[Emulador de Críticas] Um lugar mal-cheiroso e cansativo

E aí, pessoal! Primeiramente, feliz ano novo! É um mais um ano que se inicia e tenho certeza que será tão ou mais turbulento que os anteriores. Segundamente, vocês vêm aqui para ler sobre quadrinhos e eu estou de volta para comentar alguns dos assuntos mais loucos que rolam nessa nossa cena doida da cultura pop. Ainda comentando nosso mundo de quadrinhos, ultimamente as coisas andam meio estranhas, ou melhor, tóxicas, e isso está ocorrendo dentro do Facebook.

Explico: com as mudanças na rede social de Mark Zuckerberg, estamos mais expostos a posts que nos chamem atenção para interagir com grupos de pessoas que tem gostos similares com o nosso. Isso de certa forma está transformando o Facebook em uma gigantesca bolha social, aonde você consome apenas coisas com pessoas com gostos parecidos com os seus. Até certo ponto isso é interessante, pois o usuário vai se sentir mais “confortável” para expor suas ideias e vontades, certo? Errado. É nesse momento que a porca torce o rabo.

Esse algoritmo do Facebook para deixar as pessoas mais confortáveis está fazendo aflorar alguns comportamentos bem tóxicos nos usuários da redes sociais. Acompanho vários grupos que falam sobre quadrinhos e em grande parte deles percebo que existe muita gente usando desse artifício (o conforto, ou eu poderia dizer sensação de impunidade?) para escrever barbaridades e terem comportamentos preconceituosos. Não foram poucas vezes que presenciei discussões racistas, homofóbicas ou machistas dentro de locais assim.

São locais que deveriam se tornar pontos de encontro para debater os gibizinhos da semana, mas estão cada vez mais virando locais para pessoas se agredirem e mostrarem seus lindos gibis que vão ser colocados milimetricamente em suas estantes. Aliás, uma coisa que é cada vez menos feita nos grupos de quadrinhos do Facebook é comentar leituras. É muito debate em cima de matérias, muita previsão, discussão sobre lombada e criação de clickbaits.

Esses grupos e fóruns estão dando espaço para pessoas que são alinhadas com coisas como o #comicsgate, odiadores de crew do milkshake e coisas do gênero. Os leitores de quadrinhos têm perdido um tempo enorme discutindo mudanças étnicas ou reclamando do empoderamento feminino nas HQs.

No ano passado, tive que postar uma gigantesca carta explicando que nenhuma garota dentro do grupo do facebook do TZ deveria ser diminuída. Algo que me entristeceu bastante, pois o Terra Zero sempre tenta manter a igualdade e liberdade de expressão entre todas as pessoas que acompanham nosso trabalho. Mas, vira e mexe, sempre tenho que explicar para as pessoas que Preconceito é diferente de Opinião.

Talvez o que tenha (e tem) nos deixado bastante chateado é descobrir, entre os vários leitores de quadrinhos, que nos tornamos pessoas sem nenhum tato para o diálogo. Seja o lado que for. Esquecemos que os heróis sempre protegem os fracos. A fala de Capitão América de Mark Waid e Chris Samnee ilustra bem o que os leitores de quadrinhos estão esquecendo.

Talvez tudo isso que venha ocorrendo esteja me levando para lados mais sombrios e me deixando cansado de um passatempo que era tão divertido. O pior de tudo isso é que não sou somente eu que sinto isso. São vários os que estão tornando as HQs chatas, porque não sabem discutir, porque reclamam sem ler ou porque acham que coleções em capa dura são mais importantes que as histórias que se encontram nas páginas.

O Facebook se tornou parte do zeitgeist do nosso século e canalizou todos esses problemas em um lugar que fica mal-cheiroso e cansativo.

Está na hora de nós, leitores, voltarmos a ler, entender e debater. Esquecermos um pouco nosso colecionismo e a política, e vamos tentar entender o que os quadrinhos ainda podem nos oferecer. Se você acha que isso não fecha com o que você está pensando, meu amigo, talvez seja a hora de parar e lembrar que os tempos mudaram.

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