsável por isso.

Capa do encadernado de Trindade, da Panini, em arte de Francis Manapul.
Capa do encadernado de Trindade, da Panini, em arte de Francis Manapul.

Mesmo o leitor que não ler a sinopse do encadernado contida em sua quarta capa, perceberá do que a história se trata. Manapul optou por homenagear o clássico de Alan Moore e Dave Gibbons, Para o Homem que tem tudo…, de 1985, do que escrever uma história nova que trabalhasse em cima da simbologia da Trindade dos super-heróis. Novamente, a planta alucinógena Clemência Negra entra em jogo para causar transes ainda mais complexos que da outra vez na vida dos três heróis, fazendo pequeníssimas referências à história original.

Contudo, apesar de a arte espetacular do autor e de os primeiros capítulos da HQ trazerem à tona elementos impressionantes sobre a natureza de cada membro do trio, nem tudo funciona como deveria. Quando o autor parece caminhar para algo novo, ele escolhe percorrer traços familiares e pouco inovadores – mesmo que a arte, quando não é dele, seja dos incríveis Clay Mann e Emanuela Lupacchino.

O estudo que Manapul faz ao longo da HQ sobre a psique de cada membro da Trindade é muito bom. É um autor que entende os personagens e conhece a natureza de cada um, ao ponto de explorar suas fraquezas e o que os torna fortes de verdade. Força física? Dinheiro? Habilidades? Traquitanas? Nada disso. É determinação, honra, integridade, altruísmo e ética. Ainda que não de forma tão aprofundada, todos estes elementos são levantados por Manapul no decorrer de sua história. Sua falha está em justamente não mergulhar de verdade na piscina de ideias que ele mesmo construiu e escolher uma solução piegas (e até boba, de certa forma) para o arco.

Página de Trindade por Clay Mann.
Página de Trindade por Clay Mann.
Página de Trindade por Emanuela Lupacchino.
Página de Trindade por Emanuela Lupacchino.
Página de Trindade por Francis Manapul.
Página de Trindade por Francis Manapul.

Se no início dava-se a sensação de que a Trindade corria perigo de verdade, antes de chegar ao final sabemos que tudo ficará bem e que eles aprenderam muito pouco com a experiência pela qual passaram. Vilões envolvidos com a presença da Clemência Negra voltam ao statu quo e os heróis não sofrem quase nenhuma mudança na relação que existe entre eles. Não fosse pelos ótimos três ou quatro capítulos iniciais, a HQ seria um verdadeiro desperdício de talento. É muita gente boa trabalhando em um quadrinho que é apenas mediano.


Sinopse/Ficha Técnica:
Título: Trindade n° 1
Roteiro: Francis Manapul
Arte: Francis Manapul, Clay Mann, Emanuela Lupacchino
Arte-Final: Francis Manapul, Seth Mann, Ray McCarthy, Matt Santorelli

Cores: Francis Manapul, Brad Anderson, Hi-Fi Design
Páginas: 140
Publicação: Panini (Janeiro de 2018)
Idioma: Português
Preço de Capa (cartonada): R$ 21,90

Batman, Superman e Mulher-Maravilha. Juntos, eles são os maiores heróis que o mundo já viu. E o vínculo entre eles está prestes a ser testado como nunca antes! Ao mesmo tempo em que um Homem de Aço mais velho e mais sábio toma o lugar do ousado jovem herói que eles conheceram um dia, o Homem-Morcego e a princesa Diana precisam encarar uma força que vai testar não só suas habilidades físicas, mas também suas almas.

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