[Review] Sociedade da Justiça Vol. 1 & 2: O marco absoluto do novo milênio

Acreditem, pegar as antigas (já dá pra falar que são antigas, não?) edições de Sociedade da Justiça publicadas na virada do milênio e ler cada uma delas é como entornar-se da mais pura magia. Todo o material que começou a ser produzido por James Robinson e David S. Goyer, passando em seguida para Goyer e Geoff Johns (um jovem desconhecido no começo de carreira) é um curso completo formado por aulas de narrativa, caracterização, ritmo e equilíbrio emocional entre leitor e personagens.

Para esta resenha foram lidos os dois primeiros volumes encadernados da série, intitulados Justice Be Done e Darkness Falls. As histórias somam nada menos que 15 edições mensais de Justice Society of America, lidando com diversos temas em histórias aventureiras que também refletiam o espírito da época. Explicando, na virada dos anos 1990 para os 2000 a DC começou a reconstruir seu universo a fim de criar uma espécie de Era Heroica, uma na qual houvesse pouco das sombras, do cinismo e até do niilismo que foram os anos 1990 para alguns dos principais super-heróis da indústria (independentemente da editora em que eram publicados).

Deste modo, não apenas seus grandes ícones (Superman, Batman, Mulher-Maravilha, Flash etc) como também estes personagens esquecidos do público moderno transformaram-se em estandartes do que existe de melhor no ser humano, e mostraram-se verdadeiros heróis diante das mais difíceis escolhas impostas pelos elaborados roteiros de Johns, Goyer e Robinson. Ao lado deles, neste primeiro um ano e um trimestre de histórias, estiveram com eles desenhistas como Derec Aucoin e Scott Benefiel, mas os maiores destaques vão para Stephen Sadowski e Michael Bair, que recapturaram o espírito da SJA original ao misturá-lo com a modernidade das novas histórias e a nostalgia de vê-los de volta.

Capa de JSA: Justice Be Done, primeiro volume da nova Sociedade da Justiça.
Capa de JSA: Justice Be Done, primeiro volume da nova Sociedade da Justiça.

Há certa dificuldade em acompanhar alguns detalhes da história para os não iniciados. Mesmo que se tratasse do lançamento de uma nova revista, conhecer um pouco dos antigos personagens da DC e seu legado ajuda muito na hora de entender o contexto em que os contos se passam. Mesmo assim, Robinson e Goyer deram abertura ao material de uma forma que não faz o leitor novo ficar perdido, o que é sempre um ponto positivo. E falando na primeira das histórias, ela começa com Wesley Dodds, o Sandman original, narrando sua despedida da humanidade e lançando no ar um mistério que pode trazer de volta o mago Sr. Destino, morto desde que Kent Nelson, seu alter ego, se foi.

Com novas versões de Starman, Homem-Hora, Sideral, Canário Negro, Sandman (agora apenas Sand), Esmaga-Átomo e Moça-Gavião, além dos membros clássicos (o Lanterna Verde Alan Scott, o Flash Jay Garrick e o Pantera) e da Mulher-Maravilha (Hipólita, não Diana), o grupo descobre, através de uma invasão de mortos-vivos no meio do funeral de Wesley, que um novo Sr. Destino nasceu em algum lugar do mundo, fazendo com que a primeira aventura da reformada Sociedade da Justiça da América seja uma jornada por vários cantos do globo em busca da criança misteriosa. O que eles não esperavam é que haveria mais alguém nessa busca: o vilão Mordru, o Lorde do Caos, que tem como objetivo recuperar o bebê para levá-lo às relíquias do Sr. Destino e tornar-se um dos seres mais poderosos do universo.

Mordru, em arte de Stephen Sadowski, recupera o bebê escolhido.
Mordru, em arte de Stephen Sadowski, recupera o bebê escolhido.

Muito semelhante a personagens dos mitos arturianos, o vilão serve como contraponto para a fantasia urbana da Sociedade da Justiça, mesclando o absolutamente fantástico com um pouco de lenda e história em uma jornada clássica por relíquias sagradas e pessoas escolhidas. O tema é perfeito para o retorno renovado da primeira equipe de super-heróis do mundo e executado com maestria por Goyer e Robinson, que ainda acrescentam pitadas inesperadas de reviravoltas e respeito ao passado na conclusão de Justice Be Done.

Os autores apostam fortemente em valores humanos como amizade, respeito, confiança, paciência e trabalho em equipe para fazer da Sociedade da Justiça algo único, sem vínculos com a Liga da Justiça. E conseguem! Com um início bombástico e diversos temas interessantes discutidos em uma história emocionante, a revista da SJA que passou a sair em 1999 foi um verdadeiro marco para a DC e para os quadrinhos do novo milênio. Mas ela não acaba aí.

Capa de JSA: Darkness Falls por Stephen Sadowski e Mark Farmer.
Capa de JSA: Darkness Falls por Stephen Sadowski e Mark Farmer.

No volume seguinte, Darkness Falls, o grupo enfrenta uma ameaça familiar. Literalmente: o Manto Negro, filho do Lanterna Verde. No entanto, antes disso há uma aventura solta contra um insano Adão Negro, que estava absolutamente fora de controle e se mostrou uma ameaça para a equipe toda, causando vários danos à dinâmica e aos membros dela. Mas este foi só um interlúdio; o cair da escuridão é o verdadeiro chamariz do encadernado.

Com a chegada de Geoff Johns, as referências ao passado da DC se tornam mais evidentes, com personagens há muito esquecidos reaparecendo para servirem propósitos importantíssimos em termos de trama. O Mundo das Sombras do filho de Alan Scott inverte a realidade como o upside down da série de TV Stranger Things, fazendo desta uma das batalhas mais duras, caóticas e épicas da Sociedade da Justiça moderna. Não fosse a chegada triunfante do novo Dr. Meia-Noite e sua perspicácia, é possível que o grupo tivesse perecido.

Apesar de ser um arco de histórias mais direto e repleto de ação, o argumento de inverter a polaridade motivacional de todos os seres humanos expostos à sombra do Manto Negro é muito bem executado e mantém o ritmo do bombástico início da revista.

Um poderosíssimo Extemporâneo enfrenta a SJA e até o novo deus Metron.
Um poderosíssimo Extemporâneo enfrenta a SJA e até o novo deus Metron.

Depois, há um encontro eficaz com a Sociedade da Injustiça e uma trama do vilão Kobra e de seu grupo terrorista (com ações e motivações bem semelhantes às do Cobra dos GI Joe, por sinal, que na época também estavam passando por um revival nos quadrinhos através da Image e, em seguida, do estúdio Devil’s Due). Por fim, há o arco mais impressionante do volume, feito apenas por Johns e Goyer, no qual a Sociedade deve impedir que o Extemporâneo, o grande vilão da Zero Hora, extermine de vez a existência do grupo e molde a realidade como bem deseja.

Em um dos maiores picos de criatividade da dupla de autores, a SJA se vê espalhada por diferentes realidades, que convergem na destruição que o vilão quer perpetrar, tornando-se muito poderoso ao obter a Poltrona Mobius, do Novo Deus Metron, e aumentar o nível de seus poderes. Enquanto isso, o novo Sr. Incrível, Michael Holt, entra de vez para o time e traz abordagens científicas interessantíssimas para este mundo de fantasia.

Ainda que o mote desse último arco seja parecido com o do primeiro, as motivações e consequências possuem escalas incomparáveis — o universo está em jogo aqui. Johns e Goyer fazem a coisa de um jeito que dá a história as qualidades de oníricas, holísticas e de ficção científica necessária para que esta salada de conceitos seja servida na ordem certa para a digestão correta do leitor.

Darkness Falls se prova como um dos maiores momentos da Sociedade da Justiça. De todos os tempos. No entanto, as histórias desse encadernado foram publicadas apenas parcialmente no Brasil, e nem todo mundo viu porque não saíram em um título DC no país: a extinta revista Wizmania publicou as histórias relativas às edições originais de #6 a #10 do título JSA (e sua antecessora, a Wizard Brasil, publicou as histórias do primeiro encadernado na íntegra). Mas talvez fosse hora da Panini pensar em encadernados desse grupo tão querido dos leitores.


Sinopse/Ficha Técnica:
Título: JSA: Justice Be Done
Roteiro: James Robinson & David S. Goyer
Arte: Stephen Sadowski, Derec Aucoin, Scott Benefiel, Michael Bair
Cores: John Kalisz
Páginas: 160
Publicação: DC (Março de 2005)
Idioma: Inglês
Preço de Capa: US$ 17,99

Justice Be Done: O primeiro de super-heróis do mundo retorna em histórias que reestruturam a equipe para os leitores modernos de quadrinhos. O novo time que inclui Canário Negro, Starman, Sr. Destino, as versões da Era de Ouro de Flash e Lanterna Verde e muitos outros, reunidos no funeral do Sandman original, Wesley Dodds, apenas para entrar em ação em conjunto contra o Escaravelho o clássico vilão DC, Mordru!

Sinopse/Ficha Técnica:
Título: JSA: Darkness Falls
Roteiro: James Robinson, David S. Goyer, Geoff Johns
Arte: Stephen Sadowski, Buzz Setzer, Marcos Martin, Michael Bair
Cores: John Kalisz
Páginas: 226
Publicação: DC (Março de 2006)
Idioma: Inglês
Preço de Capa: US$ 19,95

Darkness Falls: Uma equipe composta de heróis do presente e das lendas do passado, a Sociedade da Justiça da América encontra-se lutando contra sua história e seu futuro, enquanto enfrentam o louco Manto Negro, filho de Alan Scott, o Lanterna Verde original e membro da Sociedade de Justiça. E assim como Starman, Homem-Hora, Sideral, Canário Negro, Esmaga-Átomo e Sand começam a se recuperar dessa batalha emocional e física, eles se vêem frente a frente contra seus antigos inimigos, a Sociedade de Injustiça e o senhor da guerra do tempo, o homem responsável pela morte de vários membros da Sociedade da Justiça original!

  • luiz fernando

    Não tenho plavras para descrever o quanto eu gosto dessa fase da sociedade,ela reuni varios pontos que eu amo em revistas de super equipes,como: Numero grande de personagens,desenvolvimento de personagens não tão conhecidos(Amo a Stargirl e Adão Negro ),e arcos Grandes e épicos.

  • Alan Michael Scott

    Acho que esse foi o único título que li de cabo a rabo e devo dizer que foi uma das melhores mensais que já acompanhei, tenho muita saudade T.T…
    SJA >>>> JLA

  • Leandrodosanjos

    Tenho as edições soltas e encadernadas…A única ponta solta que ficou foi o parentesco(ou não) dos Hall(Carter, Kendra, Shiera, Hector) com os Hall (Hank e Don)….

    • Guylherme Lobo

      Acho que são só nomes parecidos, não?

      Em suma: pontas soltas na cronologia do Gavião são quase que uma regra pra ele hahahahah

      • Leandrodosanjos

        É que naquela época Johns e Robinson inventaram que todo mundo tinah que ser parente de todo mundo…Sandra Knight virou prima de Ted Knight…E Speedy Saunders virou tio da Shiera Sanders…E o proprio Hector Hall ressuscitou nascendo do ventre de uma mulher em coma(que acreditava ser Lyta Hall), que no final era Dawn Granger grávida De Hank Hall(????!!!???)Enfim o novo Senhor Destino era filho biológico de Rapina e Columba mas espiritualmente era filho de Gavião Negro e Moça Gavião…Carter e Shiera (e alguns membros da SJA) não envelheceram por conta de uma aventura passada, o casal gavião servil como elo de ligação entre a SJA e a recem formada LJA…Mas no fim da Crise nas Infinitas Terras todos membros da Sociedade da Justiça(menos Poderosa, Sideral e Senhor Destino) ficaram presos no Limbo…Neste interimm um renegado Thanagariano chamado Fel Andar assumiu a falsa identidade de Carter Hall Jr/Gavião Negro 2 e se casou com a terrestre Sharon Parker/Moça Gavião 2…O Casal teve um filho, Charlie Parker, o Águia Dourada dos Titãs da Costa Oeste. Hector Hall/Escaravelho de Prata o verdadeiro herdeiro Hall estava indisponivel nessa época, preso no Sonhar como o Terceiro Sandman…quem tbm ficou presa no Sonhar foi Lyta Trevor Hall, esposa de Hector e filha adotiva da superheroina Miss América/Joan Dale…A máe verdadeira de Lyta era a avatar das Fúrias e heroina da Segunda Guerra, Helena Kosmatos….Lyta Deu a luz um menino, chamado Daniel. Como Daniel foi concebido dentro do Sonhar, se tornou o herdeiro de Sandman/Morpheus… A Rainah Hippolyta assumiu o manto de Mulher Maravilha e numa viagem no tempo se uniu a SJA durante a Segunda Guerra…Nesta viagem, Hippolyta conheceu Helena e se tornou sua madrinha /mãe…Hippolyta é uma especie de avó de Lyta e bisavó de Daniel…

        • Ricardo Giorgio

          Show essa sua resenha. Torcendo para a Eaglemoss trazer esse material em Encadernados aqui pro Brasil.

  • Léquinho Maniezo

    To pensando em comprar o Omnibus e dividir em 350x

  • Mateus Rodrigues

    Sempre achei o conceito da JSA como equipe de legado muito foda! Essa duas primeiras fases da revista, servem bastante para o leitor se familiarizar com a equipe (personagens, mitologia e etc…). Porém acho que ela me pegou realmente depois do retorno do Gavião-Negro, a partir desse momento a revista tem um salto de qualidade bem grande.

  • Pulp Heroes

    Não conhecia nada da Sociedade da Justiça, e depois de ler cada edição que chegava com a Wizard Brasil e depois a mensal da Liga da Justiça, eu fiquei apaixonado por essa equipe, queria tanto que tivesse um desenho animado com todos esses personagens, seria tão magico .