[Review] Waid e Samnee trazem Rogers de volta em Captain America #695

“Os fortes protegem os fracos. Esta é a regra”. Um conceito simples, uma ideia altruísta, um lema heroico, um bordão com um peso descomunal e potencial de eternizar a passagem de Mark Waid e Chris Samnee no novo quadrinho do Capitão América.

Captain America #695 inicia uma nova fase na vida de Steve Rogers após as atrocidades cometidas por sua contraparte na saga Secret Empire. Após a onda de polêmica que cercou a persona de Rogers nos últimos doze meses e a atual conjuntura sociopolítica no Estados Unidos, este se torna um dos títulos mais aguardados por todos os fãs de quadrinhos e imprensa especializada no ano de 2017, bem como uma responsabilidade imensa, tanto para esta equipe criativa quanto para a Marvel como empresa, nos tempos de hoje. Portanto, a escolha da dupla Waid/Samnee é a Marvel usando seus “craques” onde mais precisa. É Bebeto e Romário na Copa de 1994 e, assim como naquela ocasião, a dupla não decepciona em sua edição de estreia.

Captain America #695 traz o selo Legacy em sua capa e o veste com as cores da bandeira estadunidense com orgulho. Waid, em seu roteiro, em momento algum foge ou ignora os eventos contados anteriormente na passagem de Nick Spencer pelo título. Em uma mescla sutil de flashbacks e ação no presente, somos rapidamente lembrados do que Steve Rogers representa para toda uma população. Isso sem deixar de questionar a relevância do personagem em tempos atuais e o contexto no qual Rogers se encontra dentro da Marvel atualmente, após tudo que foi feito em seu nome.

Na história vemos o Capitão retornando a cidade de Burlington, Nebraska — um dos primeiros lugares onde o herói fez uma aparição e salvou a população, após seu descongelamento. Dez anos se passaram, a cidade foi renomeada para Captain America, Nebraska e sedia uma convenção anual em homenagem ao Sentinela da Liberdade, com direito a comidas temáticas, venda de memorabilia e cosplays diversos. Mas Steve não está ali para alimentar seu ego: o herói recebeu informações do retorno de uma organização que prega a supremacia racial branca exatamente naquele local, e retorna para impedir que os terroristas ressurjam.

O argumento de Waid e as situações propostas em Captain America #695 são cirurgicamente calculadas para resgatar valores clássicos do personagem. Desde a menina Donna, resgatada na primeira cena do quadrinho, passando pelos depoimentos durante a “Cap-Con”, até chegar ao clímax da edição com o confronto com os terroristas e o pequeno discurso de Rogers. Em momento algum as virtudes do personagem ganham ares de demagogia e Waid faz tudo isso parecer muito fácil, combinando valores humanos às cenas de ação que são bem frequentes e dão um ritmo acelerado ao quadrinho.

Chris Samnee parece que nasceu para desenhar o Capitão. Sua caracterização que mescla uma atmosfera kirbyana com elementos mais contemporâneos da fase de Ron Garney dão a este quadrinho um visual atemporal. Visualmente, Cap #695 poderia figurar facilmente em qualquer época da extensa bibliografia do personagem na Marvel e isso não é tarefa fácil. Não só nas cenas de ação, que são um incrível balé visual (como descrito por algum dos próprios depoentes na convenção), mas também nas cenas de diálogos, Samnee domina este quadrinho e torna seus o protagonista e todos os participantes da história.

O Capitão América celebrou seus 75 anos no ano passado em uma de suas fases mais controversas dentro da Marvel. Uma decisão editorial que, dependendo do leitor, pode ser considerada tanto ousada quanto infeliz. Independente disso, o turbilhão causado por Secret Empire foi benéfico ao personagem a longo prazo. Nas mãos de um artista como Mark Waid, o resgate de um personagem como esse ganha uma gravidade que extrapola os limites de uma mera publicação e tem ressonância no cotidiano do cidadão comum nos tempos de hoje. Captain America é um produto voltado para o entretenimento, sim, e ela entretém. Todavia, além disso, ela nos faz relembrar algo esquecido dentro de nós mesmos: cada um de nós pode ser um herói para alguém dentro do próprio microcosmo de relações interpessoais. Tudo já está dentro de nós e não precisamos ser inspirados, somente relembrados. Esta a é a mensagem que Rogers traz de volta à Marvel.

  • IDRIS ELBA RAMALHO

    Foda!!!!!
    Waid escrevendo esses gibis fodásticos na Marvel é o melhor “Chupa DC” que algum autor de quadrinhos já fez.

    • Marcelo Grisa

      Pois é… Vai chegar Action Comics #1000 e nada dele lá ;(

      • IDRIS ELBA RAMALHO

        Dos autores que tretaram naquela época perto dos Novos 52, ele foi a treta mais feia. A DC tinha que dar o cargo de chefia que ele queria, mas alguns bônus, pra ele voltar.
        Do jeito que ele é apaixonado pela DC, essa onda do Rebirth se encaixaria perfeitamente na escrita dele. Melhor ainda se ele levasse o parça dele Chris Samnee junto, eles tão numa sintonia perfeita!