[Review] Tex Gold vol. 1: O profeta indígena

Chamado de western ou faroeste, o gênero imortalizado pelo lendário diretor Sergio Leone, já passou do seu auge, mas ainda é um tema que fascina milhares de pessoas ao redor do mundo. O lendário ranger Tex Willer é o carro-chefe e personagem mais longevo da Sergio Bonelli Editore. O personagem é muito popular na Itália, onde é publicado desde 1948. Chegou ao Brasil em 1951, ganhando titulo mensal em 1971 e passando por 4 editoras sem reiniciar a numeração. Atualmente, Tex é publicado no Brasil, pela Mythos e é fácil encontrar seus mais de 9 títulos nas bancas. É basicamente o único personagem da SBE que vingou de verdade no Brasil (estou ignorando Mágico Vento, pois já foi encerrado, e Zagor e J. Kendall, que vivem aos trancos e barrancos). Apesar disso, parece que o público do personagem não se renova há décadas.

 

Em 2017, a Salvat surpreendeu ao lançar a Coleção Tex Gold, que promete reunir grandes HQs do famoso personagem. Seguindo os moldes, das coleções Graphic Novels Marvel e Os Heróis Mais Poderosos da Marvel (só que com design de capas muito melhor), ao final da coleção Tex Gold os volumes formarão um painel nas lombadas. A coleção trará histórias dos títulos Texones (Tex Gigante), Almanacco del west (Almanaque do Tex), Maxi (Tex Anual) e Color Tex. O primeiro volume — que custa R$ 9,90 (promoção especial de lançamento) e vem com um folheto-cartaz (uma belíssima ilustração de Claudio Villa) informativo sobre as demais edições — apresenta a HQ, O profeta indígena, publicada anteriormente no Brasil em Tex Gigante # 20, em outubro de 2007.

O profeta indígena, escrita por Claudio Nizzi e com desenhos de Corrado Mastantuono, conta história de Manitary, um jovem profeta pele-vermelha que quer resgatar o orgulho dos Hualpai. Desencadeará um inferno, reunindo em um único exército todas as tribos do deserto, com o objetivo de derrotar e expulsar para sempre os homens brancos das terras do Sudoeste — que tempos atrás pertenciam aos índios. No seu caminho, porém, Manitary encontrará Tex e seus pards, decididos a impedir o massacre.

Creio ser esta é a primeira coleção da Salvat que realmente começou pelo volume 1, e pode ter sido uma escolha errada. Não que seja uma história ruim, mas o volume 2, O cavaleiro solitário, teria sido uma escolha mais comercial, pois além de ser uma das melhores histórias do Tex (diga-se de passagem, já está disponível nas bancas), possui a arte do lendário Joe Kubert e foi feita para introduzir o personagem no mercado estadunidense.

Já havia lido O profeta indígena uns 3 ou 4 anos atrás e confesso que me decepcionou um pouco. Já havia tido contato com algumas histórias do Ranger escritas por Nizzi, e o escritor italiano se destacava por carregar suas histórias com mistérios quase insolúveis. O Tex de Nizzi era um western que flertava com o noir. O maior exemplo disso é o fantástico O homem de Atlanta (Tex Gigante vol 1), ilustrado magistralmente por Jordi Bernet.

Nizzi se tornou o principal roteirista de Tex em 1983 e, por três décadas, escreveu o personagem; nos primeiros dez anos, foi o único escritor — isso enquanto também escrevia as histórias do policial Nick Rider (Imagine a sobrecarga, já que Tex e Raider eram títulos mensais com 100 páginas de quadrinhos). Enfim, dá pra imaginar que, em 2007, Nizzi já havia passado do seu auge e sua caixa de ideias para Tex já estava quase esgotada. O leitor irá encontrar em O Profeta Indígena uma boa história para passar o tempo. O enredo é repleto de ação, aventura e soluções fáceis. Os heróis com miras infalíveis (ok, isso é de praxe) e sempre mais sortudos que os bandidos entregam um final corrido, apesar das mais de 200 páginas de quadrinhos. Como eu disse antes, não é uma história ruim, mas pode decepcionar leitores mais exigentes.

Quanto a arte, é bom salientar a proposta dos Texone é a de trazer desenhistas consagrados internacionalmente para dar vida ao Tex. Corrado Mastantuono é bastante conhecido na Itália por seu trabalho na Disney e por sua brilhante passagem na igualmente brilhante série de Horror/Western Mágico Vento. E esse é o ponto alto do encadernado, embora as cores, no meu ponto de vista, prejudicaram o traço repleto de hachuras do artista.

A edição da Salvat é até mais bonita do que as de coleções lançadas pela mesma anteriormente. Há poucos extras (dois textos introdutórios, biografia dos autores e prévia do volume seguinte). Eu me decepcionei com o conteúdo, pois esperava uma versão igual a publicada pela Mythos, mas em cores. Para quem não sabe, os Tex Gigante sempre trazem, além da história principal, um texto onde o editor original justifica a escolha do artista, um texto contextualizando o local e acontecimentos históricos onde a trama se passa, além de uma entrevista com o artista convidado. Agora, a fica a torcida para que a coleção siga até o fim. Muitos leitores ainda nutrem preconceitos com as HQs do Tex, e talvez o bafafá gerado por essa coleção ajude, finalmente, a renovar o público do faroeste.

  • Leandro Silva

    Talvez a falta dos extras que existem em outras edições do Tex (que aliás são excelentes para contextualizar os vaqueiros de primeira viagem) seja para não encarecer ainda mais esta edição encadernada e manter o valor dentro do aceitável e comercialmente vendável, já que as edições de luxo coloridas da Mythos são lançadas com um preço bem pouco convidativos e não fazem tanto sucesso assim nas bancas (digo pelo valor, não pelos extras, já que todos os preços praticado pela Mythos são bem desanimadores).