[#AllIn] Liga da Justiça de Brad Meltzer é a Liga definitiva?

Nota do redator: #AllIn é a hashtag de nosso conjunto de especiais para os especiais relacionados ao filme da Liga da Justiça! A frase foi usada em várias peças de marketing do longa e nada mais justo que também fazermos uso dela. Apesar de o filme já ter estreado, ainda temos muita coisa bacana por aqui – fiquem ligados!


Este é um artigo sobre amor. Polêmica. Amizade. O que é bom e ruim nos quadrinhos. O que a DC já nos deu. Que presentes, como leitores, recebemos. Este é um artigo sobre a Liga da Justiça. É um artigo sobre Brad Meltzer.

Brad Meltzer escreveu a Liga da Justiça por um ano inteiro entre 2006 e 2007, dois anos depois de ele chocar a indústria de super-heróis com a saga Crise de Identidade. Aliás, pode-se dizer que esta minissérie de sete edições que virou campeã de vendas e foi parar no topo do New York Times (o que não era uma novidade para o autor, romancista premiado e que já foi até apresentador de um programa de TV sobre conspirações e simbologia na história da humanidade) é um prólogo para o que ele fez na mensal da Liga.

Esta mensal, por sinal, foi reiniciada com ele; intitulada JLA desde os anos 1990, quando Grant Morrison a assumiu, ela passou a se chamar novamente Justice League of America, foi renumerada e teve ninguém menos que o brasileiro Ed Benes como desenhista principal. Não só na arte interna, mas nas capas também.

A Liga da Justiça de Brad Meltzer em arte de Ed Benes.
A Liga da Justiça de Brad Meltzer em arte de Ed Benes.

Apesar de todas essas histórias estarem esquecidas aqui (Crise de Identidade só foi relançada uma vez, em 2007, tornando-se um item raríssimo no mercado brasileiro e a Liga de Meltzer só saiu em revistas mensais que hoje estão perdidas em sebos), lá fora elas são muito celebradas e Meltzer é um autor muito querido pelos decenautas. Mas por quê? O que este celebrado escritor político fanático pela Era de Prata da DC, dono de um patrimônio de 20 milhões de dólares, fez de tão diferente para marcar seu nome para sempre no rol de mestres da Liga da Justiça?


Crise de Identidade

Muito pode ser dito sobre esta minissérie e certamente não o faremos aqui – ela merece textos e podcasts à parte para analisá-la. Ainda que sua natureza sombria mexa profundamente com os valores do leitor, o shock value do estupro de Sue Dibny pelo maléfico Dr. Luz não é gratuito como muitos imaginam. Na verdade, a história, que pode parecer misógina e horrível à primeira vista, é uma das críticas mais duras ao mercado de super-heróis já vistas até hoje, e Meltzer o faz de um jeito tão sutil (como a maioria de suas obras) que realmente é fácil entender o ódio daqueles que não concordam com essa visão.

Crise de Identidade, a história que mudou a DC nos anos 2000.
Crise de Identidade, a história que mudou a DC nos anos 2000.

Como premissa, Crise de Identidade conta a história da investigação sobre a morte de Sue Dibny, esposa de Ralph Dibny, o Homem Elástico. Com uma narrativa moderna, propositalmente difusa às vezes e bastante detalhada, a HQ aproveita-se de diversos buracos cronológicos no passado da DC para inserir uma série de segredos que levam os heróis a pararem de confiar em si mesmos enquanto investigam o crime. No meio disso, eles se lembram que o Dr. Luz estuprou Sue no passado, que Zatanna apagou sua mente para esquecer que foi um vilão deste tipo (e transformando no vilão galhofa que enfrentou a Liga e os Novos Titãs tantas vezes) e foi obrigada a apagar a mente do Batman também, que viu o que estava sendo feito com Luz e foi contra desde o início.

Durante toda a história, Meltzer questiona o papel do herói e do vilão nas HQs. A gente pode não perceber (ou não querer aceitar), mas, na maioria das vezes, eles são mais cinzas do que parecem. Ao capturar o espírito da Era de Prata com diversos vilões de quinta categoria e super-heróis esquecidos, o autor moderniza toda a DC em uma das histórias mais impressionantes já feitas. O resultado da investigação surpreende até o leitor mais esperto, mas, mais importante que isso, levanta um questionamento importantíssimo: que tipo de gente os vilões realmente são.

A terrível página do estupro de Sue Dibny em arte de Rags Morales.
A terrível página do estupro de Sue Dibny em arte de Rags Morales.

Vejo a história (e esta opinião é exclusiva deste redator) como uma amostra de quão horrível o homem vilão pode ser. Na verdade, Meltzer está mostrando, através da crueldade, como o homem, o inimigo, é da pior estirpe. É isso que o faz um vilão. Não a galhofa de assaltar um banco com luzes e ficar trocando bofetadas sorrindo com os heróis. Não há problema nenhum nisso, mas toda história tem mais de um lado. A abordagem de Meltzer mostra o lado mais verossímil possível. Pode ser controverso – e é –, mas é muito verdadeiro. A misoginia, os feitos horríveis e a surgem justamente daqueles que parecem os mais inocentes, os mais bobos. O Dr. Luz era assim. Vejam no que ele se tornou. Vejam o que ele fez com todos os heróis da DC.

O Rastro do Tornado

Mais de um ano depois do término da Crise de Identidade, em 2006, Meltzer fechou com a DC para escrever a revista mensal da Liga da Justiça. Aliás, ele seria responsável por dar vida à nova revista ao lado do brasileiro Ed Benes com histórias otimistas e completamente diferentes daquela pancada que foi sua Crise. Mas não começou assim.

Primeiramente, Meltzer lançou uma edição #0 do novo volume de Justice League of America, colocada no mercado no meio de 2006. Ela tinha diversos desenhistas diferentes, um para cada página, mostrando eventos pregressos e futuros da atual cronologia da DC, formada após os eventos de Crise Infinita. Cada evento/página teve arte de um desenhista em uma das reuniões mais impressionantes de artistas da DC em um único título. Meltzer viajou pelo início da Era de Prata da DC até o futuro dela com desenhistas que fizessem jus a determinados períodos. É uma edição de início impressionante, especialmente por mostrar a Trindade se reunindo pela primeira vez depois dos drásticos acontecimentos da última Crise.

A formação da Liga da Justiça de Brad Meltzer com arte de Ed Benes.
A formação da Liga da Justiça de Brad Meltzer com arte de Ed Benes.

Retomando conceitos clássicos da Era de Prata e os mantendo atualizados de um jeito crível para os modernos (cartão de convite para a formação da Liga com direito a diploma e a volta da Sala de Justiça e do Satélite), Meltzer trata a humanidade deles com tamanha primazia que você pode quase sentir o que está acontecendo com cada um deles. Você sente no coração o que Batman está sentindo; o que o Superman, com toda sua bondade está pensando; o que a Mulher-Maravilha, a “cola” do trio e o coração de todo o UDC quer expor para que as feridas sejam finalmente curadas e todos possam seguir adiante.

Esqueçam diálogos tarantinescos sobre coisas aleatórias que são divertidos e filosóficos (na medida do possível); Meltzer é 100% humano, deixa a polêmica de Crise de Identidade para trás e trata todos os personagens (homens, mulheres, negros, brancos, homossexuais etc) como o que são: humanos e com direitos iguais.

Em seguida, começa o arco Rastro do Tornado, uma expressão comumente usada lá nos EUA para ver o estrago que um tornado fez. Obviamente, a história refere-se ao Tornado Vermelho, um dos heróis que Batman, Superman e Mulher-Maravilha, novamente reunidos como no início, escolhem quem entra ou não na nova versão do time. Enquanto dois mistérios se desenrolam – o futuro do Tornado, que pela primeira vez tenta reencarnar num corpo humano, invés de robótico, com a ajuda do “Desafiador” (na verdade, o vilão Félix Fausto espiritualmente disfarçado) e criminosos meta-humanos entregando seus poderes a alguém misterioso temporariamente para entrarem em lugares que vistoriam superpoderosos –, o trio decide quem fica ou não na equipe elencando as maiores qualidades e defeitos de cada membro.

Início do arco Rastro do Tornado, de Meltzer e Benes. Arte de Michael Turner.
Início do arco Rastro do Tornado, de Meltzer e Benes. Arte de Michael Turner.

A parte dos meta-humanos fica a cargo de Jefferson Pierce, que ainda está se recusando a voltar a ser o Raio Negro. Envolvido com a político num passado recente, ele foi assistente da presidência de Lex Luthor para trabalhar como herói infiltrado no governo do vilão e ganhou muita confiança do submundo por isso. Enquanto isso, é revelado que quem quer o corpo do Tornado e por que, o que é uma das revelações mais geniais e criativas dadas para um vilão da Liga até hoje.

Um fato curioso é que a ameaça em si obriga um time a se formar, mas isso nem é o verdadeiro chamariz da história; o que mexe com o leitor é ver como Meltzer consegue arrumar pequenos espaços entre a narrativa principal para humanizar até os personagens mais improváveis. As cenas com a Vixen em busca do equilíbrio com a natureza após ter sido roubada de seu totem são incríveis, com balões de fala mostrando a intensidade do descontrole de alguém que depende daquilo para sobreviver. A queda dela como um pássaro a mais de 500 km/h é uma das cenas mais incríveis da história moderna da Liga e, felizmente, Ed Benes a traduziu para a arte com uma maestria impecável.

A batalha final em que todos lutam, não por suas vidas mas pela sobrevivência de um time formado de amizade, amor e confiança, é de uma emoção implacável. Meltzer dá um soco (no melhor sentido figurado possível) no leitor ao mostrar um embate entre heróis e vilões digno do que é verdadeiramente a Liga da Justiça. No sentido mitológico mesmo.

O Legado de um Gênio

Meltzer ainda fez mais um arco, a Saga do Relâmpago. Esta, porém, foi feita com Geoff Johns, já que foi um crossover entre as revistas reiniciadas da Liga e da Sociedade da Justiça. Johns estava no auge na época, não ficando pra trás de Meltzer em termos de caracterização e emoção nas histórias. Contudo, Johns tem alguns maneirismos que fazem parte de sua escrita desde o começo. Já que Meltzer é mais inventivo e surpreendente, criando as partes mais interessantes da saga que ajudou a reinventar a Legião dos Super-Heróis.

Mas isso, acreditem, por mais bacana que seja, não é o mais legal.

O mais legal é a formação que Meltzer montou para a sua Liga da Justiça. Ele evoluiu o Arsenal a Arqueiro Vermelho e colocou a Canário Negro na liderança do time, como a presença dos excelentes combatentes Raio Negro (finalmente assumindo quem é de verdade) e Vixen, em uma Liga mais diversificada, comandada por uma mulher e extremamente equilibrada em poder, inteligência, velocidade de reação e estratégia. Dá para dizer, sem medo, que Meltzer foi muito mais longe que Grant Morrison ou seus antecessores e sucessores, fazendo o que provavelmente foi a melhor formação da Liga de todos os tempos – pelo menos nos aspectos supracitados.

A nova Liga da Justiça de Brad Meltzer, finalmente definida.
A nova Liga da Justiça de Brad Meltzer, finalmente definida.

E pra fechar com chave de ouro, uma de suas últimas edições no título, um one-shot com o Arqueiro Vermelho e a Vixen presos num prédio e correndo risco de morrerem a qualquer momento (em uma história que desafia as leis da física e o limite do coração dos leitores) e desenhado por Gene Ha faturou um prêmio Eisner de Melhor Edição Única, dado a Meltzer na SDCC 2008 por ninguém menos que Samuel L. Jackson em pessoa.

Portanto, há muito a ser dito sobre a Liga da Justiça de Meltzer. Com apenas dois arcos e edições fechadas que somam somente 13 números, o autor mostrou diversas facetas da equipe com aventuras urbanas, espaciais e cósmicas envolvendo inter-relação entre personagens cheios de carisma, cenários diversificados e igualização de personagens de várias categorias em níveis críveis, humanos e suficientemente bem narrados para deixar o leitor grudado na página do quadrinho como se estivesse preso a uma poltrona de cinema assistindo a um dos melhores filmes de sua vida.

Ou seja, a Liga de Meltzer é a melhor de todas? Sob diversos aspectos, sim. Ele foi mais longe que a maioria dos autores em um espaço muito curto de edições, com uma narrativa muito sofisticada graças à sua experiência como romancista, roteirista e apresentador de TV. Muito além dos escritores de quadrinhos, mesmos os mais inventivos, Meltzer tem um estilo muito próprio e imersivo que funciona tanto para personagens singulares (vejam o Arqueiro Verde dele) como para times (Liga da Justiça e Buffy).

O fechamento da Liga da Justiça de Brad Meltzer com arte de Alex Ross.
O fechamento da Liga da Justiça de Brad Meltzer com arte de Alex Ross.

Infelizmente o material de Meltzer ficou perdido em revistas mensais no Brasil, mas, se você sabe ler em inglês, não perca a chance de adquirir encadernados importados desta fase. Vão mudar suas vidas!

  • Alan Michael Scott

    Concordo que seja o melhor Run da Liga (pelomenos dos que eu li) até hoje.
    A liga cômica é sensasional mas não é o que se espera da maior equipe de heróis de todos os tempos…
    A liga Waid/Morrison também foi um dos mais divertidos de se ler, mas, era muito “super” faltava o “homem”
    depois do Meltzer vieram Dwayne McDuffie e James Robinson tentando levar o título, mas, mega sagas (noite mais densa e dia mais claro) tornaram a leitura insuportável…
    depois vem os n52 e o Rebirth que são fracos pra caralho…

  • luiz fernando

    Até hoje acho que o Meltzer deveria ter ficado um pouco mais,tenho certeza que contriuiria muito para a equipe.

  • Marcelo Pereira

    Sinceramente, eu não diria isso. Coloco esta fase dentro das melhores da Liga, acredito que tenha sido a última até à desastrosa passagem de Dwayne McDufie ( muito mais por culpa do editorial do que dele ) até que a DC perdeu completamente a mão com o grupo. Pois é, a Liga já não passa por uma grande fase há mais de uma década. Acredito que muitas pessoas achem que o run de Grant Morrison é tão celebrado pelo fato de ter sido feito por ele, mas aí colocamos o tempo, o trabalho acima da média enquanto toda a industria naufragava com um monte de lixos noventistas e sobretudo pela grandiosidade das histórias. Com pouco mais de um ano Mark Waid também deixou um saldo memorável. Gosto da fase de Joe Kelly que é muito pouco lembrada mas que também teve arcos muito bons , sem falar da edição número 100 que é sensacional e, claro, o cara que colocou John Stewart na Liga das HQs pela primeira vez. Brad Meltzer tem mesmo uma narrativa saborosa e sofisticada, engrandeceu e resgatou o legado da Era de Prata com a Liga, mas pessoalmente eu não me senti tão conectado, eu queria ter visto mais dele, queria que a Panini tivesse editado este material melhor, queria que Ed Benes não tivesse desenhado.

    • Lucas Rennó

      Ed Benes não encaixou MESMO!.

  • eu cretino

    Só crise de identidade e olhe lá.
    O que salvava as histórias dele era os desenhos do Ed Benes mito.
    Quem reinventou a legião dos super heróis foi o Mark Waid. O Johns só trouxe de volta a velha legião dos super heróis do Giffen/ Levitz atualizada.
    Liga da justiça do Morrison nem se compara com a do Waid. Ela foi mil melhor. A liga da justiça do Waid foi uma coisa xoxa e sem graça.
    A liga do Dwayne Mcduffy foi muito boa (principalmente o Crossover millestone) e com o Ed Benes arrebentando nos desenhos.

  • eu cretino

    CAMPANHA:
    Zack Snyder nos X-Men da Fox. Quem apoia????

  • Lucas Rennó

    Nem de longe. Várioas runs melhores. Mas muito mesmo. As histórias eram burocráticas, apesar de sequências bem emocionantes. Crise de identidade foi foda, mas a saga do Tornado, o desenho do Benes não encaixou bem, nao ficou tão épico quanto deveria. A luta final parece ser saída de dentro de um quarto. Busiek fez melhor, esqueci o nome do autor, mas o que fez a sequencia que terminou com a liga lutando contra o Ajax, e o homem borracha aparecendo pra lutar contra ele no final, foi melhor, Morrison foi melhor, a liga cômica foi melhor, e a melhor história tando da LJA (quando dos Vingadores) ainda foi a LJAxVingadores. Busiek acertou a mão em cheio.

    • Marcelo Pereira

      O autor desse arco com o Ajax foi o Joe Kelly, que citei. A saga do Incandescente, que é sensacional. Não sei como ninguém mais fala disso. Uma pena.