Stranger Things e Invisíveis: o casamento inesperado

Muito foi dito sobre as tais referências ao quadrinho Invisíveis, de Grant Morrison, exibidas no controverso sétimo episódio da segunda temporada de Stranger Things – ou, como a Netflix a vendeu, no melhor estilo oitentista, Stranger Things 2. Contudo, há um pouco mais a ser falado do que simplesmente explicar quem são os personagens citados no vitral em que a turma de Kali, o grupo contraventor que busca melhorar o mundo seguindo uma doutrina própria (e subversiva).

Aliás, isso por si só é bem Invisíveis. Houve comparações aos X-Men, principalmente da fase Claremont/Byrne, mas o espírito subversivo dos Invisíveis está bem mais presentes que os tão amados mutantes da Casa das Ideias. Portanto, vamos falar um pouquinho do que realmente foi mostrado sobre a obra definitiva de Morrison na série da Netflix e o que isso pode significar para o futuro dela numa já esperada terceira temporada.

As referências a Invisíveis vistas no sétimo episódio de Stranger Things 2.
As referências a Invisíveis vistas no sétimo episódio de Stranger Things 2.

Portanto, antes de falarmos do óbvio vamos direto ao que é mais interessante: Barbelith, um dos grandes símbolos de “evolução e ascendência” oferecidos pelo impressionante quadrinho. Vale lembrar, apesar do excesso de marketing que Morrison fez na época (convocando seus leitores pelo mundo todo a se masturbarem dedicando-se ao aumento de vendas da revista), Invisíveis é realmente groundbreaking e uma das coisas mais bombásticas lançadas nos quadrinhos nos últimos 20 anos. Ele foi influentes em diversas áreas da arte, tornando Morrison um profissional artístico reconhecido no mundo todo e em diversos âmbitos.

Mas estou divagando. Barbelith, estamos falando de Barbelith e do episódio 7 de ST2, A Irmã Perdida! Está claro que o episódio é um back-pilot, ou seja, uma tentativa de criar um spin-off com essa galera. E o bacana deles é que suas atitudes e personagens são muito assemelhadas aos personagens de Invisíveis, a começar pela própria Kali, a King Mob da galera. Ela é a irmã perdida de Jane (a Eleven), pois ambas sofreram experimentos no mesmo quarto e desenvolveram habilidades diferentes. Seu número tatuado no braço é o oito. E King Mob é o líder dos Invisíveis, assim como ela para com seu time. Ele era um escritor de horror (tema principal de Stranger Things) que se tornou um combatente da liberdade de uma célula dos Invisíveis.

Os Invisíveis de Grant Morrison.
Os Invisíveis de Grant Morrison.

Pode-se dizer que Morrison escreveu os Invisíveis para que ele fosse uma espécie de grimório para a magia do caos moderna, ou a popmagik, como é também chamada. Ela normalmente é vinculada a um hipersigil, um signo criado para um propósito mágico específico, como afetar, influenciar e induzir encontros como o que alega ter tido com alienígenas em Catmandu. E como isso se conecta a Barbelith? Na HQ, ele é uma versão planetária do trabalho filosófico do poeta e autor Ralph Waldo Emerson, que viveu no século XIX e passou boa parte de sua vida estudando (e escrevendo) sobre a relação da alma para com o ser humano e outras pessoas.

Sendo assim, Barbelith é um satélite hiperdimensional no lado negro da lua, uma espécie de estação celestial que serve como “placenta para a consciência humana”. De certa forma, os humanos afetados no universo de Stranger Things conseguem ter contato com a versão de Barbelith da série: o Upside Down e seus habitantes. Da mesma forma que a turma da Kali é um grupo de contraventores que luta por um mundo melhor (na visão deles), assim como as células dos Invisíveis, Barbelith tem semelhanças ao aspecto mais filosófico do terror moderno lançado pela Netflix.

Os novos Invisíveis em Kali e sua trupe. Cena de ST2.
Os novos Invisíveis em Kali e sua trupe. Cena de ST2.

Par aos Invisíveis, Barbelith serve como guia para o nascimento de uma espécie dentro da consciência cósmica e, ao mesmo tempo, um guia xamânico na jornada do herói. Alguma semelhança com elementos da série?

Por fim temos os mais óbvios: King Mob, o líder da célula principal dos Invisíveis e inspirado no próprio Morrison, representa Kali. O’Bedlam, que também está escrito na janela, refere-se ao velho Tom O’Bedlam, uma espécie de conselheiro da galera e que já passou por diversas células dos Invisíveis durante as décadas. Torna-se mentor de Jack Frost e o ajuda a descobrir seus poderes.

Ainda que a estética de Stranger Things seja terror e nostalgia, é indiscutível o quanto ela bebe de quadrinhos em geral. O que nos surpreendeu profundamente foi como ela foi fundo – e sem medo – em Invisíveis, uma das mais difíceis obras modernas da nona arte lançadas nos EUA. O que mais será que a obra de Morrison pode influenciar no futuro da série?

Mal podemos esperar pela terceira temporada!

  • Gregório Furtado Oliveira

    Eu leio pelo celular e nunca aparece o nome do autor. Não entendi muito, também nunca li invisíveis, mas o mundo invertido é apresentado como algo negativo na série (a própria atmosfera do lugar é tóxica para os humanos), achei estranho fazer paralelo com uma força positiva de iluminação, barbelith.

  • Rimos & Morty

    “Invisíveis é realmente groundbreaking e uma das coisas mais bombásticas lançadas nos quadrinhos nos últimos 20 anos. Ele foi influentes em diversas áreas da arte, tornando Morrison um profissional artístico reconhecido no mundo todo e em diversos âmbitos.”

    Isso deve ter vindo direto do mundo invertido, porque aqui Os Invisíveis é uma obra muito citada e pouco lida.
    Forçada demais essa idolatria ao Grant Morrison, que até é um roteirista legal.
    Mas groundbreaking e influente é D+ da conta.