[Igor Tavares] Meu primeiro editorial

2017 está acabando e é meio que uma tradição aqui no Terra Zero algum tipo de texto editorial de despedida, pois entramos em um pequeno recesso para cuidar das nossas vidas até retornarmos com as baterias recarregadas no ano seguinte. Este é meu primeiro ano como editor neste sítio, portanto me propuseram escrever algo para este fim de ano aqui em colaboração com o Delfin [Nota do Delfin: dissemos isso pra pilhar o Igor e olha aqui o texto dele, com a devida bigodagem! ;) ]

Então: o que é editar um veículo que sempre admirei como leitor; que, por anos, utilizei e ainda utilizo como fonte de consulta; que tem um dos públicos mais qualificados da internet te questionando com propriedade a todo momento; e que tem uma proposta de trabalho diferenciada dentre tantos outros canais do mesmo nicho? É libertador. Muitos dos colaboradores atuais deste portal, antes vistos como figuras distantes, se tornaram muito próximos. Atualmente me vejo compartilhando não só ideias sobre o material que publicamos, mas também coisas da minha vida pessoal com os mesmos e vice e versa. Trabalhar de forma tão próxima com todos aqui é algo que muitas vezes fica difícil processar, de tão gratificante. É como ganhar de presente um anel energético ou o capacete da Tropa Nova e ser incentivado a explorar o universo diariamente.

igor nova

Acredito que a proposta do Terra Zero este ano, que trata-se de ir além de notícias rápidas e traduções de artigos para informar com base em um processo detalhado e colaborativo de investigação, interpretação e discussão das informações, tornou o trabalho de todo o editorial menos mecânico e muito mais proveitoso. Sabíamos que este formato poderia gerar alguma resistência por parte do público — principalmente nos textos de caráter mais opinativo. Mas fomos em frente e felizmente a aceitação, no geral, tem sido positiva, e a ideia de construir um conteúdo menos imediatista e mais suculento para quem frequenta o Terra Zero gerou ótimos frutos este ano. Um mérito tanto dos redatores e editores aqui quanto do nosso próprio público, que abraçou a nossa ideia.

Apesar do nosso 2017 ter sido editorialmente um momento de crescimento e imenso aprendizado, enxergo em todo o contexto ao redor um movimento de retrocesso bastante evidente. Isso pode ser observado em diversos aspectos — sociais, econômicos e políticos —, observados durante todo o decorrer de 2017 (e que não necessitam ser postos em pauta neste editorial) e nos quadrinhos e mídias derivadas não foi diferente. Nas duas maiores editoras de quadrinhos do planeta, tanto o Renascimento quanto o chamado Legacy foram respostas editoriais a um clamor de público, lojistas e até nosso, como críticos, por material mais conservador em nossos personagens favoritos. Logicamente, analisando os quadrinhos sob escrutínio de um ávido leitor, as editoras tem, sim, feito esforços para mesclar em sua linha temas que agradem tanto os conservadores quanto os progressistas. Todavia, o sucesso de vendas deste material e todo o movimento da DC  (e que posteriormente forçou a concorrente a reagir de forma semelhante) denotam o quanto nós, consumidores de quadrinhos e mídias derivadas, temos nossas zonas de conforto e queremos mais do mesmo.

Questionamentos podem surgir acerca de uma estagnação criativa nos quadrinhos mainstream citando inúmeros exemplos nos comentários abaixo, mas isso não muda o fato de que a qualquer sinal de material novo do Batman ou do Homem-Aranha (seja em moldes mais tradicionais ou com uma temática um pouco mais ousada) nas bancas, o leitor virará as costas para um quadrinho independente com novos personagens e propostas diferentes, como os da excelente Aftershock, da Valiant ou mesmo de material nacional independente. No campo da transmídia o quadro é ainda mais palpável. Com o principal universo cinematográfico baseado em franquias de quadrinhos, o MCU repetindo sua fórmula de sucesso indefinidamente e tendo respostas positivas de crítica e público e a concorrente, o grupo Warner/DC, ignorando despudoradamente a receita comprovada de seu maior sucesso (o longa metragem da Mulher-Maravilha) em benefício de uma tentativa mambembe de replicar a fórmula Marvel, no recente longa metragem da Liga da Justiça. Tais exemplos dizem muito mais sobre a nossa mediocridade como público do que sobre os responsáveis pelas obras citadas. Afinal, somos quem indica onde e como o dinheiro deve ser injetado somos nós.

Em meio ao movimento de retrocesso identificado, improváveis fagulhas de esperança surgem em 2017 e ainda nos fazem acreditar em um futuro um pouco menos nublado. É o caso da enxurrada de denúncias a assediadores que perpetravam suas atrocidades incólumes por anos em inúmeros ambientes criativos, embasadas pela valentia das vítimas que não se calam; o questionamento de ícones em sagas como Secret Empire, mesmo sob o fogo cerrado dos conservadores, e a presença cada vez mais forte da diversidade, tanto nas capas dos nossos produtos quanto nos bastidores de sua confecção. É um caminho árduo e cada centímetro da estrada é disputado contra anos de opressão e indiferença. Entretanto, a cada dia, vemos uma pequena batalha sendo vencida.

Em 2018, precisamos ser melhores. Com a proeminência de redes sociais todos temos algo de consumidores assim como produtores de conteúdo. O Terra Zero é um ambiente mais tradicional de produção de conteúdo cultural, mas o público tem tanto ou até mais poder que os ditos veículos que ditam atualmente o que é bom ou não. Somos nós, como público, que devemos educar e guiar a mídia especializada quanto a conteúdo e formatos. É o nosso acesso, a nossa interação e os nossos comentários e críticas que moldam os veículos e, finalmente, chegam até os produtos que tanto amamos. Os exemplos vão desde o Renascimento, passando pelo filme da Mulher-Maravilha até o mais recente jogo da franquia Star Wars. Nós temos o poder de moldar o que consumimos em algo melhor, mais inclusivo e mais justo para todos.

Sem querer enveredar para assuntos que fogem do âmbito do site, é inevitável não mencionar finalmente a importância do nosso senso crítico e da qualidade das informações que consumimos em 2018, especialmente no nosso país. Estamos afundados em um pântano espesso e escuro. Não é a hora de virar as costas ou de se isolar. Precisamos ser melhores porque estamos cercados do que há de pior por todos os lados. Nossa batalha é a da iluminação contra uma ignorância viral que contamina os mais fracos e os captura como asseclas acéfalos para agendas sinistras. E o caminho é através da gentileza, empatia e da boa argumentação. Citando a recente mensagem do Capitão América na edição 695 que inicia a passagem de Mark Waid pelo título:

Os fortes, quem quer que eles sejam naquele momento, protegem os fracos. Essa é a regra. Se você tem a habilidade, você tem a responsabilidade.

  • Roberto Ferreira Ribeiro

    Esse final do texto foi de arrepiar e aplaudir de pé

  • Cassiano Cordeiro Alves

    Baita texto, Igor. Parabéns.

  • Neo

    …trata-se de ir além de notícias rápidas e traduções de artigos para informar com base em um processo detalhado e colaborativo de investigação, interpretação e discussão das informações, tornou o trabalho de todo o editorial menos mecânico e muito mais proveitoso.

    Concordo! É isso que faz o Terra Zero o melhor. Há um excelente material de pesquisa aqui, que ajudam muito a quem está começando nos quadrinhos. Pessoas que entendem mesmo do que falam, que tem experiência na área. Acompanhar o Rebirth junto com o Comicpod foi uma experiência agradável.

    Que 2018 seja melhor ainda!

  • Erika Atayde

    Os fortes, quem quer que eles sejam naquele momento, protegem os fracos. Essa é a regra. Se você tem a habilidade, você tem a responsabilidade.
    Um abraço nesse editorzão da porra que o Igor <3

  • Marcelo Grisa

    Igor, é por coisas assim que eu sabia que o site ficaria em mãos melhores contigo de editor. Tu é foda, rapaz.
    2018 será melhor ainda!

  • marcelo miranda

    Belo editorial e um belo ano do Terra Zero. Ainda sinto falta de maior diversidade no conteúdo (muito focado em Marvel e DC, ainda que com arrobos de Valiant e HQs brasileiras aqui e acolá), mas acho que é um caminho demorado e difícil, que certamente está sendo pensado pela equipe. Parabéns e que venha mais um ano de conquistas.