[#CCXP2017 #Review] Sala Imaculada mostra verdadeira voz de Gail Simone

Gail Simone dispensa apresentações, assim como sua bibliografia cada vez mais diversificada e tomada de projetos em editoras mainstream e escritos autorais. Um desses últimos é Sala Imaculada, lançada pela Vertigo em 2015 e que finalmente chegou ao Brasil para celebrar a segunda vez da autora no país, desta vez para participar da CCXP – a primeira, no mesmo ano de estreia da nova HQ, foi no FIQ, onde tivemos a oportunidade de entrevistá-la exclusivamente.

Conversando novamente com o site neste ano, Simone explicou que Sala Imaculada é baseada em tudo que ela viveu crescendo nos Estados Unidos em uma cidade cheia de seitas e cultos de origem controversa. Ela viu de perto o que seitas misteriosas fazem com as pessoas e exorcizou muitos demônios escrevendo este novo quadrinho, cuja duração foi de 18 edições. No Brasil, o primeiro encadernado (com seis edições) chegou à CCXP (e algumas bancas selecionadas) antes de se espalhar pelo resto do país, dando aos leitores a chance de se familiarizar com o material no momento da aterrissagem da autora.

Estruturalmente, Sala Imaculada não possui grandes novidades. Simone tem um estilo bem direto de narrativa e não costuma criar coisas que exijam do leitor, por exemplo, múltiplas leituras para maior compreensão dos panoramas de suas obras. Contudo, por ser uma HQ autoral, este novo trabalho oferece uma voz inédita da autora para quem a acompanha apenas nas revistas de super-heróis ou em projetos que sejam de linhagens semelhantes, como Tomb Raider, Red Sonja e outros. Pode-se afirmar sem medo que Sala Imaculada traz a verdadeira voz de Gail Simone, tornando a leitura obrigatória para fãs e extremamente sugestiva para quem busca algo diferente nos dias de hoje.

Capa do volume brasileiro de Sala Imaculada em capa de Jenny Frisson.
Capa do volume brasileiro de Sala Imaculada em capa de Jenny Frisson.

Na história, Chloe Pierce, uma curiosa e dedicada jornalista, perdeu seu noivo para a Fundação Mundo Sincero, comandada pela imigrante e guru de celebridades Astrid Mueller. Ele consumiu seus livros de autoajuda até se matar na cozinha do casal, mas não fez apenas isso; o noivo de Chloe também fez parte de um programa na Fundação, um que requer presença física e participação de uma estranha cerimônia na misteriosa sala imaculada.

Em uma narrativa que desmantela o limite que existe entre o real e o surreal, Simone se apodera de mitos lovecraftianos e os faz andar lado a lado com os pesadelos mais naturais do ser humano, misturando tudo em uma história coesa, forte e impactante. Chloe é a protagonista perfeita para desvendar os segredos mais sujos da Fundação Mundo Sincero que, como qualquer outra seita no mundo real, promete melhorar a vida dos indivíduos de forma brilhante escondendo segredos sombrios por trás das cortinas de seu show.

É de uma ironia tremenda que Sala Imaculada tenha chegado ao Brasil agora com uma protagonista chamada Chloe. Recentemente, fãs da DC foram surpreendidos ao saber que Allison Mack, a atriz que imortalizou e queridíssima Chloe Sullivan na série de TV Smallville, é uma das líderes de uma seita nos EUA que escraviza mulheres e alicia algumas delas como escravas sexuais para Hollywood. Simone falou brevemente sobre isso na entrevista que fizemos com ela na CCXP – vocês poderão conferi-la muito em breve. O Terra Zero preferiu dissecar o assunto em sua Newsletter semanal dedicada aos padrinhos do site. (Ainda não é nosso padrinho? Torne-se aqui e não vai se arrepender!)

Chloe e Astrid conversam em cena de Sala Imaculada. Arte de Jon Davis-Hunt e cores de Quinton Winter.
Chloe e Astrid conversam em cena de Sala Imaculada. Arte de Jon Davis-Hunt e cores de Quinton Winter.

A arte de Jon Davis-Hunt casa perfeitamente com a proposta moderna da HQ ao oferecer painéis um pouco diferenciados e composições de páginas mais interessantes e ousadas que um quadrinho norte-americano tradicional. Expressões colocadas nos rostos dos personagens e anatomias impossíveis de cada monstro mostrado nas páginas estão entre as maiores qualidades do desenhista, cujo traço lembra um pouco os de Chris Burnham e Joe Eisma. Contudo, o destaque mesmo fica para as capas de Jenny Frison, que consegue não apenas convencer o leitor da qualidade contida nas páginas internas da revista. Não. Ela te convence sem esforço a ler o quadrinho!

Sala Imaculada traz um outro tipo de história para as bancas brasileiras, e de quebra ainda mostra uma Gail Simone como nunca vista antes. Visceral, honesta, mais feminista (e feminina) do que nunca. Com uma protagonista negra em mãos e muitas mulheres em destaque na história, Simone faz tudo acontecer naturalmente pelo bem da narrativa, entrando na mente do leitor para deixar claro que não há panfletagem no material: a história é o que é e devia ser assim desde sempre. Acima de suas características pessoais, os personagens são o que são e isso torna tudo orgânico e desafiador em seu mais autoral e interessante trabalho publicado até agora.

Página de Sala Imaculada. Arte de Jon Davis-Hunt e cores de Quinton Winter.
Página de Sala Imaculada. Arte de Jon Davis-Hunt e cores de Quinton Winter.

Sinopse/Ficha Técnica:
Título: Sala Imaculada n° 1
Roteiro: Gail Simone
Arte: Jon Davis-Hunt
Cores: Quinton Winter
Páginas: 164
Publicação: Panini (Dezembro de 2017)
Idioma: Português
Preço de Capa (cartonada): R$ 23,90

Em algum lugar entre a fronteira da autoajuda e da religião está a Fundação Mundo Sincero. Sua criadora começou como uma escritora obscura de literatura descartável de horror e decidiu mudar o mundo uma mente por vez. Seus adeptos mandam em Hollywood e obedecem a todos os comandos de sua líder.

Isso é praticamente tudo que se sabe sobre o movimento – ou seria seita? – fundado pela reclusa guru Astrid Mueller. A jornalista Chloe Pierce tem certeza de que há algo mais por trás da fachada da Mundo Sincero. O noivo dela foi um fiel seguidor de Astrid até atirar na própria cabeça com uma cópia de livro da guru em mãos. Chloe agora busca por respostas da mulher cuja palavra comanda a lealdade de milhões – e está disposta a invadir o santuário conhecido como Sala Imaculada para encontrá-las.

Mas existe mais por trás de Astrid Mueller do que Chloe jamais imaginaria – e a verdade que está prestes a descobrir é mais surpreendente do que qualquer uma das façanhas de Astrid, e muito mais aterradora do que qualquer um dos livros dela.

Da mente da super-roteirista Gail Simone e do talentoso artista Jon Davis-Hunt surge SALA IMACULADA, uma nova visão do horror que lhe conduzirá pelo mundo de sexo, ciências, celebridade e sobrenatural mantido atrás de salas trancadas.

  • Gabriel Brasil Picanço

    Porra Morcelli, lá vou eu gastar com outro material. Ok, vcs me convenceram a comprar.

  • Eu achei, pela capa, que fosse algo com super-heróis ou ficção científica. Agora vou procurar pra ler!