[Review] O Desafio de Desaplanar

Há alguns meses, saiu no Brasil o álbum Desaplanar, de Nick Sousanis. Editado pela Veneta, a obra é também uma tese de doutorado em Educação apresentada pelo autor na Universidade de Columbia.

Foi indicado ao Eisner de Melhor Trabalho Acadêmico em 2016, e mesmo antes, sua forma de lidar com a linguagem quadrinística enquanto a utiliza de forma prática o fez notícia em muitos lugares. Aqui no Brasil, este resenhador teve a oportunidade de conversar com Nick para o Terra Zero em 2015.

Desaplanar é uma obra que fala sobre a integração de imagem e texto para ensinar e informar, mas é mais do que apenas isso. Explico mais adiante.

Em relação a aspectos técnicos, Sousanis é um bom quadrinista. A passagem de página a página, especialmente no virar de cada uma, funciona muito bem. Algumas técnicas, como dividir a mesma figura em vários quadros ou abrir a diagramação em algumas passagens, são usadas de forma magistral para falar delas próprias como maneiras de expandir o entendimento das partes do todo ou convidar o leitor a absorver aspectos em separado e também juntos.

Página de O Desafio de Desaplanar por Nick Sousanis.
Página de O Desafio de Desaplanar por Nick Sousanis.

A capacidade de abstração gráfica é interessante. Uma maior cartunização do ambiente e das figuras humanoides é invocada quando necessário, e dá o aspecto universalista que a obra acadêmica assim exige. Desaplanar tem passagens que visualmente passam entre o maias informativo e pontual, imagens poderosas para ilustrar conceitos centrais, e até a passagem livre – quiçá uma forma de flanar, ou vagar sem direção – por uma página ou outra.

Pois bem: há o teor acadêmico em si. Desaplanar é justamente um conceito que deriva da experiência narrativa da Planolândia de Edwin Abbot. O livro, de 1884, fala sobre um quadrado, que vive em um mundo com apenas duas dimensões que dá nome ao livro. Este mundo acaba sendo visitado por uma esfera, que tem três dimensões. Ela apresenta uma visão de mundo nova ao quadrado, que, saindo de seu mundo, percebe que há diversos mundos diferentes, com mais e menos dimensões que o seu próprio. O quadrado adquire uma visão mais ampla de seu Multiverso, portanto.

Enquanto a obra apresenta esta como uma forma de também transcender suas próprias ideias, e deixar de ser planificado, é vital também para que se perceba que múltiplas percepções são necessárias para que se produza uma nova.

Capa de O Desafio de Desaplanar por Nick Sousanis.
Capa de O Desafio de Desaplanar por Nick Sousanis.

A partir de tantas visões quanto possível, e a conversa entre elas, é possível formas imagens de múltiplas dimensões, dando vazão à imaginação, que gera então formas mais complexas de enxergar o mundo – ou criar novos mundos, se assim desejares. Desaplanar é sobre a imaginação, e como ela opera no trânsito de ideias em diferentes formatos, mídias e discursos conjugados para produzir novos sentidos.

Dito isso, melhor eu não falar demais. Desaplanar, de Nick Sousanis, é uma grande digressão filosófica sobre o valor que damos às diferentes experiências e formas de enxergar os quadrinhos e as mídias em geral. Além disso, é maior ainda em seu convite à exploração de outras propostas e discursos, de forma a fazer-nos, todos, sairmos da Planolândia de cada um e ganhar todos os universos que estão à nossa disposição.

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