[Editorial] A luta incansável pela Justiça

Nesta quarta-feira, estreia nos cinemas nacionais o aguardado filme da Liga da Justiça. Nele, alguns dos maiores nomes do panteão da DC irão se unir contra um grande mal para, provavelmente, triunfarem ao final. Porque a luta contra forças maléficas só acontece por haver a esperança de que este mal seja vencido e a ameaça que ele representa, eliminada. Boa parte das resenhas já liberadas é amplamente favorável à diversão que o filme irá proporcionar às plateias mundiais e, provavelmente, isso deve ser a verdade.

É simbólico que, especificamente nesta semana, mais uma vitória contra uma força do mal tenha acontecido em um dos campos de batalhas mais difíceis do Multiverso DC: os bastidores.

A demissão de Eddie Berganza por assédio sexual é comemorada por diversos setores da indústria, que se esforça, cada vez mais, para se tornar igualitária, seja em termos de etnia, seja em termos sexuais. Ela acontece no único momento possível: em meio a uma série de denúncias de gigantes da indústria do entretenimento estadunidense, que atingiu primeiramente um dos executivos mais poderosos da indústria cinematográfica mundial, Harvey Weinstein, mas que também está colocando a perder carreiras de nomes como o ator Kevin Spacey, o produtor Brett Ratner, o diretor e comediante Louis CK, entre outras pessoas reveladas em uma base constante nas últimas semanas. Todos eles têm pelo menos uma coisa em comum: até muito pouco tempo atrás, eles se consideravam intocáveis.

Por que dizer que este contexto era o único que poderia derrubar um nome gigante na indústria dos quadrinhos, como era Berganza? Principalmente porque não era segredo para ninguém. Mesmo aqui no Brasil, recebíamos indícios sólidos de que Berganza, coincidentemente o primeiro entrevistado de porte internacional entrevistado pelo Terra Zero, possuía condutas no mínimo questionáveis com mulheres — o que se tornou ainda mais anacrônico quando seu núcleo editorial passou a comandar revistas como a da Mulher-Maravilha. Deslindamos este assunto no ano passado com muita propriedade, dando nome aos bois com a hashtag #CasoBerganza, quando as primeiras denúncias nominadas aconteceram, o que foi assunto de um ComicPod. Antes disso, sem nominá-lo, a escritora Alex de Campi jogou tudo no ventilador e nós informamos, tanto com uma matéria quanto debatendo o assunto em outro ComicPod, no qual eu reproduzi as sábias palavras do locutor esportivo Silvio Luiz: “Porteira que passa um boi, passa uma boiada”. E a boiada está passando.

Internacionalmente, o nome de Berganza conectado a assédio sexual é público há muitos anos, sendo revelado com relevância pelo site de rumores Bleeding Cool. Mas o fato é que a indústria não tomou qualquer atitude a respeito e, inclusive, o agora ex-editor chegou a ser promovido dentro da empresa, às custas do emprego de mulheres competentes do mercado, como Shelly Bond. Não é algo raro e, na verdade, é um padrão. Existe uma rede informal de proteção contra esses homens, tanto dentro das empresas que os contém como fora delas. Isso acontecia com o editor guatemalteco e, até bem pouco tempo atrás, era comum que essa rede atuasse em favor dos seus para uma verdadeira operação-abafa. Mas sabemos que, em escalas menores, redes assim construídas atuam em favor de homens em alguma posição de poder, em qualquer ramo de atuação de empresas, provavelmente em qualquer país ocidental.

Vivemos, neste momento, algo assim acontecendo em favor do jornalista brasileiro William Waack, acusado de prática de racismo após a revelação, na última semana, de um vídeo dos bastidores da cobertura das eleições do ano passado nos EUA: a Rede Globo, contratante de Waack, agiu rapidamente após a repercussão negativa nas mídias sociais e suspendeu o jornalista de suas atividades. Porém, apesar da clareza do vídeo, a rede de proteção começou a atuar pesadamente, com personalidades como Demétrio Magnoli, Gilmar Mendes e Silas Malafaia tentando abrandar e desapenar as palavras do jornalista global.

Do mesmo modo que a Globo, a DC decidiu suspender ontem Eddie Berganza de todas as suas atividades na editora e, como no caso brasileiro, estudar os próximos passos a serem dados. Porém, mediante novas acusações contra o editor e a pressão do público, a DC Entertainment deu o único passo lógico possível e divulgou (enquanto este editorial estava sendo produzido) nota oficial desligando Berganza dos seu quadros. A denúncia nominal contra Berganza, é importante lembrar, foi feita na última sexta-feira pelo portal BuzzFeed News, o mesmo que, duas semanas antes, divulgou a história do ator Anthony Rapp, hoje astro da série Star Trek: Discovery, que está demolindo a carreira do ator Kevin Spacey.

E daí?, você pode perguntar. Pois, afinal, qual é a importância de tudo isso?

Os fatos que estão sendo revelados nas últimas semanas, envolvendo figurões e a alta roda do entretenimento (e aqui considero o caso brasileiro parte da mesma equação), só estão sendo efetivos porque a primeira peça de um dominó centenário, o dos bastidores não muito limpos de Hollywood, caiu de maneira espetacular. Quem caiu em desgraça, merecidamente, foi um gigante. Quando gigantes não conseguem se proteger, quem está abaixo deles também está vulnerável. e, assim, novas peças desse dominó de maus feitos começam a cair, levando a novas denúncias, ao surgimento público de novas evidências e de novos segredos que estavam escondidos às claras e, claro, à punição por parte das empresas envolvidas com os escândalos. Pois o entretenimento é uma indústria trilionária e ninguém quer perder o seu quinhão.

Não sejamos, é claro, muito bobos em relação a esta autorregulação da indústria em nome dessa pretensa nova moralização. O fato é que estas mesmas empresas, até logo antes da queda de Harvey Weinstein, eram coniventes com o que acontecia. Basta ver o caso da promoção de Berganza na DC, há relativamente pouco tempo. Esta purgação atual também tem a missão de ser, ela mesma, uma operação-abafa, tentando conter incêndios que podem destruir, como uma fogueira de vaidades, talvez uma parcela da indústria. Basta relembrar que, na própria DC, em tempos mais impunes, o próprio editor emérito Julius Schwartz mantinha a fama de assediar mulheres regularmente — e não apenas ele, como este artigo de 2015 do site Comic Beat relembra.

A pressão pública por uma indústria do entretenimento menos tóxica e menos nociva, portanto, precisa continuar.

Em tempos de empoderamento feminino, de justiça social, da conquista cada vez maior de igualdade em meios completamente dominados pelo famoso padrão do homem-heterossexual-caucasiano-de-meia-idade, práticas criminosas, que ficavam escamoteadas pelo jugo de pessoas em uma posição impositiva de poder, precisam prosseguir e serem denunciadas. Falácias como “errar é humano”, “quem nunca errou atire a primeira pedra”, “ele não quis dizer aquilo”, “mas ele não faz aquilo em público” ou similares — utilizadas frequentemente por infratores para inverter as culpas em relação a suas vítimas ou por defensores desonestos intelectualmente — precisam ser hábil e rapidamente descartadas, para que a realidade prevaleça: crimes cometidos precisam ser punidos pela força da lei. Assédio sexual, racismo, pedofilia, não importa: são crimes e merecem punição exemplar.

É assim que se cumpre a Lei. É assim que se exerce a Justiça.

Delfin
Coordenador Editorial

  • Rodrigo Silva

    estreia na quarta feira

  • Guylherme Lobo

    Essa da Pedofilia foi um aceno pro Caetano Veloso?

  • Felipe Ribeiro Santa Fé

    Excelente artigo. Infelizmente, a indústria do entretenimento (e outras “indústrias” também) ainda tem um longo e tortuoso caminho para eliminar esse tipo de prática. Por outro lado, felizmente, já começamos a caminhar nessa direção. Digo “começamos” porque, conforme destacou o Delfin, a nós consumidores cabe a função de mostrar claramente que atitudes machistas, misóginas, homofóbicas, racistas etc. não podem e não serão mais toleradas.

  • Diony Mattos

    Muito bom artigo.