[Review] Asa Noturna: O verdadeiro Dick Grayson está de volta

O Asa Noturna de verdade está de volta! Quando digo de verdade, refiro-me ao clássico, o Dick Grayson independente, que age pelo bem sem a necessidade de instruções de seu mentor, o Batman. Tudo isso aconteceu graças ao advento do Renascimento DC, que retomou elementos mais amados de seus personagens de volta após as distorções causadas pelos Novos 52.

As primeiras sete histórias de sua nova revista mensal foram publicadas há poucas semanas no Brasil, em um encadernado da Panini Comics. É sobre ele que vamos falar.

As edições compostas pela equipe formada por Tim Seeley (roteiro), Javier Fernández (arte) e Chris Sotomayor (cores), precedidas pela edição especial desenhada por Yanick Paquette, trazem um pouco do espírito do que Chuck Dixon fez com a primeira mensal do herói, iniciada em meados dos anos 1990. Ou seja, mais uma vez o Asa Noturna liberta-se das amarras de seu mentor (ainda que a missão assumida por ele seja de conhecimento do Batman, que não interferiu em nada) para perseguir seu próprio destino.

Capa do primeiro volume do Asa Noturna no Brasil. Arte de Javier Fernández.
Capa do primeiro volume do Asa Noturna no Brasil. Arte de Javier Fernández.

Na aventura, Seeley insere um novo e dúbio personagem, o Raptor, que ajuda e atrapalha o protagonista, dependendo da ocasião. Mais que isso, o autor traz consigo a bagagem da Corte das Corujas, instituída nos Novos 52, e a utiliza como alicerce para a construção de algo novo, composto pelos diversos elementos que compuseram o personagem até ele chegar a este ponto.

Mas mistérios e ação à parte, o que realmente interessa nesta HQ do Asa Noturna é o que Seeley faz para representar o momento em que vivemos. Não, este volume não lida com divisões políticas, mas questiona o status da sociedade e o papel do Batman (e de seus pupilos) neste panorama. Sabendo a identidade de todos os membros da Bat-família e oriundo do circo também, o Raptor põe em xeque as crenças de Grayson ao colocá-lo do lado do 1% da sociedade, aqueles possuem demais e compartilham de menos, mascarando sua mesquinharia com eventos que, na verdade, beneficiam mais suas próprias imagens do que os necessitados.

Este tema enriquece a narrativa por colocar Grayson no meio do fogo cruzado ideológico; como alguém que também veio do circo, de família pobre, ele entende o que é estar do lado da maioria, dos que passam necessidade e ralam a vida toda para sobreviver. Por outro lado, está claro pra ele que Bruce Wayne, como milionário, faz o que pode para ajudar. Todos. O tempo todo. Isso é mais que qualquer milionário (ou bilionário) faria no mundo real, mas para o Raptor não é suficiente.

Asa Noturna enfrentando o Raptor em arte de Javier Fernández.
Asa Noturna enfrentando o Raptor em arte de Javier Fernández.

Em meio a estes questionamentos, Seeley ainda leva os personagens a diversos países pelo mundo em busca de um mistério que envolve o passado do protagonista e o da Corte das Corujas. O autor ainda brinca um pouco com a coisa de espionagem e agentes duplos, algo que veio da revista Grayson, quando o protagonista era um agente secreto da Espiral.

Com isso ainda veem mistérios revelados com quebra-cabeças, simbologia cigana e termos circenses. Pode parecer que Seeley está fazendo uma salada com tantas ideias jogadas em uma única histórias, mas o que se vê é o contrário; o autor, em absoluto controle de suas habilidades, conseguiu construir uma história de espionagem tensa, dramática, bem-humorada e que revela, enfim, quem o Asa Noturna é hoje.

O volume ainda traz participações mais que especiais de Damian Wayne e Batgirl, passando por temas como fraternidade, amor e maternidade. Aliás, falando em maternidade, Seeley fez um retcon muito ousado na história, mas que funcionou perfeitamente bem para fechar toda a história. Ele conseguiu encontrar uma brecha minúscula no passado do Asa Noturna para desenvolver algo inédito e instigante.

Acompanhado de uma arte pra lá de competente, Seeley está se mostrando uma força singular na DC, especializada em ação, espionagem e reviravoltas impressionantes. Escrever G.I. Joe nos anos 2000 para a Image, certamente foi uma ótima escola para ele.


Sinopse/Ficha Técnica:
Título: Asa Noturna n° 1
Roteiro: Tim Seeley
Arte: Yanick Paquette, Javier Fernandez
Cores: Nathan Fairbairn, Chris Sotomayor
Páginas: 164
Publicação: Panini (Agosto de 2017)
Idioma: Português
Preço de Capa (cartonada): R$ 24,90

Ele foi o primeiro Robin e já substituiu o Batman. Foi um superespião e dado como morto. Agora, após rodar o mundo numa batalha para recuperar sua identidade secreta, Dick Grayson está retornando a Gotham na identidade que o consagrou: o Asa Noturna! Mas retomar sua antiga vida não é tão simples quanto vestir o velho uniforme.

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