A Verdade é subjetiva (ou: como questionar o status das coisas)

Escolhi grafar a palavra Verdade neste texto para tratá-la como uma entidade, como algo superior a algumas de nossas noções. Quando se ouve testemunhos de duas ou mais pessoas acerca de um evento, a Verdade geralmente é encontrada no meio daquela realidade – entendam que, para essas pessoas, a realidade é representada pela memória que ela tem do fato, uma que não necessariamente represente todos (ou alguns) eventos factuais. Ou seja, nessas condições, a Verdade é subjetiva, e esta subjetividade pode ser causada pela memória de eventos ou interpretações diferentes dos mesmos.

Onde quero chegar com isso?

Influenciado por The Lost Art of Forehead Sweat, episódio da nova temporada de Arquivo X exibido semana retrasada na Fox, notei que nunca houve tanta necessidade por uma Verdade absoluta, mas, na contramão, ela está cada vez mais subjetiva, aberta a interpretações por consequência da avalanche de informações (muitas vezes desencontradas) que consumimos todos os dias. Aliás, que nos consomem todo dia, porque hoje as informações simplesmente chegam a nós. Enquanto isso, a Verdade ainda precisa (e talvez para sempre precisará) ser buscada — caçada.

O divertido episódio fez uso da comédia para mostrar pensamento sobre o atual estado do mundo.
O divertido episódio fez uso da comédia para mostrar um pensar sobre o atual estado do mundo.

Umberto Eco disse pouco antes de morrer que a internet deu voz aos imbecis. Colocou-os no mesmo patamar de prêmios Nobel. É uma afirmação preconceituosa, sim, mas real. E são os imbecis os principais perpetradores de subjetividade, questionando a realidade com as mãos vazias. São os terraplanistas, os que defendem o Golpe Militar de 1964 como revolução… São os que enxergam conspirações onde elas não existem. São os que, mesmo contra fatos históricos, associam comunismo ao nazismo.

Portanto, buscar a Verdade não é mais um luxo; é um dever de qualquer ser humano pensante, que quer raspar toda a gordura gerada pela imbecilidade da internet e desencavar fatos soterrados pelas mais diversas mentiras.

Percebam que há uma diferença entre a subjetividade aplicada aqui e a da filosofia kierkegaardiana, pois esta última relaciona Verdade e subjetividade para fins existenciais, o que faz todo sentido. Aqui estamos falando da distorção da realidade com retóricas que substituem elementos factuais, a fim de criar uma narrativa que beneficie seu orador e seus seguidores.

Capa de Action Comics #1000 por Jim Lee, Scott Williams e Alex Sinclair.
Capa de Action Comics #1000 por Jim Lee, Scott Williams e Alex Sinclair.

Infelizmente isso também tomou conta dos quadrinhos de nossos amados super-heróis. Não é de hoje.

Há décadas lemos histórias que, de tempos em tempos, mudam todo o panorama de personagens e universos ficcionais, transformando automaticamente em mentira o que conhecíamos previamente. As chamadas megassagas e os tais eventos autocontidos matam e ressuscitam personagens, assim como destroem e reconstroem universos, usando como desculpa uma nova abordagem para a liberdade criativa, uma retórica escondida na indústria estereotipada, que cria polêmicas para alavancar temporariamente suas vendas.

Agora o Superman voltou a ser clássico. Descobrimos há poucos dias, com o anúncio de que Brian Michael Bendis — escritor que ficou 18 anos como autor exclusivo da Marvel — assumirá os títulos do herói em sua ida para a DC. Será o primeiro trabalho de BMB com a editora: reformular seu maior herói no ano em que ele completa 80 anos de vida. Segundo ele, explorações maiores serão feitas entre a dinâmica de Clark Kent e Lois Lane como jornalistas; o personagem principal passará mais tempo exercendo sua profissão do que vestindo o uniforme azul e vermelho. Quer mais? Um segredo sobre a explosão de Krypton será revelado.

Idas e vindas do Superman em arte de Jon Bogdanove.
Idas e vindas do Superman em arte de Jon Bogdanove.

Já houve um segredo anterior sobre a destruição do planeta natal do Superman. Ou será que não? Depende. Depende do que você considera como verdadeiro na intrincada e octogenária cronologia da DC. Esse é um efeito de cronologias longas — ou até um efeito de simplesmente existir cronologia. Mas, acima disso, é um efeito de a Verdade ser questionada.

A cueca vermelha por cima das calças? “É um clássico, precisa voltar.” “Quem quer essa modernização de tirá-la?” Muita gente, mas isso não importa agora. Importará amanhã. Em seguida, deixará de importar novamente. Vocês entenderam.

A realidade de universos ficcionais é tão subjetiva quanto a Verdade por trás deles; tudo depende do que você considera como “seu”, a chamada “cronologia pessoal”. Mas se precisamos criar uma “cronologia pessoal” para que algumas coisas façam sentido, para que o joio seja separado do trigo (de acordo com seus gostos e convicções), onde isso nos leva? Ao fato de que não existe Verdade nessa indústria. E não estamos falando da não existência de mulheres superpoderosas com séculos de vida ou homens alienígenas que voam, mas sim do tratamento que recebemos de quem nos oferece seus produtos.

Estaríamos sugerindo então que o personagem deve ficar imutável para sempre, a fim de “sua verdade” permanecer irretocada? Não exatamente. A questão aí é a essência. Ela nunca pode mudar, mas pode ser adaptada.

Sem dúvidas, há de se considerar que a natureza cíclica da indústria é uma de suas Verdades, assim como seu desespero para atrair nossa atenção. Mas, no ano em que o Terra Zero completa uma década de vida, podemos dizer oficialmente que já vimos de tudo. O que vier agora é repetição. Com alguns detalhes diferentes? Talvez, mas nada mais é novidade. E a expectativa para que haja uma é bem pequena.

A natureza humana pede por familiaridade, nostalgia e rotina na maior parte do tempo, fazendo com que a novidade seja recebida com medo e consternação por parte da maioria das pessoas. É uma combinação desses fatores que faz com que leitores como nós ainda consumam histórias dos mesmos super-heróis por tantos anos. Ficamos tão acostumados com a subjetividade da Verdade cronológica que estamos constantemente sedados para o que quer que façam conosco. O que acontece quando acordamos desse estado? Na maioria das vezes: indignação; cansaço; frustração; o pensamento de que “isso não é mais pra mim”.

Comediante vivo em Doomsday Clock na arte de Gary Frank.
Comediante vivo em Doomsday Clock na arte de Gary Frank.

No fim das contas, a partir do momento em que a essência das coisas começa a ser questionada e alterada sem o devido respeito (não confundir isso com o surgimento de personagens de legado, criaturas que possuem características novas com o objetivo de oferecer ineditismo a velhos conceitos), constantemente, apenas para que a publicidade gratuita continue em voga — vide os recentes eventos de Doomsday Clock, com o Comediante vivo, graças a um salvamento do Dr. Manhattan que o colocou em uma Terra do Universo DC —, essa é a hora de parar.

Que grupos questionem a realidade mascarando fatos por suas “versões alternativas”? É hora de deixá-los falando sozinhos. Que os preços subam abusivamente sem aviso prévio e equilíbrio com o cenário econômico nacional? Deixe os produtos na prateleira. E assim por diante. Pois é neste momento que a Verdade é jogada fora e se torna subjetiva apenas para favorecer os desejos de um grupo que não corresponde à maioria, tampouco aos fatos.