[#Review] Primeiras Vezes: Sexualidade livre, Ovidie, Sibylline e a arte no sexo

Às vezes penso que a monogamia é uma comédia moral. Não, não se trata de um manifesto pró poliamor, até porque nem tenho experiência (vivida ou acadêmica) para falar disso ou daquilo, mas o desejo é inerente ao ser humano, estando ele compromissado ou não. E por melhor que esteja seu relacionamento com a outra pessoa, o desejo físico (mais no homem em alguns períodos da vida, mais na mulher em outros), isso sempre vai existir. “A mina gata” ou “o cara gato” sempre serão observados e devidamente notados (na mente ou em voz alta) por outrem em qualquer lugar do planeta. Faz parte da gente. E está tudo bem.

Quando alguém com capacidade artística e vivência nos diferentes espectros da sexualidade transforma isso em arte, curiosos e adeptos de uma vida sexual saudável (monogâmica ou não) ficam interessados em consumir este tipo de material. E o papel da sexualidade na sociedade sempre foi imenso, ainda que apresentado de diferentes formas através das eras. A título de exemplo da liberdade sexual que podemos ter hoje, vamos falar de uma obra em quadrinhos, Primeiras Vezes, da dominatrix francesa Sibylline Desmazières, mas ela estará acompanhada do corpo de trabalho da também francesa Ovidie.

Antes de falarmos da HQ Primeiras Vezes e de sua criadora, que foi de forma certeira lançado pela Nemo no Brasil em 2015, vamos contextualizar quem é a cineasta Ovidie e o que ela fez de tão importante até agora para relacionarmos seu trabalho com o quadrinho em questão.

Ovidie em foto deste ano. Fonte desconhecida.
Ovidie em foto deste ano. Fonte desconhecida.

Nascida em 25 de agosto de 1980 como Eloïse Becht (apesar de seu nome verdadeiro ter-se mantido em segredo por muitos anos na indústria), ela é uma ex-atriz e ex-diretora pornô, atriz de filmes independentes, diretora de filmes eróticos educacionais, jornalista, filósofa formada, autora e apresentadora.

Seu mais recente trabalho é Pornocracy: The New Sex Multinationals (disponível no Netflix), que explica como a indústria pornô destrói a vida dos talentos. Como? Exigindo demais de seus corpos enquanto pessoas misteriosas espalhadas pelo mundo faturam bilhões com serviços de streaming, exibindo essas pessoas transando utilizando-se da narrativa gonzo (muito popularizada nos anos 1990) ou no clássico esquema de contar uma historinha como desculpa para pessoas transarem explicitamente na frente das câmeras.

Antes disso, quando ainda fazia parte do meio pornô, Ovidie sempre foi considerada muito superior à Sasha Grey e Stoya nos quesitos filosofia por trás da sexualidade, escolha, feminismo, liberdade e imposição de igualdade. Ovidie é uma intelectual, escolhendo entrar na pornografia aos 18 anos (enquanto se formava em filosofia) para trazer maior significado à indústria, transparecendo fluidez sexual e intelectualidade em um produto considerado menor ou sujo. Isso pode ser visto em sua primeira aventura como diretora, em Orgy in Black, de 2001, pelo qual ela ganhou o Hot D’or, tornando-se a mais jovem premiada diretora do cinema pornô.

Ovidie em 2001 para cena de O Pornógrafo.
Ovidie em 2001 para cena de O Pornógrafo.

Naquele mesmo ano, ela fez parte da chamada New French Extremity, um dos mais controversos (e ricos) movimentos cinematográficos franceses, que gerou filmes como Irreversível (2002) e Mártires (2008). Isso além, é claro, de O Pornógrafo, de 2001, do qual Ovidie fez parte em uma cena de sexo explícito. O filme é um drama sobre pai e filho. O pai é diretor pornô, tenta reconquistar o amor do filho que o odeia por sua profissão e ausência durante anos.

Foi um dos primeiros filmes mainstream de Ovidie, o que chamou ainda mais a atenção dos jornalistas para o gênero NFE e para seu trabalho. Poucos anos depois ela saiu de vez da indústria pornô explícita para fazer outro tipo de coisa com a sexualidade.

Ovidie em 2001 na capa do filme O Pornógrafo.
Ovidie em 2001 na capa do filme O Pornógrafo.

Enquanto isso, a parisiense nascida em 1978 Sibylline é fã de quadrinhos desde pequena. E seu trabalho não é apenas como roteirista da nona arte, mas também como dominatrix, onde também usa o nome Sibylline e utiliza-se da criações de quadrinhos para repassar experiências e fantasias adquiridas no decorrer dos anos a fim de proporcionar experiências eróticas aos olhares mais ávidos.

Mas não é daqueles outros trabalhos de Ovidie que vamos falar, tampouco da bibliografia completa de Sibylline, e sim de Liberté Sexuelle, filme que Ovidie escreveu, produziu e dirigiu em 2012, e do quadrinho Primeiras Vezes, da quadrinista dominatrix, lançado aqui em 2015. Será que elas se conhecem e consomem seus respectivos trabalhos? É possível. Até trabalharam no álbum em quadrinhos Duo, uma antologia de 2012. E ambas são francesas, mundialmente conhecidas e trabalham com sexualidade. Mas não vamos presumir para esse texto que elas sejam grandes colegas ou amigas, vamos apenas notar como diferentes mídias – em especial o quadrinho, o alimento do Terra Zero.

Liberté Sexuelle

Apesar do pseudônimo Ovidie, neste filme, que é uma comédia educacional pornográfica (as cenas de sexo são todas explícitas, com atores e atrizes que trabalham no meio por toda a Europa, como Liza del Sierra, Angell Summers e Phil Holliday), sua personagem se chama Léonie. Ela é uma produtora de TV cuja especialidade é dirigir e apresentar reality shows que envolvem as vidas sexuais de outras pessoas.

A fim de conquistar mais público e resolver a crise de audiência de seu programa, ela resolve “experimentar” mais e passar um tempo cobrindo uma comunidade de poliamor – uma grande casa de campo com oito moradores homens e mulheres que fazem sexo entre si. Aliás, as mulheres fazem sexo consigo mesmas, além de fazerem com os homens, mas eles não fazem entre si, o que é inteligentemente questionado por Léonie em sua cobertura.

Cena do filme Liberté Sexuelle.
Cena do filme Liberté Sexuelle.

Ela é um personagem bem escrota no início do filme. Não há forma melhor de defini-la. Além da incapacidade de entender como aquela família funciona, ela chega ao ponto de desejar que alguma daquelas pessoas adquira uma DST para aumentar a dramaticidade do programa. Enquanto isso, ela lida com a dificuldade de seu marido aceitar que um talento como ela seja desperdiçado em programas televisivos exploratórios e vexatórios. O que quase ninguém esperava (personagens e espectadores) é que o filme se vê obrigado a lidar com uma consequência diferente do sexo, uma que não é uma DST, o que faz Léonie questionar seu trabalho e até sua própria sexualidade.

Fluidez sexual e erotização sem necessariamente criar produtos que provoquem as pessoas a se masturbarem é algo muito difícil e raro. Ovidie tem experiência suficiente para criar um produto assim e o faz com maestria em Liberté Sexuelle, pois o filme, apesar das cenas explícitas de sexo e de ter um elenco formado de atores pornô, deixa as coisas muito cinzas e não causa excitação proposital o tempo todo.

A modelo e atriz Liza del SIerra é a grande estrela do filme.
A modelo e atriz Liza del SIerra é a grande estrela do filme.

Ovidie caminha por uma linha muito tênue para poder mostrar a liberdade da sexualidade e como podemos ser saudáveis com nossas escolhas, sem temores ou pudores, desde que saibamos nos manter íntimos, seguros e capazes de lidar com consequências. Mais que isso, a diretora não teme dramatizar de forma correta um filme erótico e de quebra, retratar a sexualidade em toda sua realidade maravilhosa, deliciosa e zoada.

Liberté Sexuelle é um filme de arte de verdade, independentemente de suas cenas de sexo, com seios, vaginas e pênis aparecendo normalmente para todo lado durante o dia a dia sexual daquela família. O sexo não automático como num filme pornô tradicional, tem mais pegada e naturalidade, além de explorar prazeres e desejos de pessoas que confiam umas nas outras, mas que também estão abertas a surpresas e até terceiros entrando no grupo (desde que façam sexo seguro).

O que nos leva a…

Capa de Primeiras Vezes, da editora Nemo.
Capa de Primeiras Vezes, da editora Nemo.

Primeiras Vezes

Sob muitos aspectos, o quadrinho de Sibylline é muito semelhante ao que foi apresentado pelo filme de Ovidie em 2012. Desejos sexuais tradicionais e foras dos habituais são explorados das mais diversas formas. Contudo, ao contrário de uma família grande que se ama e se dá ao máximo, aqui cada uma das dez histórias lidam com personagens diferentes que representam facetas diferentes da sociedade moderna e de sua relação com o sexo.

Há histórias de todos os tipos, com traços diferenciados, já que cada história é feita por um artista diferente – o que enriquece a HQ e diferencia a absorção do leitor por parte da experiência sexual mostrada em cada conto. Em Sex-shop, por exemplo, o lápis de Capucine mostra uma moça que decide ir até Pigalle, o bairro parisiense com a maior quantidade de sex-shops do país, para comprar apetrechos sexuais e se descobrir de verdade.

Isso só serve de exemplo para mostrar que Primeiras Vezes é uma HQ erótica que fala de sexo e muito mais; discute descoberta a dois (ou mais), afetividade, amor, desejo, decepção e estimulação. O posfácio da autora fala tudo sobre sua própria obra:

O sexo é, antes de tudo, uma troca, um momento último de abandono em que é preciso saber deixar de lado os pudores e as angústias. A gente trepa porque a gente gosta, porque a gente se descobre, porque a gente se aprende. Eu tinha vontade de contar histórias que mostrassem que o sexo é bonito, e de dizer que os excessos de alguns são, para outros, uma normalidade carinhosa.

Ela conseguiu, até nas histórias com temas mais controversos, como em uma história chamada Sodomia, na qual há inversão de papéis; com um strap-on, a garota penetra seu namorado e buscam novas formas de prazer. Em Inerte, uma boneca inflável com consciência critica duramente a incapacidade de seu dono de ser homem de verdade ao fazer sexo como um robô, como um ator pornô faria, de forma nada natural, machista e querendo provar alguma coisa para quem estivesse vendo.

Sibylline em evento de quadrinhos. Crédito da foto desconhecido.
Sibylline em evento de quadrinhos. Crédito da foto desconhecido.

De modo geral, Primeiras Vezes é um must read para quem ama a mídia e não tem vergonha de se sentir erotizado com arte de verdade; quem discernir o que é putaria gostosa e o que é lixo. Ovidie e Sibylline têm muito em comum e o Zeronauta lendo isso aqui pode consumir as criações de ambas, desde que não tenham medo de absorverem o material, entenderem sua própria sexualidade e experimentarem coisas novas sem medo do prazer que isso proporciona. Há coisas que só a arte – erótica, no caso – pode proporcionar. E que ela seja celebrada, como o sexo gostoso que faz você esquecer o mundo ao seu redor.


Sinopse/Ficha Técnica:
Título: Primeiras Vezes
Roteiro: Sibylline
Arte: Alfred, Capucine, Jérôme d’Aviau, Virgine Augustin, Vince, Rica, Olivier Vatine, Cyril Pedrosa, Dominique Bertail e Dave McKean
Páginas: 112
Publicação: Nemo (Abril de 2015)
Idioma: Português
Preço de Capa: R$ 39,90

Dez primeiras – e diversas – experiências sexuais do ponto de vista feminino e desenhadas por grandes nomes da HQ europeia.