[Review] O novo voo de Sam Wilson em Falcon #1

“Existe uma coisa que eu tenho certeza… Eu estou sozinho neste mundo”. Talvez esta frase sintetize com bastante precisão a atual situação de Sam Wilson após os eventos finais de Secret Empire. Com a chegada da nova linha de quadrinhos da Marvel através da iniciativa Legacy e o retorno do Steve Rogers clássico ao manto de Capitão América, para alguns fãs, Wilson foi desprestigiado ao retornar para sua persona de Falcão. A missão do autor Rodney Barnes com o ilustrador Joshua Cassara nesta nova Falcon portanto, é tornar o personagem relevante dentro do universo Marvel novamente.

O tom da primeira edição de Falcon não chega a ser melancólico, mas vemos sim um Wilson introspectivo e, por vezes, amargo em seus (muitos) recordatórios. Sam agora se encontra na cidade de Chicago. Metaforicamente com os pés fincados no chão, o Falcão em seu título solo está bem longe de suas aventuras grandiosas com os Vingadores, por exemplo. Seu objetivo aqui é atacar problemas reais que afetam a parcela mais desprivilegiada da sociedade.

Neste primeiro arco, Wilson tenta conciliar uma guerra entre duas gangues da parte sul da cidade, que vêm matando inocentes e tornando o ambiente muito inseguro para toda a população. A intervenção do Falcão não é 100% na base da violência. Temos, sim, a dose de ação característica de um quadrinho de super-herói, mas surpreendentemente, Wilson tenta resolver o problema por vias do diálogo (com os próprios criminosos). Sam busca um meio termo através de uma sensibilização dos líderes das gangues, ao invés de uma solução mais beligerante tão comum em quadrinhos de heróis urbanos. O protagonista felizmente vem acompanhado do novo Patriota, Rayshaun Lucas, já desde os arcos finais de seu título anterior (Captain America: Sam Wilson) de Nick Spencer. A juventude e positividade de Lucas serve de contraste para as passagens com o taciturno Falcão. Os diálogos entre os dois personagens também guia narrativamente os passos da trama que se inicia aqui.

Rodney Barnes estabelece um tom bem claro para este título: o Falcão age sob seu próprio código, não tem vínculo algum com qualquer instituição e, aqui, olha para seus semelhantes e tenta ajudá-los, seja a população ou mesmo os criminosos. O Falcão é um herói consciente que enxerga os dois lados do problema. Isso torna o quadrinho bem relevante atualmente. O ritmo de leitura de Falcon, no entanto, torna-se um pouco cansativo e monótono em algumas partes, devido ao excesso de caixas de textos reflexivas. Decerto o personagem precisa ser apresentado nesta nova fase, mas os diálogos internos de Wilson, apesar de válidos, tornam o fluxo de leitura um pouco arrastado. Ao fim, temos um gancho que dá uma guinada na parte antagônica deste quadrinho. O inimigo definitivamente aqui é outro e será interessante ver como um personagem como o Falcão lidará com um adversário desta natureza.

A arte de Joshua Cassara com colorização de Rachelle Rosenberg deixa esta Falcon com uma atmosfera urbana latente. Cassara impõe uma iluminação rústica e bem áspera em suas páginas lembrando muitas vezes a passagem de Mark Texeira nos quadrinhos do Pantera Negra de Christopher Priest no início dos anos 2000. A fotografia, apesar de não ser inovadora, favorece a ação verticalizada característica de um quadrinho do Falcão, mas há um cuidado com a caracterização de elenco e cenários. Não temos em mãos o gibi mais bonito nas bancas atualmente, mas em momento algum a arte compromete ou desprestigia o protagonista do título ou qualquer outro personagem aqui mostrado.

A principal missão de Falcon em Legacy era tirar o ranço de retrocesso de status de Sam Wilson, após sua fase como Capitão América ter sido interrompida pelo editorial da Marvel. Nisso, tanto Barnes quanto o próprio Nick Spencer tiveram êxito. O leitor pode não concordar com a volta do Falcão, mas a resolução mostrada aqui é justa e honesta com as raízes do personagem e coerentes com os acontecimentos de Secret Empire.

No que tange o título em si, Falcon não é uma estreia muito impactante. A primeira edição é narrativamente e visualmente honesta. Apesar da primeira edição entreter e ter ideias de caráter social bem progressistas, com certeza terá pouco impacto para a linha atual da Marvel e, principalmente, para a mitologia deste personagem. É uma pena, pois, por tudo que passou e pela recém adquirida popularidade como Capitão América, Sam Wilson merecia um pouco mais.

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