[#Review] Doomsday Clock #1: Mergulhando fundo na sequência de Watchmen

Nunca é fácil falar de Watchmen. Não porque está sempre se andando sobre ovos quando material com muitos (e apaixonados) fãs estão envolvidos, mas porque o material requer o mesmo cuidado que lhe foi dado durante sua criação, ao ser comentado por quem quer que seja. Vimos isso de perto no vídeo em que Geoff Johns, autor de Doomsday Clock #1 — agora tida como a sequência oficial da obra seminal de Alan Moore e Dave Gibbons. E veremos novamente nesta análise da primeira edição da saga escrita por Johns e desenhada por seu antigo colaborador, Gary Frank.

As Tecnicalidades

Doomsday Clock #1 (e a saga como um todo) baseia-se no fato de a sigla da editora que a publica ser, coincidentemente, DC, mesma casa em que Watchmen foi publicado originalmente. O Doomsday Clock, ou Relógio do Juízo Final, existe de verdade. Ele marca a proximidade do mundo em relação a um cataclismo nuclear ou algum tipo de guerra que cause destruição em massa. Ele é referência na vida real, foi muito usado na obra original e marca presença ainda mais importante aqui.

Página de Doomsday Clock #1 por Gary Frank e Brad Anderson.
Página inicial de Doomsday Clock #1 por Gary Frank e Brad Anderson.

Por fim, DC está aí por um motivo que alguns milhares de fãs da HQ original de Moore nunca imaginaram acontecer de verdade: seus personagens passarão por um crossover com o Universo DC tradicional pela primeira vez na história. E, segundo Johns, seu autor, é uma oportunidade única e fechada. É uma minissérie de 12 edições, sem tie-ins, prólogos ou novas sequências. Doomsday Clock é o que é e ponto final.

A História

Doomsday Clock #1 determina o que teremos de Watchmen e o que teremos de novidades nessa história. Seu autor surpreendeu bastante logo nas primeiras páginas, por apostar em versões novas de personagens conhecidos (sim, Walter Kovacs está mesmo morto e outra pessoa é o novo Rorschach, um negro – seria ele um símbolo maior que a pessoa que o veste, similarmente ao Batman) e criar gente nova seguindo o livro de regras de Watchmen. Johns fez o que sabe fazer melhor (achar personagens obscuros e dar a eles a devida relevância) e trouxe da Charlton (fonte original do universo de Watchmen) os vilões Punch e Jewelee, nas versões Marionette e Mime.

O Capitão Átomo enfrenta Jewelee e Punch na capa de Captain Atom #85, feita por Steve Ditko em 1967.
O Capitão Átomo enfrenta Jewelee e Punch na capa de Captain Atom #85, feita por Steve Ditko em 1967.
Mime em ação em arte de Doomsday Clock #1, por Gary Frank e Brad Anderson.
Mime em ação em arte de Doomsday Clock #1, por Gary Frank e Brad Anderson.

Análogos muito bons e perfeitamente condizentes com a proposta da HQ, os dois são o chamariz da história logo de cara. Perfeitamente identificáveis desde suas primeiras aparições, há grandes chances de eles tornarem-se os novos queridos dos fãs de Watchmen. Johns caprichou neles.

Mas o que realmente acontece?

Em 22 de novembro de 1992, exatamente 7 anos após o término da Watchmen original, Ozymandias já foi desmascarado pelo massacre que perpetrou. O diário completo do Rorschach original foi publicado pelo jornal sensacionalista de direita New Frontiersman. A má-fama do periódico não fez com que a publicação do diário fosse levada a sério de modo relevante, mas ela gerou uma investigação de Jack Northman Anderson (renomado jornalista investigativo, vencedor do prêmio Pulitzer na vida real e famoso por revelar histórias como a tentativa de assassinato de Fidel Castro pela CIA e o escândalo Irã-Contras na gestão Reagan). Anderson publicou um artigo intitulado The Great Lie (A Grande Mentira) justamente naquela data em um grande jornal novaiorquinho (o New York Gazette) para falar do plano absurdo e agora falho de Adrian Veidt, agora o homem mais procurado do mundo. Isso é inclusive noticiado por William F. Buckley, Jr., um apresentador do mundo real bastante conservador, que fundou o veículo (também conservador) National Review. Politicamente, as coisas não andam boas também.

Johns deu uma boa mexida na história do mundo, colocando Robert Redford como presidente dos EUA (também um ator que teria ascendido ao poder, assim como aconteceu com Ronald Reagan no mundo real, como sugerido por Alan Moore nos momentos finais de Watchmen) e criando uma situação bem tensa entre seu país e a Rússia. Aliás, se Redford tivesse subido ao poder da mesma forma que Reagan, ele provavelmente construiria sua base de poder em Utah, onde é mais popular, para então chegar ao posto máximo de poder nos Estados Unidos.

Página de Doomsday Clock #1 por Gary Frank e Brad Anderson.
Página de Doomsday Clock #1 por Gary Frank e Brad Anderson.

Fica implícito que a Guerra Fria ainda está acontecendo e que as coisas só tendem a piorar; os russos invadiram a Polônia e há ameaças das forças estadunidenses caso a Rússia (ou seria a União Soviética?) não desista da ação. Foi ordenado também que cidadãos americanos da região a evacuem o quanto antes — o que não será facilitado pelos russos. A guerra nuclear é quase iminente, como era quando Richard Nixon governava a maior potência do ocidente na Watchmen original. Ou seja, o plano de Veidt gerou um massacre e não resolveu nada, como os leitores mais pessimistas (ou realistas?) de Watchmen sempre acreditaram.

Após entendermos o macroescopo da situação, Johns finalmente nos apresenta Marionette (Erika Manson) e Mime (Marcos Maez) ao mostrar o novo Rorschach entrando em uma prisão e tirando os dois de lá. Erika quer muito recuperar seu filho e Rorschach sabe onde ele está, mas só revelará após ser ajudado pelos dois. Ao sair da prisão (bem ao estilo do que Coruja e Espectral fizeram na obra original), o trio vai para um lugar bem familiar para os leitores: o covil do Coruja, onde eles encontram Veidt, que revela estar morrendo de câncer — e ele tem contas a acertar antes de ir embora.

O que ele quer é encontrar o Doutor Manhattan. Jon, segundo ele, está desaparecido por uma razão e ele pode ajudá-lo. Caso o casal o ajude, ele entregará seu filho e mais 200 milhões de dólares.

Cena de Clark e Lois em Doomsday Clock #1, por Gary Frank e Brad Anderson.
Cena de Clark e Lois em Doomsday Clock #1, por Gary Frank e Brad Anderson.

Por fim, Superman! Pela primeira vez na vida, Clark está tendo pesadelos e sente que algo o que está assombrando. Ele relembra, com certa confusão, da morte dos pais quando ainda era novo (sua origem dos Novos 52, diga-se de passagem) e conta tudo para Lois no meio da noite, com bastante medo.

O que Realmente está Acontecendo

Pouco, na verdade. Johns passa a maior parte do tempo criando os alicerces da nova etapa deste universo. Ele escreve com mão pesada, para emular o estilo de Moore, e também não deixar alguns de seus maneirismos para trás — ao tomarmos a última cena como exemplo, o momento em que Clark fala para Lois que não lembra de ter tido um pesadelo na vida compõe um diálogo bem típico de Johns. Uma frase poderosa que lá no fundo todos esperavam que ele fosse fazer. Mas isso não é um problema de verdade.

A edição é boa e Johns faz escolhas interessantes para não “atrapalhar” o material original. Ao criar personagens novos, o autor, acompanhado pela arte matadora de Gary Frank (com cores lindíssimas de Brad Anderson), que prestou grande homenagem ao estilo visual de Dave Gibbons e à “escola visual de Watchmen” seguindo à risca suas pré definições, fez uma tangente da obra oitentista e poderá contar sua própria história. Uma na qual os principais personagens da HQ predecessora são coadjuvantes dos novos e dos heróis clássicos da DC. Suas escolhas não poderiam ter sido melhores nesse sentido.

Capa de Doomsday Clock #2, por Gary Frank e Brad Anderson.
Capa de Doomsday Clock #2, por Gary Frank e Brad Anderson.

Por outro lado, incomodou bastante ver Johns escrevendo de forma tão emuladora em alguns momentos. Ele tem identidade própria e não precisa provar mais nada a ninguém há bons anos. Imitar Moore, como ele fez em diversos momentos, seja no jeito de Rorschach falar ou até na narrativa, pareceu desnecessário. Ele não precisava disso.

Quanto aos easter eggs e referências, vamos aproveitar este momento para falarmos deles:

=> Punch e Jewelee: Foram criados pelo mestre Steve Ditko (que está vivo e produzindo quadrinhos até hoje, que são vendidos via catálogo por seu agente para colecionadores de seu trabalho) em 1967, para a edição Captain Atom #85. Isso foi antes de os personagens da Charlton Comics sempre comprados pela DC. A dupla foi apresentada como vilã da dupla Capitão Átomo e Sombra da Noite. O amor de um pelo outro é uma das maiores características dos dois — provavelmente a primeira, sendo a segunda a imprevisibilidade de suas ações criminosas;

=> Quem é o novo Rorschach? Há duas teorias possíveis e é bem provável que uma terceira (ou quarta) não surja. O que isso significa é que Johns e Frank procuraram as dicas na própria Watchmen sobre quem pode ter assumido a identidade do vigilante. As duas opções são o filho do psiquiatra que atendeu Walter Kovacs (ele teve acesso a diversos materiais sobre o psicopata que fazia justiça e a dupla criativa da nova HQ até deixa algumas dicas nas páginas) ou Bernie, que é vaporizado em Watchmen #11, mas, diabos, ninguém fica morto de verdade em quadrinhos de super-heróis, não é mesmo? Seja como for, ambos são suficientemente diferentes para mostrarem abordagens singulares de Rorschach e foi isso que vimos nesta Doomsday Clock #1;

Página de Watchmen em que ambos os Bernies são vaporizados. Arte de Dave Gibbons e John Higgins.
Página de Watchmen em que ambos os Bernies são vaporizados. Arte de Dave Gibbons e John Higgins.
O psiquiatra e sua esposa em arte de Dave Gibbons e John Higgins.
O psiquiatra e sua esposa em arte de Dave Gibbons e John Higgins.

=> A política de Robert Redford: Kudos para o CBR por ter feito um levantamento bem bacana sobre isso. Apesar de seu poder em Doomsday Clock #1, na vida real Redford é mais engajado em causas do que a busca por posições poder propriamente ditas, o colocando no meio do espectro republicano x democrata. Por exemplo: ele é um apoiador ferrenho da melhoria no meio-ambiente, dos direitos LGBT e dos índios americanos. Por outro lado, ele é citado no mais recente livro de Donald Trump, atual presidente dos EUA pelo partido republicano e não quer política, sob hipótese alguma, no Festival de Cinema de Sundance. Polêmicas à parte, ele é normalmente visto como um liberal com alguns ideais democratas.

Agora, falando de Doomsday Clock #1, mesmo que algumas coisas indiquem que Redford tem um pezinho no Partido Republicano e quer muito uma guerra nuclear, como as anotações de Rorschach indicam. Redford está preparando algo para garantir um novo mandato, já que, quando o pêndulo de poder começou a mudar com a queda de Nixon, sua popularidade também não era das melhores. Ou seja, Johns escolheu uma figura excelente para explorar como presidente dos Estados Unidos de 1992 em diante.

Robert Redford em pôster do filme O Candidato, de 1972.
Robert Redford em pôster do filme O Candidato, de 1972.

=> 1992: O ano em que se passa a nova história é interessante. Sete anos depois é importante, já que sete é o número de membros clássicos da Liga da Justiça, mas não é só isso. Naquele ano, o republicano George Bush (o pai) ainda estava no poder como republicano, o que pode ditar algumas das escolhas desta versão fictícia de Robert Redford. Além disso, a divisão da União Soviética talvez não tenha acontecido, apesar da presença de Mikhail Gorbachev no universo ficcional, o que nos faz questionar os eventos daquele ano mundo real – Boris Yeltsin existe? A Bósnia vai declarar a fundação da Bósnia e Herzegovina e, por consequência, iniciar a guerra da Bósnia, que tomou parte dos anos 1990?

George Bush pai e Boris Yeltsin em 1993.
George Bush pai e Boris Yeltsin em 1993.

As políticas que deram fim ao Apartheid na África do Sul foram votadas naquele ano? Já podemos dizer que Bush e Yeltsin não anunciaram o fim da Guerra Fria em 1º de fevereiro. Porém, será que a crise de desarmamento do Iraque e o comando de Saddam Hussein ainda são reais?

Na cultura pop: será que o Atari 2600 (o seu melhor inimigo, como vaticinava o slogan brasileiro de lançamento do console no Brasil) será mesmo descontinuado? Será que Paul Simon (da dupla Simon & Garfunkel), tão importante para o filme de Watchmen com The Sounds of Silence, fará sua primeira e extensa turnê pela África do Sul? Impossível dizer. Mas a nova história parte do princípio do efeito borboleta, tal qual a Watchmen original, o que é muito bom.

O Veredito

Apesar de várias qualidades, Doomsday Clock #1 não teve um início tão promissor assim, muito provavelmente porque Johns, assim como nós, também pisou um pouco em ovos na hora de escrever esta história. Pelo menos na primeira edição. O início de Watchmen mostrava a morte do Comediante logo de cara, subsequentemente seguida por uma fila de eventos impressionantes e interessantíssimos que deixavam o leitor verdadeiramente preparado para a diferencialidade daquele material. O gibi de Johns não faz isso.

Na verdade, Doomsday Clock #1 é quase uma antiWatchmen #1, com pouca coisa acontecendo, muitos pensamentos internos do (aparentemente jovem) novo Rorschach e planos sendo lentamente delineados. Isso não é ruim de verdade, é claro. Johns está apenas preparando seu universo. Contudo, uma sequência da mais venerada obra de super-heróis da história não pode se dar a certos luxos. Caso contrário, sequer passará no crivo dos leitores de mente mais aberta para este tipo de publicação — imaginem os de cabeça mais fechada.

A chegada de Doomsday Clock, conforme publicada em Flash #22, lançada neste ano. Arte de Howard Porter e Hi-Fi Design.
A chegada de Doomsday Clock, conforme publicada em Flash #22, lançada neste ano. Arte de Howard Porter e Hi-Fi Design.

Por outro lado, sabendo que Johns tem um histórico muito positivo dentro da indústria e não aceitaria este trabalho sem ter certeza de que tem algo oferecer, a nostalgia excessiva da primeira edição pode ser absolutamente sombreada pelos novos elementos que ele inseriu na história e deve explorar ainda mais nos números vindouros. Ou seja, apesar do início morno e formulaico demais, a expectativa para o futuro é boa.

A verdade é uma só: a sequência de Watchmen está aí pra ficar. E agora que ela começou a sair pra valer, será interessante ver como estes personagens, novos ou antigos, reagem e interagem com o velho panteão de heróis e vilões do Universo DC.


Sinopse/Ficha Técnica:
Título: Doomsday Clock #1
Roteiro: Geoff Johns
Arte: Gary Frank
Cores: Brad Anderson
Páginas: 64
Publicação: DC (Novembro de 2017)
Idioma: Inglês
Preço de Capa: US$ 4,99

A DC apresenta-lhe uma série de 12 edições da aclamada equipe formada pelo escritor Geoff Johns, pelo artista Gary Frank e o colorista Brad Anderson. Você não está preparado para o que está por vir nessas páginas, bons leitores!

  • Cassiano Cordeiro Alves

    Parece que a história começou com pé direito! Que bom!

  • Ultra EXCOMENTARISTA

    QUERIA LER MAS NÃO VOU PQ TENHO MEDO DA PRAGA Q O ALAN MOORE JOGOU!

    • eu cretino

      Vou ler sem medo da praga do barbudo mimizento. (Não sou fã dele mesmo….).

  • Apollonia kvieczynski

    que legal teremos um novo Rorschach.

  • Joaquim Grillo

    daqui uns 15 anos sai no cinema quem sabe

    • eu cretino

      Snygod na produção porque sim.

      • IDRIS ELBA RAMALHO

        “Snygod”
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  • Neo

    Parabéns, Morcelli!

    Só alguém que entende mesmo de quadrinhos (bota quadrinho nisso) para explicar tão bem assim. Adorei as referências.

    Vou continuar lendo essa história.

  • Grão-Mestre

    Morcelli, achei excelente o seu review. Muitíssimo detalhado e informativo.

  • Cassiano Cordeiro Alves

    Uma coisa que me ocorreu agora: 1992 não foi o ano em que o editorial da DC decidiu matar o Superman? Seria também alguma referência ou estou viajando?

    • Moroni Machado

      Tem essa referencia

  • Evandro Monteiro

    Parem de mexer no lixo do Alan Moore, guaxinins!

    • Marcelo Pereira

      Alan Moore mexeu no lixo da Charlton Comics antes

      • Evandro Monteiro

        Alan Moore resgatou os personagens da Charlton, dos pulps, da Warrior, da Marvel UK… Geoff Johns só “melhora o trabalho dos outros” como o “visionário” Zack Snyder.
        Ouça o ComicPod do Terra Zero sobre o run do Mark Waid no Flash, e veja que anos atrás o pessoal do Terra Zera falava das cagadas do Johns no trabalho dos outros.