Teocrasília precisa acontecer — e precisa ser impedida?

Denis Mello, cocriador de Beladona e vencedor por três vezes do HQ Mix, busca apoio para Teocrasília no Catarse até o próximo dia 5 de dezembro. A obra, que precisa de R$ 15 mil para ser financiada, já tem arrecadados cerca de 70% desse valor.

A história fala sobre uma resistência de guerrilha contra um governo teocrático no Brasil. Ou, em bom português, uma tentativa de estabelecer pensamento livre em uma sociedade na qual a igreja manda. Parece familiar? O começo da história está disponível online para quem quiser entender melhor o que é Teocrasília.

A HQ está projetada para ser uma série de seis álbuns sequenciados. O primeiro, com 144 páginas, deve ser enviado para os apoiadores por volta de janeiro. Denis está envolvido com a produção do primeiro álbum há muito tempo, o que acelerará a entrega final. É possível conseguir a obra em arquivo .pdf com uma quantia bem módica, que também inclui agradecimento nos créditos da publicação.

A modalidade é de Campanha Flexível – ou seja, mesmo que não atinja os R$ 15 mil, os recursos serão destinados ao artista e a obra deve sair. Além disso, o livro deve ter lançamento comercial posterior pela Editora Caligari. Assim, a campanha no Catarse é uma espécie de pré-venda de Teocrasília 1.

O Terra Zero teve a oportunidade de falar com Denis Mello sobre Teocrasília. Confira!


Terra Zero: Como surgiu o projeto de Teocrasília?

Denis Mello: Em 2013, eu havia começado uma HQ curta chamada Copa Negra num 24h de quadrinhos [evento online no qual vários artistas tentam fazer 24 páginas de quadrinhos em um só dia]. A temática era política, sobre manifestações durante a Copa do Mundo, que seria no ano seguinte. No início de 2016, eu decidi terminar essa história que ficou pela metade e fazer um zine, mas não encontrei os originais e o papel onde havia escrito o roteiro, e eu não queria inventar, pois sabia que estava perfeito daquele jeito.

Fiquei bem frustrado, pois nunca havia perdido nenhum desenho e perdi logo 12 páginas e um ótimo roteiro. Da tentativa de pensar numa nova distopia política para um zine, surgiu a ideia base de Teocrasília, que cresceu gigantescamente. Foi como ter toda a ideia de uma só vez, sentei, comecei a escrever e estava tudo ali, embora eu tenha lapidado durante meses. Ficou infinitamente maior do que um zine, mas simplesmente não tenho como podar.  Ahistória é grande, complexa e cheia de elementos que eu considero importantes, tá muito bem amarrada e eu tenho os 24 capítulos definidos, sei tudo o que acontece em cada um, já ta escrito.

Eu me interesso por política, frequento manifestações desde 2003. Já fui pra rua contra a Guerra dos EUA no Iraque, colhi assinaturas contra a ALCA e o FMI, isso tudo com uns 14 anos. Em 2013 um grupo de PMs quebrou meu braço numa manifestação, eu fiquei parado sem poder desenhar por um tempo, e decidi que tentaria fazer alguma diferença com meus quadrinhos e preservar mais minha integridade física, porque eu me arriscava muito na linha de frente. Quando tive a ideia de Teocrasília e comecei a desenvolver, enxerguei ali a oportunidade de chamar atenção para o avanço da Bancada Evangélica, que me preocupa muito. A cada novo ciclo eleitoral esse grupo cresce e ,com tudo o que tem rolado na política nacional, isso acaba ficando em segundo plano. Acho que a ideia de separar política e religião não sofre da bipolarização que temos com outros pontos atuais e deveria ser um objetivo comum. Infelizmente não é.

Qual é o tamanho do desafio de apostar um ano de trabalho neste projeto?

Enorme. Tá sendo um ano muito difícil financeiramente. O período na França foi realmente muito apertado, vivia com dinheiro contado, mas foi uma experiência incrível poder me dedicar tanto e focar apenas nisso. Mas com o retorno, voltar pra casa da mãe com uma mão na frente e outra atrás, sem emprego e me propondo a utilizar o restante do ano apenas no projeto é um desafio; porém essa imersão é recompensadora e só é possível porque eu realmente acredito no projeto.

Espero muito que minhas estratégias funcionem e eu consiga rentabilizar minimamente em cima desse projeto a partir do lançamento do primeiro livro, para que o tempo investido nele se pague um pouco. Essa independência vai ser importante na continuidade do projeto, pois tenho mais cinco volumes pela frente depois desse e preciso ver minha vida andando, as contas pagas para poder focar com tranquilidade. Sinceramente eu tô muito cansado de sentir essa corda no meu pescoço e não tenho a mínima vontade de trabalhar com publicidade, ou outros empregos que muitos quadrinistas têm, para pagar as contas. Eu quero fazer quadrinhos. Ponto. Eu sei que esse projeto é forte e se eu fizer tudo bem feito, vai dar certo.

Como a sua vivência em Angoulême, na França, influenciou o projeto e a forma de você colocá-lo em prática?

Foi muito importante. Gérald Gorridge, que foi meu orientador lá é um quadrinista e teórico incrível, soube me direcionar num caminho muito mais interessante artisticamente. Ele gostou do tema da história, disse que considera que histórias assim precisam existir, mas artisticamente ele me passou referências que achava que combinavam mais com o meu estilo, me colocou num caminho diferente do que eu estava pegando e me convenci de que eu precisava realmente me desafiar nas páginas, não escolher atalhos, colocar mesmo tudo o que eu tinha pra dar, pensar bem cada etapa do processo, incluir etapas. Fazer e refazer coisas. As primeiras 9 páginas foram feitas duas ou três vezes, até chegar num ponto em que ele considerasse que estava bom!

Comecei a usar muito mais silhuetas, tirei o excesso e sujeira, melhorei a comunicação, passei a utilizar alguns recursos narrativos elegantes, enfim, me aprimorei bastante. Também fiz algumas oficinas com excelentes quadrinistas europeus que eventualmente visitavam a escola. Não está perfeito porque sempre se aprende mais, fazer quadrinhos é ter consciência de que sempre se pode aprender e melhorar. Falando sobre a cidade em si eu tinha acesso liberado como aluno da ÉESI à fantástica biblioteca da “la Cité internationale de la bande dessinée et de l’image” e ao Museu dos Quadrinhos que estava sediando a maior exposição já feita do Will Eisner e tinha um acervo com páginas de quadrinistas gigantes do mundo inteiro. O festival em Janeiro foi o momento em que resolvi realmente me desafiar, pois vi o volume impressionante de lançamentos das editoras, tudo com um padrão de qualidade muito alto.

Foi chocante. É o tipo de experiência que te faz repensar o nível real do seu trabalho e o quanto é necessário ir além. Além de tantos bares e comércios com personagens estampados em suas vitrines, ônibus temáticos, estátua de autor, de personagem. Ver que em algum lugar isso é realmente muito valorizado foi importante e estimulante, principalmente pra pegar uma estrada longa como promete ser Teocrasília. Enfim, foi importante ter um momento tão forte logo no início do projeto, repensar e desconstruir tanto para começar com o pé direito. Começar alguns degraus acima de onde estava ano passado.

70%. Bem, temos ainda alguns dias. O que você tem a dizer para quem está na dúvida ainda?

Pode confiar, o projeto é interessante, os primeiros 2 capítulos podem ser lidos online, dá pra sacar o ritmo da HQ e fazer seu próprio julgamento. Meu objetivo com Teocrasília é criar um trabalho memorável, que seja lembrado ainda por um bom tempo e tenho me dedicado muito. Já tive um projeto bem sucedido no catarse antes, 60% da quantia total entrou nos últimos dez dias, eu tenho convicção absoluta de que a meta vai ser batida. Além disso o livro vai acontecer de uma forma ou de outra, pois a meta é flexível. Se você curte a ideia da HQ, não deixe de garantir o seu livro no catarse, pois tem um preço em conta, recompensas exclusivas e vai fazer muita diferença no meu planejamento pra produção do próximo volume! Essa oportunidade de ter contato direto com o artista e influenciar positivamente sua vida e dia a dia é algo marcante, é subverter a lógica de um mercado injusto. É valorizar o trabalho de alguém que rala muito pra produzir o seu entretenimento e tem uma dificuldade enorme de sobreviver ao processo. Falando da minha vivência: fazer quadrinhos de qualidade não é possível no horário de almoço e antes de dormir depois de um dia exaustivo. Um projeto desse tamanho exige muito, eu já tive a experiência de tentar fazer isso em paralelo, e não deu. Então embarca nessa que Teocrasília ainda tem muito pra apresentar. No início de 2018 estarei com um “Catarse Assinaturas”, ou seja, um apoio menor, porém mensal. Isso vai ser fundamental no meu dia a dia com o projeto, então garante esse primeiro livro que você vai receber e-mail mais pra frente explicando sobre isso. É mais um passo no sentido de viabilizar a minha vida e a sua leitura.

O material estará sendo finalizado em dezembro, em meio a festejos delimitados também pelas religiões cristãs. Coincidência?

Hahaha, coincidência total!

Última, mas não menos importante pergunta. O que são quadrinhos?

A forma de arte que me fez apaixonar desde pequeno, muito mais do que música ou cinema. Que aprendi a ler antes de ser alfabetizado. É o alimento dos meus sonhos e ambições, o que me fez entender meu lugar no mundo e me move adiante. É fonte de entretenimento, crítica social, educação, diversão, emoção e muito mais. É algo tão foda mas que tanta gente ainda não se deu a oportunidade de experimentar, e torço muito pra que a massa pare de taxar como coisa de criança e possa apreciar tudo o que as HQs têm pra oferecer, afinal com mais público podemos ter um mercado nacional mais sustentável que possibilite que mais autores sobrevivam disso e possam se dedicar da forma correta em suas produções, assim teremos mais obras de qualidade. Espero que Teocrasília ajude um pouco nisso, alcançando leitores fora da bolha.

  • Gustavo Santos

    Vejo isso como uma Hq de punho socialista, querendo diminuir a importância da religião em pró de uma ideologia extremamente progressista. Sendo quase um ateísmo militante que não enriquece em nada o papel do estado e da igreja na nossa sociedade.

    • Então acreditar que um estado laico, democrático e que respeita as liberdades individuais é ser socialista?
      Eu nem sou ateu, mas também não tenho religião. E mesmo que tivesse, meu camarada, não gosto da ideia de líderes religiosos ditando o que posso ou não fazer, sendo esses da minha religião ou de outra.

      Não julga não, dá uma lida.

      Abraço!

    • a reIigião não deve se intrometer em questoes que não Ihe dizem respeito!
      as Ieis de Iivros reIigiosos apenas se apIicam ao seguidor da mesma e não ao cidadão de modo geraI!
      bíbIia, corão e simiIares apenas dizem respeito ao seguidor de determinada doutrina;

      a sociedade não pode se ajoeIhar diante de deus nenhum, cristão ou não!

      SIM ao casamento gay!
      SIM ao aborto!
      SIM à IegaIização da maconha!

      quer seguir determinada reIigião?
      a igreja, seja eIa quaI for ou o terreiro seja eIe quaI for ou a mesquita também, estão Ihe esperando, mas deixe o mundo fora de seus preceitos dogmáticos!! não precisamos deIes

      e sim, eu sou petista, IuIista, esquerdista, feminista e gay!

    • Marcelo Grisa

      O papel da Igreja na nossa sociedade deveria aumentar sim, Gustavo. Sabe como?
      Pagando mais imposto, como o resto de nós paga.

  • Cassiano Cordeiro Alves

    A propósito, Grant Morrison NÃO é Deus kkk.