[#AllIn] Reanalisando: por que a Liga da Justiça de Dwayne McDuffie PRECISA ser lida!

A galera que nos acompanha sabe o quanto gostamos do legado que Dwayne McDuffie deixou neste planeta, quando faleceu em 2011. Podem até existir aqueles leitores que nos veem como puxa-sacos do cara, mas a verdade é que ele quebrou tabus e extrapolou sua criatividade da melhor forma possível por onde passou. Em fevereiro deste ano, celebramos sua vida para, meses depois, noticiarmos que sua maior criação, o Universo Milestone, vai voltar pra valer em 2018 com diversas pessoas que trabalharam com ele na época e alguns novos talentos.

Isso nos levou a procurar algumas coisas que tínhamos guardadas aqui, publicadas há muito tempo sobre ele e, com a chegada do filme da Liga da Justiça nesta quarta-feira em todo o território brasileiro (e alguns internacionais), não podemos deixar de reeditar um dos textos mais importantes dos quase dez anos de Terra Zero: nossa dissertação sobre por que a Liga escrita por Dwayne McDuffie na segunda metade dos anos 2000 PRECISA ser lida. Principalmente por aqueles que a leram uma única vez e ficaram com uma péssima impressão deste prolífico e genial autor.

Capa de Justice League of America #13 por Ian Churchill, Norm Rapmund e Alex Sinclair.
Capa de Justice League of America #13 por Ian Churchill, Norm Rapmund e Alex Sinclair.

Isso significa que McDuffie, um produtor, roteirista e quadrinista responsável pela criação do Universo Milestone e de diversas animações que amamos, como Liga da Justiça Sem Limites e algumas adaptações para longa-metragens animados de histórias da DC até sua morte, nunca errou? De forma alguma, mas houve um esforço por parte da DC de deliberadamente boicotar o que o homem tinha planejado para a revista mensal da equipe. Foram os meses mais tensos da vida de McDuffie como criador e ele revelou tudo em fóruns e blogs sem papas na língua.

Começamos nossa retrospectiva da Liga da Justiça dele, pouco depois de seu encerramento no Brasil. A fase dele somou um total de 19 edições mensais além do especial de casamento de Canário Negro e Arqueiro Verde. Dentre os artistas que trabalharam com ele estiveram, principalmente, o brasileiro Ed Benes, Joe Benitez, Rags Morales e Shane Davis.

A última aparição pública de Dwayne McDuffie na premiere de Grandes Astros: Superman.
A última aparição pública de Dwayne McDuffie na première de Grandes Astros: Superman.

[Não deixem de ler a homenagem que prestamos a ele em fevereiro deste ano]

Os fãs do mundo todo torceram o nariz para o que ele fez, até apontando seu trabalho como um dos piores na história da Liga da Justiça da América em muitos anos. No entanto, foram poucos os que pesquisaram para saber as rédeas nas quais ele foi obrigado a trabalhar, acabando totalmente com suas ideias e fazendo-lhe escrever quase todos os arcos com muita amargura, negação e falta de ferramentas minimamente necessárias. Quem produz sem condições de trabalho?

Antes de seguirmos com isso, vamos deixar algumas coisas bem claras sobre o homem: Dwayne McDuffie trabalhou com quadrinhos e animação a vida toda, roteirizando, produzindo e até dirigindo. Seu amor pelos personagens DC só não era maior que o amor pela sua esposa, Charlotte, que hoje cuida de suas criações. Um de seus diferenciais dentro da indústria, fora o fato de sempre se esforçar para quebrar tabus e mostrar que a representatividade e a diversidade no mercado eram cruciais para sua sobrevivência e igualdade perante os leitores, era entender o coração de cada personagem com o qual trabalhava.

Tendo essa habilidade, McDuffie não soube apenas escrever alguns dos maiores medalhões da Marvel e da DC; ele também soube dar vida às suas próprias criações, com um destaque imenso para o Universo Milestone (um universo paralelo ao da DC em que os principais personagens eram minorias, representando conflitos modernos e levantando questões sociais sérias para o mundo real), compostas de elementos sociopoliticamente relevantes até hoje. Praticamente inédito no Brasil, este material teve uma repercussão tão pequena por aqui que o nome de McDuffie geralmente é associado à sua fase da Liga, muito aquém do que se esperava, o que é muito triste. O que o homem fez de melhor pouca gente viu em nosso país.

Sem Limites – O Primeiro Arco

Foi aqui que tudo começou. Desde o começo, o autor teve problemas sérios para encaixar os personagens mandados pela editora em seus planejamentos. Este primeiro arco, Sem Limites, mostra a Liga da Injustiça recém-reformulada por Lex Luthor, Coringa e Mulher-Leopardo. Eles escolhem vilões para compartilharem de seus ataques aos heróis, assim como Batman, Superman e Mulher-Maravilha escolheram companheiros para a LJA no início da fase de Brad Meltzer. Isso foi logo depois da edição superespecial do “casamento” de Canário Negro e Arqueiro Verde, que tinha mostrado um McDuffie promissor e cheio de ideias inovadoras para seguir os passos do tão bem-sucedido Meltzer.

A Liga da Justiça Sem Limites de Dwayne McDuffie em arte de Ed Benes.
A Liga da Justiça Sem Limites de Dwayne McDuffie em arte de Ed Benes.

Mas o que aconteceu foi que, durante todo o desenvolvimento da história, apesar de bons diálogos e de caracterizações certeiras de personagens como o novo Nuclear (criado pelo próprio escritor), do Batman e alguns outros heróis como o Tornado Vermelho (que ganhou um revamp incrível pelas mãos de Meltzer poucos meses antes), todo o plano e o desenrolar dos conflitos são muito bobos, fazendo valer apenas as relações conturbadas de Arqueiro Vermelho e Moça-Gavião.

O arco acaba rapidamente em quatro partes, com um gancho para um subplot de Lex Luthor que nunca foi revelado – a ideia original de McDuffie foi enterrada pela DC! Foi muito bacana ver ele colocar mais personagens negros e de outras minorias na revista, mas a ideia falhou pela podada que ele recebeu de seus editores. E se a primeira impressão é a que fica, os fãs logo começaram a chiar pelo novo caminho da revista e Dwayne tratou de explicar o que aconteceu em seu fórum logo de cara:

Originalmente eu queria que a história tivesse oito edições, mas tive que cortar pela metade por causa de Salvation Run (Planeta dos Condenados, no Brasil, um tie-in da Contagem Regressiva que levou todos os vilões a um planeta isolado para se matarem), então inventei um plot secreto pra Lex Luthor, mas Geoff Johns também tinha planos pra ele, sendo que tive que inventar mais um gancho para um vilão e nem sei quando vou ter chance de retornar a ele. Prometo que tentarei explicar isso melhor nas próximas histórias.

Desnecessário dizer que o autor não teve chance de explicar o que houve. A DC bloqueou o uso dos grandes vilões na revista devido aos planos maiores para a época: Crise Final e os arcos de outros heróis maiores que levariam à Noite Mais Densa logo em seguida. Era o primeiro corte de recursos do autor. Em seguida, eles bloquearam o uso de Hal Jordan, graças aos planos de Johns, então John Stewart, foi colocado à força no lugar. Foi o segundo corte de recursos.

Capa de Salvation Run em versão encadernada.
Capa de Salvation Run em versão encadernada.

Universo Tangente – A Segunda Porrada da DC

Uma das maiores reclamações de Dwayne, o que realmente foi um problema sério nesta época, foi ter que adaptar suas histórias e personagens a eventos que aconteciam como um efeito dominó no Universo DC. Com a minissérie Superman’s Reign, do Universo Tangente, sendo publicada, mais uma vez ele foi obrigado a adaptar o que planejava, sendo obrigado a fazer um one-shot de poucas páginas que amarrava a Liga da Justiça com os personagens do Universo Tangente que vieram para nosso universo.

E, mesmo assim, McDuffie não teve chances de desenvolver melhor o contexto todo, pois, apesar disso, o Multiverso não poderia ser tocado por ele devido à Crise Final de Grant Morrison que, na época, já tinha em mente a semente da saga The Multiversity (e a definição de várias das 52 Terras plantada na cabeça). Este terceiro corte de recursos foi bem grande, deixando McDuffie muito abalado:

Eu queria usar versões diferentes de alguns heróis, queria até usar o Sindicato do Crime da América, mas não me permitiram. Não podia usar terras alternativas. (…) Ainda acho que o Multiverso está fora de cogitação pra mim, assim como viagem no tempo e outras áreas. Se algo mudar, podem ter certeza que vou fazer uma viagem pelas 52 Terras.

Capa da Liga da Justiça com o Universo Tangente por Joe Benitez, Victor Hamas e Pete Pantazis.
Capa da Liga da Justiça com o Universo Tangente por Joe Benitez, Victor Hamas e Pete Pantazis.

Dificuldades editoriais requerem novas abordagens

Envolvido com as animações da DC que fizeram muito sucesso principalmente no começo da década passada, quando a Liga da Justiça explodiu na Cartoon Network e se tornou um dos desenhos mais assistidos da época em diversos países, McDuffie resolveu tentar algo diferente nos quadrinhos. Ao ter a possibilidade de escrever um one-shot, uma edição com história fechada entre seus arcos, ele pensou em trazer às HQs a dinâmica e o clima de descompromisso do desenho para a revista.

Para este experimento, McDuffie e a DC escalaram dois personagens que estavam facilmente disponíveis à época (o Flash Wally West e a Mulher-Maravilha) e o desenhista Ethan Van Sciver, geralmente tido como uma garantia de vendas.

Para quem não sabe, EVS está na ativa desde os anos 1990, quando começou com sua independente Cyberfrog e tem uma legião razoável de fãs.

Capa da 20ª edição da Liga da Justiça em arte de Ethan Van Sciver e Alex Sinclair.
Capa da 20ª edição da Liga da Justiça em arte de Ethan Van Sciver e Alex Sinclair.

O que poderia ser um reencontro bacana de dois personagens que protagonizaram momentos únicos nos quadrinhos e no desenho, principalmente naqueles anos, foi por água abaixo com o mandate da DC informando que o Velocista Escarlate não poderia participar da Liga porque estava com problemas familiares (mostrados em sua revista mensal que, apesar de ter uma boa equipe em Tom Peyer e Freddie Williams II, não andava bem das pernas).

Portanto, qualquer possibilidade de trabalhar melhor os dois personagens ou reintegrar Wally definitivamente para brincar com sua participação na Liga foi enterrada nesta edição, que perdeu seu brilho pelo sentimento agridoce que deixou no final.

Chega a Crise Final

Quando a saga de Grant Morrison foi anunciada, o editor Dan DiDio logo quis deixar bem claro que seria uma história autocontida, com poucos tie-ins e que estes sairiam em formato de one-shots ou minisséries à parte, sendo que nenhuma mensal seria jogada aí para não fazer os fãs gastarem demais com uma história. Puro papo de editor que quer vender seu peixe de forma omissiva.

Para engano e complicação de McDuffie, e também dos leitores interessados em acompanhar a saga ou apenas as aventuras do grupo, a Liga da Justiça foi obrigada a ter um tie-in com a Crise Final em Justice League of America #21. E foi em cima da hora.

Arte de Carlos Pacheco.
Arte de Carlos Pacheco.

O autor foi forçado a mostrar Libra, um dos emissários de Darkseid na Crise, e Flama Humana, um vilão de quinta categoria que viu uma oportunidade, que seriam aproveitados na saga principal, num contexto próprio e que não fugisse de seus planos. Incrivelmente o escritor conseguiu fazer uma boa edição, mesmo com tantas travas impostas pela DC, e deu cabo de amarrar tudo em seu planejamento inicial. Foi um dos poucos momentos que ele conseguiu fazer o que queria, mesmo com imposições editoriais. Mesmo assim, ele não deixou de ser sincero:

A Crise Final e outros eventos me deixaram sem acesso a qualquer dos personagens que eu realmente queria para a equipe. Não podia fazer todo mundo simplesmente desaparecer no meio do arco, então o fiz na frente das câmeras. Perder os grandões foi um problema pra mim, então decidi fazer disso um problema para a Canário Negro também.

Foi uma boa saída.

A volta do Tornado Vermelho (Ressurreição)

Esta nova mensal da Liga da Justiça começou com uma história focada no Tornado Vermelho. Todavia, McDuffie queria que ele saísse de sua equipe, mas não de supetão. A ideia era que uma saída fosse desenvolvida aos poucos após ele ter resoluções mais acertadas para seu destino, o que não aconteceu.

O autor teve que ajeitar uma saída rápida porque a editora planejava uma minissérie fechada do herói robótico e pra isso ele teria que ser arrancado da LJA. Esta minissérie foi publicada na mesma época, com roteiro de Kevin Vanhook e arte dos brasileiros José Luis e JP Mayer. Ela permanece inédita no Brasil.

Com o arco Ressurreição, o escritor lidou novamente com o vilão Amazo como contraparte do herói, arrumou um corpo novo pra ele e o fez pedir sua namorada em casamento para então dar cabo do Professor Ivo e sair de cena rapidamente.

Apesar de ter um desenvolvimento melhor que histórias anteriores, talvez porque Dwayne já tinha imaginado coisas para o Tornado que sairiam mais tarde, fica claro que as resoluções são corridas e o excesso de batalhas e diálogos desnecessários durante as cenas de ação incomodam um pouco.

Capa de Justice League of America #25 por Ed Benes e Brian Miller.
Capa de Justice League of America #25 por Ed Benes e Brian Miller.

Mais uma vez o autor compartilhou um pouco do que acontecia por trás das cortinas nessa época.

Na verdade, minha intenção era manter o Tornado Vermelho como o computador da Liga por um bom tempo, tanto para deixá-lo fora do palco um pouco como também para poder explorar melhor os caminhos dele no futuro, mas a DC precisava dele com um corpo imediatamente para uma minissérie. O que eu tinha imaginado como um subplot de Amazo acabou virando história principal, infelizmente. (…)

E os problemas não acabaram aí. A composição do grupo ficava cada vez mais complicada conforme as necessidades da editora que, todas as vezes, sobrepunham a revista que carregava seus principais heróis. A presença de John Stewart não era obrigatória, mas o escritor gostaria de trabalhar com ele da mesma forma que o fez nas animações seriadas da Liga da Justiça. Entretanto, os fãs forçaram a decisão de Hal Jordan voltar e, sobre isso, Dwayne afirmou:

Me deixaram tirar um personagem que eu escolhi, mas algumas circunstâncias parecem me forçar a colocá-lo de volta. Todos os outros são mandados pelos editores.

Anansi (segunda parte de Ressureição)

O arco não acaba aí. Com mais três partes o escritor tem, finalmente, uma chance de fazer algo seu e aproveita a chance para compartilhar com os fãs uma metáfora para sua situação terrível dentro da editora. Anansi, o deus da trapaça, é utilizado como recurso narrativo para afugentar e confundir as vidas de Buddy Baker (Homem-Animal) e Mari McCabe (Víxen). Como se sabe, a Víxen (que hoje faz muito sucesso na TV com sua própria animação no CW Seed e na série DC’s Legends of Tomorrow), por muitos meses, foi capaz de sugar poderes não mais de animais através de seu Totem Tantu, mas também de heróis que estavam próximos dela.

Sempre atento, o Superman já sabia disso e logo outros heróis também compartilharam do conhecimento, principalmente a líder Canário Negro (uma personagem que McDuffie gostava bastante, diga-se de passagem, mas viria a perder também mais tarde), que preferiu tirar Mari da equipe e ajudá-la a descobrir a origem de alterações tão drásticas em seus poderes.

Capa de Justice League of America #26 por Ed Benes e Brian Miller.
Capa de Justice League of America #26 por Ed Benes e Brian Miller.

As coisas ficaram claras para os heróis quando chegam à casa de Buddy que, diga-se de passagem, estava completamente subutilizado pela DC na época. Ele está fazendo churrasco (pois é!) e, no meio do diálogo com os presentes, ele come um pedaço de frango. O vegetariano herói realmente se dá conta das manipulações e Víxen acaba puxada para dentro do Totem Tantu logo em seguida. Ao vermos o herói encontrar o deus da trapaça, logo começamos a entender as mensagem que o escritor nos quer passar.

Sim, Anansi é pra ser eu mesmo e o arco é sobre minha falta de controle sobre as histórias da minha revista. Ironicamente, tanto Anansi como Víxen, além da história do Tornado Vermelho, seriam subplots bem menores em um arco muito maior envolvendo plano de Luthor do primeiro arco, Starro e Despero. Não pude concluir nada pois havia planos para todo mundo.

Mesmo sem querer, McDuffie também nos faz enxergar que Anansi pode ser a DC e não ele próprio, já que o deus da trapaça tece suas histórias sem planejamento enquanto manipula suas vítimas (leitores e profissionais do meio). Não podendo utilizar nem o Multiverso, o escritor encontra uma saída criando um mundo paralelo dentro do próprio reino de Anansi com visões bem curiosas dos heróis grandes da editora. Ele gostaria de poder usar vários dos grandes em versões originais, mas a DC não deixou. Nenhuma surpresa aí:

No momento, nenhum dos sete grandes está disponível pra mim. Além disso, os Gaviões, o Arqueiro Verde, os Eléktrons, o Capitão Marvel e quase todos os outros que enxergo como grandes personagens me foram proibidos.

Eventualmente Víxen consegue restaurar a normalidade de seus poderes com os testes de Anansi.

Universo Milestone e a Chance de Ouro

Foi durante o arco do Universo Milestone que a coisa ficou mais feia, apesar de ela ser a chance de ouro do autor. Dwayne criou todo este universo e seus personagens, escrevendo a maioria das séries de início até meados nos anos 1990. Com a aquisição completa do selo pela DC naquele ano o autor teria chance de trabalhar com seus heróis dentro do próprio UDC, ao lado da Liga da Justiça. Entretanto, a formação da principal equipe da editora nunca esteve tanto em frangalhos.

Liga da Justiça e Universo Milestone se encontram em arte de Ed Benes.
Liga da Justiça e Universo Milestone se encontram em arte de Ed Benes.

O autor ainda brinca dizendo, através de um personagem na história, que aquela formação era pior que a Liga de Detroit. Em seu fórum ele fala:

Enquanto espero as coisas nos outros títulos ficarem mais calmas, tento trabalhar com aquela coisa clássico do Capitão América e heróis menores formando um quarteto (Nota: referência à época em que o Capitão liderou Mercúrio, Feiticeira Escarlate e Gavião Arqueiro como os Vingadores). Mas é claro, como as coisas são o que são, meu “Capitão América” não estava disponível também.

Àquela altura do campeonato, McDuffie estava perdido. Mesmo tendo suas criações em suas mãos ele tinha que amarrar tudo aos eventos de Crise Final, Batman – Descanse em Paz, Novo Krypton, a volta de Barry Allen, problemas em Themyscira, planos para A Noite Mais Densa, crise entre Arqueiro e Canário e muitas outras coisas. O Raio Negro estava fora da equipe também porque a DC decidiu revitalizar os Renegados com o Batman, o que fez o herói partir pra lá.

Sobraram-lhe Víxen, Zatanna, John Stewart e Dra. Luz, que retornou justamente no começo deste arco, quando um pacto com o Gabinete das Sombras trouxe seus poderes de volta com força total. Superman até estava ali, mas como um coadjuvante muito distante. Pelo menos lhe sobraria a Canário como líder, certo? Errado. Foi pedido que ela saísse também.

Capa de Justice League of America #29 por Ed Benes.
Capa de Justice League of America #29 por Ed Benes.

Com uma formação capenga e sem muitas possibilidades de usar suas próprias criações, McDuffie terminou sua passagem pela Liga da Justiça de forma amarga, mesmo esforçando-se ao máximo para que a história se desenrolasse bem, o que de fato acontece. Apesar de alguns defeitos narrativos, tivemos uma história que apresenta bem os heróis da Milestone e sua força. Identidades como a do Ícone e do Hardware são muito interessantes e merecem uma boa olhada em seus próprios materiais de anos atrás.

Se fosse por mim, ,a Liga da Justiça seria unicamente formada por seis dos grandes membros e com um sétimo rotativo que daria dimensões diferentes para cada histórias e balancearia algumas personalidades. (…) Sim, eu fico frustrado, mas faz parte do serviço. (…) LJA é um gibi que faz parte de algo muito maior dentro do Universo DC. Poderíamos fazer algo mais auto-contido, é o mais certo, eu acho, mas a verdade é que a cada três ou quatro meses tenho que lidar com algum evento e abrir mão dos meus planos por causa de crossovers e coisas assim. Em meu próximo arco de seis edições tenho que lidar com três eventos (quatro se contar Milestone).

O Adeus

Estas afirmações do autor, bem como várias outras, um dia acabaram coletadas de uma vez pelo ex-colunista do CBR Rich Johnston em sua clássica coluna Lying in the Gutters. Isso foi muito tempo antes de o Bleeding Cool ser fundado. Com esta coletânea e com a recém confirmação do autor para o blog Robot6 que não gostava mais de escrever a Liga da Justiça já fazia tempo, a fúria editorial foi curta e grossa: McDuffie estava despedido do cargo e Len Wein entraria em seu lugar por três edições.

No fim, foi um alívio para o escritor que pôde, mais uma vez, se concentrar em projetos autorais, animações de muito sucesso – como a franquia Ben10, além da animação Liga da Justiça: Crise nas Duas Terras e muitas outras coisas bacanas. Para os fãs fica o gosto amargo da tomada curta de Wein e da fase de James Robinson que, honestamente, foi ainda pior que a de Dwayne. E no caso dela, nem tudo foi culpa da editora, mas esse papo fica para outra hora.

Capa de Justice League of America #31 por Ed Benes, quando Dwayne McDuffie estava quase se despedindo do título.
Capa de Justice League of America #31 por Ed Benes, quando Dwayne McDuffie estava quase se despedindo do título.

A lição aqui é que, apesar de todos os problemas, McDuffie se esforçou para entregar o melhor que pôde aos fãs. É um trabalho hercúleo pensar no seu público quando a correnteza te força a ir para o lado contrário, mas ele tentou seu melhor. Portanto, mesmo que suas histórias tenham ficado aquém do esperado, sua passagem de mais ou menos um ano meio pela Liga da Justiça serve como documento de como uma editora pode sabotar a criatividade de um artista, seja lá qual for o papel dele na publicação de uma revista. A Liga de McDuffie precisa ser lida e estudada para que o erro não se repita. Afinal, quando os fãs percebem e protestam, as coisas mudam.

No fim das contas, o legado de McDuffie está vivo e a DC também está fazendo sua parte ao retornar com a Milestone. Além disso, após uma longa batalha para levantar fundos, a esposa do falecido autor conseguiu criar a premiação Dwayne McDuffie Award para a Diversidade nos Quadrinhos, dada desde 2015 na Long Beach Comic Expo. Em seguida, veio o Dwayne McDuffie Award para Quadrinhos Infantis. Este prêmio é entregue anualmente na Ann Arbor Comic Arts Festival, em Michigan. O corpo de McDuffie pode estar enterrado desde 2011, mas seu espírito e seu legado permanecerão entre todos nós para sempre.

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