[#Exclusivo] Howard Chaykin: Papo aberto e uma análise de um país dividido

Podemos todos jurar que o FIQ de 2015 aconteceu ontem, mas a verdade é que dois anos se foram e ainda temos material dele guardado por aqui. Um deles acaba de ganhar a luz do dia: uma franca entrevista com um dos mais prolíficos e controversos quadrinistas estadunidenses de todos os tempos. Howard Chaykin é conhecido por rechear sua narrativa de humor negro, críticas duras à direita dos EUA e temas controversos para diversos públicos. Ninguém escapa do radar do artista.

Com isso em mente, tivemos contato com seu mais recente trabalho (e provavelmente o mais polêmico de todos os tempos), The Divided States of Hysteria, que está saindo pela Image desde o meio do ano. Chaykin tem sofrido críticas duras, inclusive da indústria, pelas escolhas que fez para esta HQ. Querendo expor a histeria coletiva que tomou conta dos EUA nos últimos anos e escancarando as veias abertas de um país dividido como nunca antes, Chaykin criou uma HQ política que muitas vezes beira à pregação. Mas isso nem é um problema, principalmente para quem já é fã dele e sabe que tipo de comentário ele deixará implícito em suas histórias bem boladas.

The Divided States of Hysteria, a nova HQ de Howard Chaykin.
The Divided States of Hysteria, a nova HQ de Howard Chaykin.

O problema está na forma como ele escolheu mostrar determinadas minorias, utilizando-se abertamente de violência brutal e imagens explícitas que chocam qualquer leitor. Diferentemente de Garth Ennis, que faz muita coisa apenas pelo exagero e a diversão da coisa, Chaykin leva sua arte a sério e, como tal, está sujeito a ser alvo recorrente de algumas de suas escolhas mais complicadas. Não foi diferente com The Divided States of Hysteria, mas, dessa vez, parece que ele foi longe demais.

Existe uma predileção de Chaykin por trabalhar com personagens trans. E há motivos pra isso, explicados em uma carta aberta que ele lançou após toda a sua polêmica com a nova HQ: ele viveu por muitos anos em um pequeno apartamento com amigas trans prostitutas e conheceu todo o dia a dia delas. Os perrengues, as transformações, as escolhas dos nomes, as mudanças de identidade e tudo mais. Ele pode não ser trans, mas tem uma vivência razoável com essas pessoas. Nada mais normal que ele aplicar isso em suas HQs, às vezes até como forma de homenagear as amigas. Ele mesmo disse isso.

Quadro de The Divided States of Hysteria com personagem trans.
Quadro de The Divided States of Hysteria com personagem trans (e a crítica implícita, marca registrada do artista, no caso ao uso do nome de batismo ao invés do uso do nome social da personagem na situação retratada).

Complicadores para a nova HQ, porém, são o uso excessivo de imagens de trans apanhando, negros sendo presos ou enforcados e a arte que gerou a maior controvérsia de todas: um muçulmano sendo enforcado publicamente, com um pênis mutilado à mostra, na capa da quarta edição da revista. A mensagem é óbvia: o artista está mostrando, em sua versão, como a América preconceituosa que ele odeia vê os muçulmanos. Mas nem todo mundo viu dessa forma.

Chaykin conseguiu quebrar a internet ao meio, no melhor estilo Kim Kardashian, com a capa de um quadrinho. Pelo menos nos EUA. Não dá pra negar que é um feito e tanto e, de certa forma, atrai uma atenção razoável para seu novo trabalho. Contudo, o feitiço virou contra o feiticeiro e a Image foi obrigada a mudar a capa, assim como o artista teve que se retratar ao público, explicando suas posições políticas, seus valores e o que ele realmente quer dizer com o quadrinho.

É de absoluta compreensão a manifestação daqueles que leram o novo trabalho de Howard Chaykin e ficaram indignados. Ele esmaga os preconceitos da América apunhalando-a no peito e girando a adaga sem dó. A violência dos brancos em posição de poder perante qualquer outro tipo de pessoa mostra uma crueldade que não está longe do que vimos recentemente: o maior massacre da história moderna do país, perpetrado por uma única pessoa muito bem armada, e nazistas desfilando livremente pelas ruas do país pedindo respeito aos seus direitos. Isso no país que mais se vangloria de ter derrotado Hitler e a Alemanha na Segunda Guerra Mundial.

A capa de Howard Chaykin que causou uma das maiores controvérsias do ano nos quadrinhos.
A capa de Howard Chaykin que causou uma das maiores controvérsias do ano nos quadrinhos.

Howard Chaykin até comenta, no posfácio da primeira edição, que nem imaginava ver Donald Trump eleito, mas esse fato mudou boa parte do rumo da HQ. É verdade que Trump tem dado mais espaço para a intolerância e a violência, assim como vem acontecendo em outras partes do mundo. Contudo, ler The Divided States of Hysteria é uma experiência muito divisiva. Da mesma forma que a crítica ferrenha feita pelo artista é mais relevante do que nunca, sua execução possui tanta negatividade (e até falta de edição em alguns momentos) que o artista soa como um adolescente revoltado com poder nas mãos.

A linha é muito tênue entre a crítica válida representada através da arte adulta e questionadora e berros de um moleque rabugento. Infelizmente, Chaykin mistura as duas coisas em seu novo trabalho, minando sua própria credibilidade.

Se esta HQ acabar de uma forma mais moderada (no sentido de não parecer discursos de um rebelde sem causa), ele terá cumprido seu objetivo. Caso contrário, ele pode ter dado um passo para a irrelevância. O que nos leva ao FIQ.

Atentado histórico a Nova York acontece na HQ. Foi executado por uma mulher com bomba na vagina se fingindo de grávida.
Atentado histórico a Nova York acontece na HQ. Foi executado por uma mulher com bomba na vagina se fingindo de grávida.

Por motivos políticos e financeiros, o evento não aconteceu neste ano. Mas temos aqui, em vídeo, o registro completo e legendado de nossa conversa com o artista, gravada na última edição, em 2015. Após a entrevista, o encontrei em sua mesa e pedi um autógrafo no meu encadernado de Power & Glory. Ele estava ao lado de Mike McKone, um britânico. Ele assinou, me devolveu, e começou a falar com voz de velho tarado para Mike: “Let’s ruin these fucking Americans, hun, Mike? These fucking Americans!“. Ele estava se referindo à HQ, é claro, mas, pensando agora, talvez ele já estivesse com Divided na cabeça. Trump já era tido como preferido pelos republicanos na época. A indignação dele para com seu próprio país começava a se tornar transparente. Pena que só percebi agora.

Na entrevista, ele falou sobre sua vida, onde mora atualmente, suas visões sobre o mundo, visitas ao Brasil e revelou-se um grande fã do trabalho de Oscar Niemeyer. “Fiz minha lição de casa”, disse ele.

Por fim, aqui está. Nosso papo, sem frescuras, com Howard Chaykin, um príncipe.

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