[Entrevista] Kurt Busiek apresenta Batman: a criatura da noite

A quantidade de interpretações e versões de Batman em histórias publicadas pela DC ao longo de seus 79 anos poderia garantir (e de fato garante) infinitos artigos e debates pelos aficionados, especialistas e fãs do personagem. Mesmo com essa quantidade imensa de material, vez por outra algum autor reacende a curiosidade dos leitores com alguma ideia inteiramente nova e empolgante. Este é o caso do aclamado Kurt Busiek e sua Batman: Creature of the night — minissérie em quatro edições com início de publicação em novembro de 2017. Na entrevista abaixo, o criador de Astro City apresenta seu novo trabalho exclusivamente ao Brasil, além de abrir o jogo sobre suas ideias para histórias do Flash, Mulher-Maravilha, o retorno de seu trabalho autoral na Image, Autumnlands, além de discutir o papel do autor e sua relação com o público na internet.


Terra Zero: Batman: Creature of the night tem sido vendido pela DC e por você como um projeto irmão de Superman: Identidade Secreta, de 2004. Você poderia explicar isso?

Kurt Busiek: Bem, ambas são histórias sobre alguém no mundo normal — um mundo no qual Batman e Superman são personagens em quadrinhos mundialmente famosos e não são reais — e nas quais alguém da história tem algum tipo de paralelo com o personagem em quadrinho em questão. Ambos se tornam uma versão daquele personagem e exploramos como isso os afeta e o que isso significa em seu interior e para suas vidas. Ambas histórias usam as metáforas de Batman e Superman e as aplicam a vidas em maneiras diferentes.

Então essas histórias são irmãs desta forma, pois são claramente construídas ao redor da mesma premissa. Mas elas não pertencem ao mesmo mundo, então uma não é sequência da outra. A conexão entre elas é a ideia, não a história.

Quando você deu a ideia para Identidade Secreta já tinha algo sobre o Batman em mente?

Não. Quer dizer, eu já tinha várias ideias que iriam na história do Batman, mas elas eram somente ideias sobre como o Batman é um personagem cativante e sobre o que os leitores respondem em se tratando de Batman, coisas desse tipo. Eu não pensei “Vou dar essa ideia para o Superman e se tudo correr bem, dou uma ideia para o Batman”.

Nós fizemos a do Superman e ela foi muito bem recebida, então me perguntaram se eu tinha alguma ideia similar, e eu disse “Bem, tenho ideias sobre o Batman que funcionariam em uma história desse tipo”. Isso aconteceu enquanto Identidade Secreta estava sendo feita, mas a primeira edição dela já havia sido publicada.

A história em Creature of the Night se passa em Boston em 1968. Eu sei que você foi criado naquela região. Isso foi intencional para facilitar as referências temporais ou existe alguma outra razão para essa escolha?

Certamente é conveniente que Bruce Wainwright [protagonista da história] tenha a minha idade e cresceu em uma área com a qual eu sou minimamente familiarizado, mas essa não foi a razão para fazê-lo. Afinal fizemos Identidade Secreta no Kansas, e eu nunca morei lá.

Mas assim como tivemos Kansas e Manhattan em Identidade Secreta, para nos dar um cenário que emulasse Pequenópolis e Metrópolis no mundo real, para Creature precisávamos de uma Gotham do mundo real. E apesar de Gotham ter sido inspirada em Nova York, pareceu apropriado escolher Boston dessa vez. Ela tem o tipo certo de atmosfera, as velhas construções e as igrejas, o crime… parece certo para mim. Alguma outra pessoa poderia ter escolhido Chicago, mas Boston funcionou para mim.

Adicionalmente, é claro, como mencionei, isso facilita para mim na hora de mencionar lugares e programas de TV locais e coisas do tipo sem ter que fazer muita pesquisa.

No começo de Creature of the Night você explora muitas emoções da infância e sentimentos de injustiça e raiva em relação a tragédias. Como você evita repetir a velha história de origem de Bruce Wayne com Wainwright?

Nós queríamos especificamente ecoar a velha história de origem, ao menos no que tange a situação dos pais de Bruce terem sido assassinados por um evento criminoso imprevisível e ter Bruce traumatizado e enfurecido por isso. Então fizemos isso. Mas fizemos Wainwright em uma situação financeira boa, mas não super-rico, e não fizemos nosso Bruce prometer se engajar em uma cruzada contra o crime e treinar para ser um acrobata e criminologista porque não estamos contando a mesma história. Nós queríamos explorar as emoções mais do que duplicar os detalhes. Então usamos o suficiente desses elementos para conectar os dois, para fazer o nosso Bruce pensar sobre seu trauma em termos da origem do Batman — mas, a partir deste ponto, fomos onde nossa história precisava ir em vez de irmos para onde a história do Batman geralmente vai.

Creature of the Night tem uma sensação de horror sobrenatural meio ausente nas histórias atuais do Batman. Que tipo de histórias te inspiraram a chegar a esse tom em algumas cenas desse quadrinho?

Bem, Batman é uma série mais sombria que Superman. Superman é sobre ficção científica e esperança de manhãs ensolaradas e Batman é sobre crime, trauma e sombras na noite. Batman é sobre um cara que se veste de morcego — mas do jeito que ele coloca, originalmente, era tipo “Eu me tornarei um morcego”. Então se estamos explorando esta metáfora com uma criança traumatizada, não é muito impactante fazer a criança se vestir como um morcego, não em um mundo mais realista, mas se voltar para o lado assustador e fazer uma história de crime e horror, essa foi a pegada certa, aquela sensibilidade gótica e monstruosa.

Então, por um lado temos aquelas histórias nas quais os criminosos reagem ao Batman como se ele fosse sobrenatural, como se ele fosse algum mestre inumano caçando-os — isso é parte da inspiração. Por outro lado, ler autores como Stephen King, que trouxe temas de horror para ambientes modernos, me deu uma sensação de como poderia fazê-lo também.

Existem muitas similaridades entre Boston e Gotham. Como foi crescer em uma cidade tão similar a Gotham sendo um leitor de quadrinhos?

Eu não cresci propriamente em Boston, exceto quando eu era muito novo… Eu morava na parte residencial. Mas eu conhecia Boston bastante. Eu tive e ainda tenho parentes na cidade. Mas eu não sentia que estava crescendo em Gotham ou perto de Gotham porque era tipo a minha casa. Foi a primeira cidade grande com a qual eu tive contato, então era normal para mim.

Eu aprendi sobre a história e vi a arquitetura e tudo mais, mas eu provavelmente não comecei a pensar em Boston como um lugar gótico e assustador até eu começar a ler A Tumba do Drácula, de Marv Wolfman e Gene Colan. Eles usavam a cidade como pano de fundo para aventuras de vampiro e ela funcionava muito bem.

Parece que o artista, John Paul Leon, contribuiu um pouco para o roteiro de Creature of the Night. Como foi essa colaboração entre vocês para o roteiro?

Eu diria que John Paul contribuiu para a história, o que afetou a maneira como escrevi o roteiro, mas não co-escrevemos o roteiro ou nada do tipo. Quando nós começamos, eu já havia escrito a primeira edição para um outro artista, que no final acabou não desenhando este quadrinho. Mas eu insisti que John Paul fizesse sugestões para que nós fizéssemos de Creature of the Night o “nosso” projeto, mais do que o “meu” projeto. Ele fez sugestões de maneiras para torná-lo mais sombrio e mais duro – por exemplo eu originalmente escrevi a morte dos Wainwright como um latrocínio de rua, como nos quadrinhos, e John Paul sugeriu uma invasão a domicílio ao invés disso. Foi uma boa escolha e deixou a cena (e tudo que se seguiu) mais forte como resultado. Existe um ponto muito importante que será mostrado na edição #3 que veio de uma das ideias de John Paul, isso modificou a maneira de se escrever a #1 e a #2, para podermos preparar tudo da maneira correta.

Quadrinhos funcionam melhor quando a equipe criativa se comunica e compartilha ideias. John Paul também envia a arte para mim e para nosso editor, Chris Conroy, em todos os estágios, lápis, tinta e colorização, para darmos feedbacks e sugestões, então podemos dizer “Ei, e se você fizer isso aqui mais claro” ou “Nós vamos precisar de mais espaço para os balões neste ponto” e ele pode pensar nisso enquanto finaliza a arte.

E depois que a arte está pronta eu reescrevo o roteiro mais uma vez, para casar com a arte o melhor que eu puder — aí eu aproveito a linguagem corporal e expressões faciais que eu não tinha visto quando estava escrevendo o roteiro, ajustando o roteiro de acordo com espaço, adicionando palavras quando acho apropriado para deixar algo mais claro ou cortando palavras quando acho desnecessário.

A ideia é fazer o melhor quadrinho que pudermos.

Você recentemente disse no Twitter que tem uma ideia para uma história do Flash. Seria algo nos moldes de Creature of the Night e Identidade Secreta ou algo não relacionado?

Seria uma coisa diferente. Seria uma série focando naquilo que eu mais gosto sobre o Flash, e sobre a pessoa que eu acho que ele é no fundo, não uma história como Identidade Secreta ou Creature of the Night.

(Apesar de, ironicamente, Barry Allen ter realmente lido a “Flash Comics” quando era criança, e aí recebeu os poderes do Flash depois e decidiu ser como o super-herói dos quadrinhos — ao menos na versão da Era de Prata)

Eu tenho mesmo metade de uma ideia para um projeto da Mulher-Maravilha que, se chegar a existir, seria nos moldes de Identidade Secreta e Creature of the Night, mas eu não tenho a ideia completa e não sei se algum dia a terei.

Mudando de assunto, teremos mais quadrinhos de Autumnlands depois do arco “Woodland Creatures”? (Por favor diga “Sim!”)

Pode apostar. Nós já até temos duas edições de Autmnlands escritas e desenhadas. Mas a minha saúde deu uma piorada, e de repente ficou bem difícil fazer as coisas, então estou produzindo muito, muito mais devagar. Assim que eu estiver melhor, nós retornaremos. Tem muita coisa vindo por aí.

Como você avalia o papel das interações de autores de quadrinhos e público através de redes sociais?

Eu na maior parte do tempo não avalio. É mídia social, então é social. É uma maneira diferente de interagir e falar com as pessoas e é basicamente o que eu faço. Existem pessoas que dizem que os profissionais de quadrinhos não deveriam falar sobre política ou coisas do tipo, enquanto outras pessoas com empregos diferentes podem, mas eles parecem achar que mídia social é uma ferramenta promocional de mão única.

Eu entrei no Facebook para me reconectar com amigos da escola. Eu entrei no Twitter porque amigos estavam no Twitter e as coisas se expandiram daí. Se eu começar a tratar minhas redes como se eu estivesse dando entrevistas para a TV o tempo todo, eu nunca teria entrado nelas desde o início.

O que me interessa nas redes sociais que participo é que elas são tipo uma festa na qual eu consigo falar com pessoas – amigos, colegas, pessoas com interesses comuns — em um ambiente relaxado e informal, mas é tudo voluntário. Ninguém é obrigado a ter uma mídia social e se caso você não esteja se divertindo com algo dito por alguém na rede social, você não é obrigado a ficar nessa parte da festa. Encontre pessoas que estejam falando sobre coisas que vocês está mais interessado e fale com elas.

Mas de qualquer forma que aconteça, escritores de quadrinhos são somente pessoas. Não existem regras especiais, não mais do que as mesmas regras que existem para eletricistas, por exemplo. Assim como artistas pop podem ter opiniões políticas porque eles votam, políticos também podem ter opiniões sobre música pop, porque eles escutam música.

Pessoas são pessoas. É isso o que faz delas interessantes.

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