Será que os filmes da Marvel são sempre os mesmos?

É engraçado como as coisas são. Sou um dos maiores críticos do Universo Cinematográfico Marvel por não oferecer inovações e entregar produtos de fórmula. Mas amei o filme do Doutor Estranho, um dos meus personagens favoritos (talvez o favorito) da Casa das Ideias. Recentemente, enquanto zapeava pelo divertido canal Honest Trailers no Youtube, deparei-me com o vídeo dedicado ao filme do mago. E notei algo que me decepcionou profundamente.

Doutor Estranho é um remake do primeiro Homem de Ferro. Pode soar idiota falar isso agora, mas faz tantos anos que vi o primeiro longa do Latinha que não me lembrava de… bem, nada, na verdade. Quando percebi que as semelhanças eram óbvias demais para serem coincidência, fiquei muito decepcionado. Stephen Strange merecia algo melhor.

Mas as coisas não param por aí.

Há fórmula nos filmes da Marvel, é verdade. A DC ganha pela ousadia de tentar algo diferente e perde por não saber executá-la; com a Marvel é o contrário. Contudo, isso irrita uma parcela menor do público, aquela que é mais exigente com determinados aspectos de uma produção cinematográfica. O seriado Mr. Robot, um dos mais elogiados e adultos dos últimos anos, até tira um sarro disso em um monólogo do protagonista:

I’m gonna be more normal now. I’ll go see those stupid Marvel movies. I’ll join a gym. I’ll heart things on Instagram. I’ll drink vanilla lattes.

Justiça seja feita, filmes de franquias precisam de certas semelhanças para que se mantenham na linha. Até os filmes de James Bond, feitos há cinco décadas, possuem coisas que não podem ficar de fora de um novo lançamento dele. Mas até que ponto a criatividade de diretores, produtores e roteiristas é posta em xeque em favor do mantimento de um mesmo tipo de produto? É aí que está: são pouquíssimos os que questionam isso.

Joss Whedon protesta contra saída de Edwar Wright da Marvel.
Joss Whedon protesta contra saída de Edwar Wright da Marvel.

O ser humano preza muito pela familiaridade. O que lhe é comum oferece conforto e segurança. Portanto, o grande público já sabe o que esperar de um filme da Marvel e é isso que encontra na sala do cinema. Sempre. Toda vez. Duas horas e poucos minutos de narrativas semelhantes compostas de jornadas parecidíssimas. Essa imposição do estúdio fez Joss Whedon sair de lá e trabalhar na DC. Fez Edgar Wright nem terminar um projeto. Tudo para que os filmes saíssem como a Disney quer.

Chegou um momento em que Kevin Feige, presidente da Marvel Studios, subsidiária da Disney para os filmes da Casa das Ideias, respondeu uma questão sobre isso. Ele não foi muito defensivo, oferecendo até um pensamento interessante sobre o que vem por aí:

Acho que é só o jeito como fazemos nossos filmes. Acho que nossos filmes são relativamente diferentes. Penso que há uma narrativa sobre a qual as pessoas gostam de escrever porque elas são produzidas pela mesma equipe e habitam o mesmo universo ficcional. Então procuramos por similaridades. E não vou dizer que não exista elementos comuns entre os filmes, mas acredito que Thor: Ragnarok e Homem-Aranha: De Volta ao Lar são filmes completamente diferentes. Ambos são divertidos. As pessoas gostam. É uma similaridade? Se sim, eu aceito. Se for uma crítica, também aceito. Mas Ragnarok, De Volta ao Lar, Pantera Negra, Guerra Infinita, um filme nos anos 1990 com a Capitã Marvel depois… são filmes muito diferentes. Se o que eles têm em comum é que são adoráveis e divertidos, então aceito a crítica também.

São justíssimos os pontos que Feige levantou. Guardiões da Galáxia também difere bastante de outros longas da Marvel. Contudo, como em toda história há dois lados a serem levados em conta. As diferenças entre a maioria dos filmes que ele citou são muito pequenas. E ao mesmo tempo em que existe uma parcela de público pedindo que coisas mais diferentes e criativas sejam feitas, também existe uma parcela ainda maior que fica contente com pequenas mudanças. Mudanças de leve, que não os façam sair do conforto que a diversão com a marca Marvel oferece.

Portanto, os filmes da Marvel são sempre os mesmos? De certa forma, sim. Isso é ruim? Depende apenas do público. O que é notável é como a fórmula conseguiu atingir a crítica de forma tão positiva: a maioria dos filmes do estúdio são muito bem pontuados nos agregadores de crítica, o que nos leva a pensar que, talvez, a própria crítica esteja confortável com qualquer coisa que a Marvel ofereça, seja por mantê-los familiarizados com a experiência cinematográfica (em termos de apreciação técnica) ou por sempre dar uma ou outra coisinha diferente em cada filme.

Seja como for, a Marvel conquistou o mundo, como a Disney quis que ela fizesse quando a comprou, em 2009. Se antes havia a “magia Disney”, agora há a “magia Marvel”, e todos devemos viver com isso.

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