[Review] A Morte de Stálin traz o espírito da mentira soviética

Vivemos em tempos difíceis, tempos em que as pessoas sentem-se compelidas a tomar partido de qualquer coisa. Não se pode mais não ter opinião sobre alguma coisa. Do ponto de vista evolutivo, é bom que a humanidade esteja engajada em discutir mais sobre assuntos polêmicos; porém, o que se vê é mais intolerância em relação ao outro, a quem está do lado pensando diferente. Seu vizinho, automaticamente, é seu inimigo.

Tendo dito isso, ler A Morte De Stálin – Uma História Soviética Real, a obra francesa criada por Fabien Nury e Thierry Robin, foi uma experiência e tanto. Não importan que o quadrinho seja uma dramatização; não importa que estes eventos tenham acontecido no meio do século passado; o que importa é que, ao pegar o quadrinho no ônibus para ler um novo capítulo, eram poucos os que não olhavam por alguns segundos para o que estava escrito na capa.

Capa de A Morte de Stálin por Therry Robin.
Capa de A Morte de Stálin por Therry Robin.

O que quero dizer é que nomes e palavras como Stálin, Lênin, comunismo, soviético e coisas assim são vistos com ainda mais negatividade que antes, dados os tempos em que vivemos. Estou dizendo que me senti ameaçado? Muito pelo contrário. Digo que há desconfiança e curiosidade por parte de todos, mas na era da ignorância em que estamos, são poucos os que realmente buscam fatos para embasarem suas opiniões.

E isso está intrinsecamente relacionado com o quadrinho, que mostra os últimos momentos de Josef Vissariónovitch Stalin, o secretário-geral do Partido Comunista da União Soviética e do Comitê Central, de 1922 até a sua morte em 1953.

Nury e Robin dramatizaram (e satirizaram) diversos eventos seguidos do derrame que Stálin teve, mas o espírito soviético da época está ali. Além de extremamente bem narrada e desenhada, a HQ transfere o espírito da época para o leitor, o situando em tempos socialmente muito diferentes de hoje, mas politicamente semelhantes – principalmente no Brasil.

Páginas de A Morte de Stálin por Therry Robin.
Páginas de A Morte de Stálin por Thierry Robin.

O jogo soviético de mentir deliberadamente para o público e impedir reuniões populares em busca da verdade – ou até de ver o corpo de Stálin antes de ser enterrado – é de uma sujeira sem tamanho. Associados do secretário-geral, como o comandante do Grande Expurgo, Lavrentiy Pavlovich Beria, Nikita Khrushchov (futuro secretário-geral) e muitos outros instauraram alianças e brigaram pelo poder com diplomacia ou agressividade enquanto vendiam ao público a imagem de que tudo estava bem na pátria mãe, de que o legado do pai da nação teria sequência.

Apesar da qualidade técnica da HQ e de sua história serem impecáveis, a história real por trás dela é realmente triste e verdadeira. É o que vemos hoje por aqui. Negações descaradas de crimes cometidos por todos os lados e alianças que fazem aqueles que estão no poder escaparem da lei instituída. E não se enganem – podemos estar falando de soviéticos aqui, do lado esquerdo do espectro político, mas no Brasil, vários tons deste espectro estão no mesmo barco, cada um com sua pilha de crimes acumulados.

Página de A Morte de Stálin por Therry Robin.
Página de A Morte de Stálin por Thierry Robin.

A morte de Stálin foi um evento histórico recontado com maestria em uma HQ que exala arte de verdade. E suas repercussões são tão atuais quanto a época em que o quadrinho saiu. Infelizmente, deve permanecer assim por um bom tempo.


Sinopse/Ficha Técnica:
Título: A Morte de Stálin
Roteiro: Fabien Nury
Arte: Thierry Robin

Páginas: 152
Publicação: Três Estrelas (Março de 2015)
Idioma: Português
Preço de Capa: R$ 49,90

Certa noite, o diretor da Rádio do Povo, em Moscou, recebe um telefonema após a transmissão ao vivo do Concerto para piano no 23, de Mozart. É Josef Stálin, o homem mais poderoso da União Soviética e um dos líderes mais temidos do mundo. Stálin pede uma gravação da peça. Nada, porém, foi registrado. Será preciso repetir o concerto e manter o nível da interpretação anterior. O diretor entra em pânico: qualquer erro pode colocar em risco a cabeça de todos. Posteriormente, enquanto escuta a gravação, Stálin sofre um derrame, que o levará à morte, em março de 1953. Logo começam as conspirações para sucedê-lo, encabeçadas por Lavrenti Béria e Nikita Kruschev. Era o começo do fim de uma das mais terríveis experiências políticas do século xx. Premiada na França como a melhor hq no festival Encontros com a História, A morte de Stálin recria em tom de sátira expressionista o clima de conspiração, paranoia e medo da urss stalinista.

  • Marcelo Pereira

    Pois é, o totalitarismo é uma mazela do poder e não desta ou daquela tendência ou ideologia. Pena que as pessoas lembrem muito do Kim Jong Un ou Stalin e esqueçam dos Pinochets, dos Fulgêncios Batistas, dos IdiAmin Dadas… merecem graphic Novels também.

  • Moroni Machado

    Estranho. Aqui em Salvador, eu li o “Capital” e “Ideias conservadoras” no ônibus e ninguém ficou nem ai. Parece que em São Paulo as coisas estão extremas mesmo.

  • HQ interessante e hoje no Brasil a intolerância reina.
    Falo aqui de um tema, digamos, que se liga em parte ao da hq, a questão de certas ideologias.
    Bem, em breve a intolerância irá alcançar os quadrinhos, ojerizas como feliciano, da direita fundamentalista cristã, já estão em guarda para aprovar um projeto de lei que proíbe expressões artísticas caso estas expressões utilizem elementos cristãos de forma duvidosa ou insultosa, na visão dessa lei, claro. Obras como Preacher ou Sandman poderão sofrer com censura. É o que os nerds de direita e seu apoio aos mitos de internet estão plantando. E antes que venham afirmar que na URSS havia censura e era de esquerda, eu estou no Brasil do século XXI. E nesse anos de PT nunca houve tentativa de calar a arte ou de censura. Agora com o golpe coxinha de 2016 vozes grotescas querem sim proibir a livre expressão do homem.
    Sim, eu sou à favor de qualquer manifestação artística, desde mulheres introduzindo crucifixo na vagina até homens nus sendo tocados por crianças.
    Eu acredito que a religião não tem o direito de impor sua visão de mundo em uma sociedade onde a maioria sequer ler a bíblia ou frequenta igreja, além do que, se mesmo na bíblia o deus dos cristãos fala que eles não são deste mundo, então não queiram impor suas crenças neste mundo!
    Cada um vive como quiser.
    O cristão imponham suas crenças e seus modos de vida na igreja e na sua casa, para si e para seus iguais.
    Mas quem não segue ideologia religiosa deve ter o direito de se expressar no mundo em que vive e conforme seu deus em particular, ou falta de qualquer deus que seja.
    O ruim dos cristianismo e de outras religiões monoteístas fundamentalistas abraâmicas, como o islamismo ou judaísmo, é essa vontade de fazer as pessoas agirem conforme suas crenças na bíblia ou no corão! Isso não vale.
    O único livro que vale para todos em uma democracia é a Constituição, mas estes grupos não entendem isso e colocam a bíblia maior do que a Constituição no mundo.