[Review] O retorno de Jean Grey em Phoenix Resurrection

Jean Grey (a primeira e única) esteve morta por um bom tempo. Sua última morte aconteceu pelas mãos de Xorn na passagem de Grant Morrison pelos X-Men (de 2001 a 2004). Apesar de um breve retorno na dramática minissérie de Greg Pak, Phoenix: Endsong (de 2005), é memorável o quanto tempo a personagem esteve afastada do universo Marvel, principalmente considerando a natureza da Força Fênix e a própria tendência da editora a matar e reviver seus ícones em intervalos curtíssimos de tempo.

Como parte da iniciativa Marvel Legacy no final do ano de 2017, o editorial da nova linha mutante da editora escalou o roteirista em ascensão Matthew Rosenberg (4 Kids walk into a bank; Justiceiro; Rei do Crime) para trazer a ruiva de volta ao universo primordial da Marvel. Aliado a ilustradores como Joe Bennett, Carlos Pacheco, Leinil Francis Yu e Ramon Rosanas, temos o time de Phoenix: Resurrection — mini em cinco partes que será compilada em formato único pela editora em abril.

Resurrection reúne quase que todos os principais mutantes do universo Marvel atual em uma investigação ao redor do planeta a respeito de fenômenos psiônicos que vem afetando os principais mutantes telepatas do planeta, desaparecimento de pessoas e reaparecimento de adversários aleatórios dos X-Men. Enquanto isso, em uma pequena cidade estranhamente pacata, uma inocente Jean Grey trabalha como garçonete em um café, alheia a todos estes acontecimentos, mas tendo sonhos e visões com um enorme pássaro em chamas.

As cinco edições de Resurrection mostram como a Força Fênix prepara Jean para seu retorno ao universo Marvel e como esta preparação afeta todos os mutantes do planeta. Os núcleos narrativos divididos em times servem basicamente para manter a ação variada e de certa forma apresentar ou reapresentar grande parte do elenco mutante atual da Marvel. Em meio ao mistério de quem é esta Jean, onde ela está e o que está fazendo, temos as cenas de ação e investigação com três equipes de X-Men encabeçadas sempre por Hank McCoy, Kitty Pride e Vampira. Com auxílio de Emma Frost, eventualmente os mutantes conseguem pistas para o mistério da Fênix e, assim, o paradeiro de Jean.

O roteiro de Resurrection é bastante cadenciado. Rosenberg usa muitas páginas de sonhos com referências a acontecimentos marcantes na vida da protagonista para chegar a um momento catártico em sua última edição. A correria dos X-Men pelo globo caçando pistas sobre a Fênix e enfrentando inimigos antigos é bastante burocrática e parece repetitiva em algumas partes. O autor tem um bom entendimento e domínio do elenco. São louváveis as interações principalmente entre Kitty, Hank, o jovem Ciclope, o velho Logan e a própria Jean. Rosenberg entrega diálogos sólidos de quem conhece de X-Men (principalmente da era Claremont).

O problema é que o impacto de Resurrection só se dá de fato em sua última edição. E que impacto! A última edição em termos de roteiro (e arte) compensa o aparente marasmo que o leitor é obrigado a amargar nas quatro edições anteriores. Temos cenas muito forte e emocionais para fãs dos X-Men, um retorno muito bonito para a protagonista, um adeus digno a um personagem muito maltratado em Inumanos vs X-Men e uma presença gigante do Velho Logan para esta história. O diálogo entre Jean e a Fênix no final desta edição é de uma sensibilidade muito apurada e merece ser relido algumas vezes. Com isso as quatro primeiras edições da mini simplesmente somem da mente do leitor quando a pessoa lê esta quinta edição. Isso nos faz questionar: um formato um pouco mais enxuto não seria mais proveitoso nesse caso?

A arte em Resurrection é um trabalho conjunto entre quatro ilustradores com estilos não muito parecidos. Isso não chega a deixar o quadrinho com aspecto visual disforme, mas temos eventuais escorregadas principalmente nas partes desenhadas por Ramon Rosanas. O restante dos ilustradores consegue dar o impacto visual que um quadrinho desta magnitude precisa. Destaque aqui para o trabalho de Leinil Yu e Joe Bennett na última edição com domínio pleno da narrativa visual, fotografia intensa e caracterização impecável de todo os principais personagens. Yu e Bennett entendem a carga dramática deste clímax e isso transparece nas páginas com muito vigor.

Retornos da morte em quadrinhos são sempre questionáveis. É da nossa natureza como leitores ter dificuldade em aceitar personagens falecidos voltando do além. Entretanto é também da natureza da Força Fênix o renascimento. E, apesar da enrolação nas quatro edições iniciais de Resurrection, Matthew Rosenberg e cia dão uma guinada dramática vertiginosa na edição final. Temos aqui tudo que um fã de Jean espera da personagem em uma única edição e até algumas surpresas. Esta é uma nova Jean. Uma personagem que cresceu e está pronta para não cair nas armadilhas narrativas da mesmice em suas novas aventuras. Uma tela em branco e um terreno muito fértil foram deixados ao final de Phoenix: Resurrection. Resta ao time de escritores que tiverem a responsabilidade de escrever Jean Grey daqui para frente usarem isto com a mesma sabedoria e maturidade com que a personagem foi interpretada nesta série.

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