[Entrevista] Carniça: Rodrigo Ramos fala de nova HQ de horror nacional

Rodrigo Ramos é um amigo do Terra Zero há alguns anos, mas, mais do que isso é editor e um dos principais redatores do gigantesco portal de horror Boca do Inferno, que tem um histórico imenso na internet brasileiro. Um dos autores do livro Medo de Palhaços, Ramos está tentando lançar um HQ sua há um bom tempo e finalmente isso aconteceu.

Carniça traz consigo uma narrativa muito familiar para fãs de H.P. Lovecraft e Edgar Allan Poe, mas com um gostinho independente e brasileiro que dá o tempero adequado para a apreciação da história. O Terra Zero teve contato com ela em primeira mão e já a coloca como um dos lançamentos mais interessantes do ano no mercado nacional.

Baseada em diversos elementos de terror, como os supracitados e o body horror do cineasta David Cronenberg, além do gráfico j-horror, Carniça conta uma história incômoda, brutal, com uma mensagem pessimista muito parecida com as dos contos mais sinistros de Poe de Lovecraft. Ela chega até a ser anti-climática, na verdade, o que pode incomodar alguns despreparados.

Capa de Carniça por Marcel Bartholo.
Capa de Carniça por Marcel Bartholo.

Portanto, apesar de precisar de alguns acertos de edição e fluidez narrativa, ela é uma das HQs mais bacanas que o Brasil colocou no mercado em 2017, com um destaque imenso para a arte suja, brutal e maravilhosa de Marcel Bartholo.

Sem mais delongas, vamos trocar uma ideia sobre Carniça com seu autor!

Terra Zero: Você está tentando criar uma HQ própria há um bom tempo. Como Carniça finalmente saiu?

Rodrigo Ramos: Eu sempre trabalhei em algumas “histórias em quadrinhos secretas” que nunca viram a luz do dia. Este ano eu decidi que tentaria alguma coisa pra valer e então surgiu uma oportunidade de apresentar um roteiro para uma coletânea inspirada em Edgar Allan Poe, um dos maiores mestres do horror e que sempre admirei. Isso acabou me encorajando a botar a cara e trabalhar em minha primeira história em quadrinhos de verdade!

Por que fazer uma história envolvendo um folclore nacional? Como ele foi escolhido dentre os ricos elementos da cultura brasileira?

O folclore moldou meu gosto pelo terror. Os causos contados pela minha família, lá no interior de São Paulo, são as primeiras histórias de horror que ouvi na vida. E isso sempre me fascinou. Quando eu era criança, nós ficávamos até tarde sentados na varanda ouvindo os mais velhos relembrando essas histórias como coisas que realmente aconteceram e minha paixão por histórias assustadoras foi tomando forma. Quando a ideia de criar uma história de horror que transportasse o universo de Edgar Allan Poe para o Brasil, misturar Poe com nosso folclore, cheio de mitos religiosos e culpa, foi quase automático.

Página de Carniça por Marcel Bartholo.
Página de Carniça por Marcel Bartholo.

Que inspirações o levaram a criar a história? Não apenas brasileiras, mas do horror em geral?

Além da obra de Edgar Allan Poe, que serve de inspiração direta e aparece como easter eggs ao longo de Carniça aqui e ali, também temos um pouco do body horror de David Cronenberg e o clima denso do j-horror que dão forma gráfica aos temas universais de Poe da morte e culpa. O horror psicológico e mais subjetivo que muitos andam rotulando de “pós-terror” também dá as caras na revista.

Como surgiu sua parceria com o artista Marcel Bartholo?

Nós nos conhecemos desde que divulguei sua HQ anterior, Insubstituível, no Boca do Inferno. Desde então nós sempre trocamos ideias sobre nossos projetos e terror em geral. Quando decidi a escrever um roteiro, mostrei a ideia inicial pra ele, que adorou o argumento e me propôs trabalharmos juntos. A partir daí fomos criando juntos. A arte do cara é incrível e casou muito bem com a história que eu queria contar.

Na trama, acompanhamos a maldição de um sertanejo e seus próprios demônios sobre um antigo crime. Você chegou a pesquisar sobre os sertanejos para caracterizar melhor esta parte da cultura brasileira? Ou o trabalho ficou mais a cargo de Bartholo?

Quando comecei o roteiro e o Marcel se prontificou a assinar a arte, a primeira referência visual que surgiu foi o quadro Os Retirantes de Cândido Portinari. Quando você observa essa obra, você se depara com um retrato do brasileiro sofrido e castigado pela vida dura. Foi esse sertanejo que buscamos mostrar em Carniça. Um brasileiro não de um lugar específico, mas aquele que vemos todos os dias nas ruas e nos jornais. Esse brasileiro endurecido pela vida e atormentado pela culpa funciona muito bem quando misturado ao universo de Poe.

Página de Carniça por Marcel Bartholo.
Página de Carniça por Marcel Bartholo.

O crime de Jonas envolve uma situação muito parecida com a qual vemos todos os dias nos noticiários. A modernidade influenciou a criação deste quadrinho?

Sim. Eu acredito que o gênero do horror, principalmente no cinema, funciona como um registro histórico do momento cronológico em que foi produzido. Você tem os monstros gigantes do medo da bomba nuclear, o terror satânico vindo da decepção da geração paz e amor e o torture porn pós 11 de setembro, por exemplo. Esse aspecto documental do horror sempre me fascinou e é uma das coisas que tento colocar nas histórias que produzo. Não há nada mais assustador do que a realidade, é esse medo do real que nos inspira a criar a ficção. E infelizmente, o ponto de partida de Carniça é algo que continua atual e preenche as páginas dos nossos noticiários diariamente.

Como sua experiência no Boca do Inferno como autor de Medo de Palhaços ajudou na criação desta HQ?

Além da quantidade massiva de histórias em quadrinhos de horror que consumi desde que passei a integrar a equipe do Boca do Inferno, escrever Medo de Palhaço mostrou que eu não precisava ter medo, com o perdão do trocadilho, de escrever e publicar. Foi graças ao Boca do Inferno, onde sou responsável pela sessão de quadrinhos, que conheci muito artista independente e fui entendendo como esse mercado funciona e perdendo esse medo de publicar. No começo do ano, o jornalista e amigo Vitor Abdala me convidou para participar de uma antologia de contos de horror, o Narrativas do Medo, e foi a primeira vez que produzi ficção pra valer, pra alguém, além de mim, ler. A recepção foi muito boa e, a partir daí, o próximo passo foi embarcar na produção de quadrinhos, que é algo que sempre sonhei em fazer.

Qual a sua expectativa para o lançamento da HQ? Há outros planos em vista?

Temos conversado bastante sobre produzir uma HQ nova por ano, mas isso vai depender bastante da recepção de Carniça e, é claro, de nossas agendas. Para o próximo ano já tenho um novo conto para sair em Narrativas do Medo 2 e um conto sobre palhaços assassinos que deve sair ainda este mês na revista Assombrada BR do autor MR Terci. O Marcel agora está trabalhando em O Santo Sangue, uma HQ com roteiros do Laudo Ferreira, e assim que ele terminar, nós pretendemos começar a trabalhar na nova HQ, que terá mais páginas e que deve sair no final do ano que vem. Confesso que conforme a data de lançamento se aproxima, vou ficando cada vez mais nervoso! É minha primeira HQ e espero muito que os leitores gostem e se interessem pelo projeto.


Carniça tem 20 páginas coloridas no formato europeu (21 x 28 cm) em papel couchê fosco. O lançamento oficial ocorre no IV Festival Boca do Inferno, que acontece nos dias 25 e 26 de novembro na Oficina Cultural Oswald de Andrade, no Bom Retiro em São Paulo. Em seguida, seguirá o circuito de eventos de quadrinhos em 2018.

Você pode encontrar mais informações sobre a HQ na página oficial clicando aqui.