[#AllIn] Quando Howard Chaykin escreveu (uma) Liga da Justiça

Nota da Redação: #AllIn é a hashtag de nosso conjunto de especiais para os especiais relacionados ao filme da Liga da Justiça! A frase foi usada em várias peças de marketing do longa e nada mais justo que também fazermos uso dela. Apesar de o filme já ter estreado, ainda temos muita coisa bacana por aqui — fiquem ligados!


Nunca há polêmicas suficientes para Howard Chaykin. Seu trabalho com a Liga da Justiça é uma daquelas coisas que está enterrada em algum canto da imensa bibliografia do quadrinista, mas que sempre tem alguém que a encontra e fica curioso para saber do que se trata. Apesar de explorar melhor a mídia como um todo quando trabalha em projetos autorais, Chaykin nunca deixou de participar de propostas super-heroicas que lhe fizessem sentido.

Foi assim com JLA: Sociedade Secreta, uma minissérie de duas edições com formato de prestígio (50 páginas, capa cartonada e papel especial) que saiu lá fora no ano 2000 e, aqui no Brasil, pela Mythos, em 2003, em um formato um pouco mais simples. Utilizando-se de uma de suas características mais conhecidas, Chaykin chacoalha o Universo DC ao criar uma Sociedade de Super-Heróis cujo conceito de heroísmo é no mínimo questionável; o de sociedade é claramente forçado. Há problemas sérios entre eles, há assuntos não resolvidos e há métodos de alguns que causam calafrios nos outros.

Capa de LJA: Sociedade Secreta por Mike McKone e Jimmy Palmiotti.
Capa de LJA: Sociedade Secreta por Mike McKone e Jimmy Palmiotti.

Na história, que desconstrói bastante o mito da Liga da Justiça, Chaykin, auxiliado pelo roteirista David Tischman, cria uma equipe formada por alguns dos membros mais clássicos do time, mas que estão em versão praticamente irreconhecíveis graças à abordagem autoral e diferenciada que ele oferece. Superman, Flash (Wally), Lanterna Verde (Kyle), Mulher-Maravilha, Metamorfo, Eléktron e Homem-Borracha são os membros do time. Bruce Wayne é um agente do FBI investigando desaparecimento de criminosos, o mesmo que Lois Lane, intrépida repórter, está fazendo em seu jornal. Ela e Perry White não trabalham para o Planeta Diário, que pertence a Clark Kent, para quem Jimmy Olsen, um importante repórter, trabalha.

Os outros personagens não são tão aprofundados quanto esses supracitados, mas isso é proposital. Chaykin brinca com seu lado politizado, colocando alguma nuance política ao estabelecer como é a sociedade daquele mundo; nós acompanhamos a formação desta equipe e o surgimento do Superman desde a década de 1940 até chegarmos em tempos mais atuais. Alguns eventos sociais do mundo real tiveram impacto no time, mas ele é invisível e esta é a grande diferença da proposta de Chaykin para qualquer outra versão da Liga da Justiça, seja na cronologia tradicional ou, como neste caso, um Túnel do Tempo: eles são invisíveis.

Todos os membros usam um aparato para que suas ações não sejam descobertas pela população, pela polícia ou qualquer outro tipo de poder. Este gadget foi criado pelo Batman, que faleceu, e era Thomas Wayne. Bruce nunca soube que seu pai fazia isso. De qualquer forma, as ações da equipe às vezes são movidas por altruísmo, às vezes por puro interesse – no caso de Wally e Kyle, eles fazem coisas “por fora” cobrando os serviços de seus intermediários.

Definitivamente não ficaram claros os motivos dele Chaykin ter escolhido Wally e Kyle para fazerem serviços deste tipo. É óbvio que o Superman não o faria, mas Diana, por exemplo, não era totalmente contra a ideia pois, segundo ela, as Amazonas cortaram os fundos da equipe — o que demonstra como funcionava o esquema destes “super-heróis”. De qualquer forma, ambos são personagens de legado, e talvez isso demonstre, implicitamente, as preferências de Chaykin para certos personagens da DC. Um fato curioso, aliás, é que Barry Allen está presente; ele é pai do jovem velocista Bart Allen, que a Sociedade Secreta quer para seu time de todo jeito. Hal Jordan, porém, não aparece na história.

Bart, Bruce e Lois formam o trio que resolve a história toda, cada um à sua forma. Quando Bruce descobre o passado de seu pai, algumas (nem todas) das reviravoltas da HQ, que na verdade entrega uma história bem simples, ficam óbvias, mas não estragam a diversão. Chaykin já era um autor experiente quando fez este trabalho e sabia muito bem com o que estava lidando. Se ele obteve sucesso com isso, já é outra história. Sem relançamento há um bom tempo, a história está fora de catálogo há cerca de 15 anos nos dois países. Mas se você é um fã do trabalho de Chaykin ou está empolgado em consumir material diferenciado da Liga agora que o filme saiu, essa é uma boa pedida.

A escolha de comentar uma história da Liga feita por Chaykin não foi gratuita. Na verdade, optamos por falar desta minissérie por muito mais do que ela ser interessante ou feita por um grande quadrinista: Chaykin está enfrentando um de seus momentos profissionais mais complicados com a autoral The Divided States of Hysterya, como comentamos nesta artigo analítico (acompanhado de uma grande entrevista exclusiva que fizemos com ele), o autor está fazendo críticas duríssimas à realidade dos EUA e aos republicanos, mas nem tudo está saindo como ele previa.

A história da Liga que ele escreveu foi de um tempo em que ele estava um pouco mais tranquilo, mas, retomando sua mais recente HQ, não pra negar: vivemos tempos sombrios. E ele previu isso em uma história esquecida da Liga da Justiça.


Sinopse/Ficha Técnica:
Títulos: LJA: Sociedade Secreta – Edições 1 & 2

Roteiro: Howard Chaykin, David Tischman
Desenho: Mike McKone
Arte-Final: Jimmy Palmiotti
Cores: Dave Stewart
Páginas: 52 cada
Publicação: Mythos (Maio e Junho de 2003)
Idioma: Português
Preço de Capa: R$ 5,90 (cada)

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