Catarse: Quadrinhos e as campanhas segundo semestre de 2017

O segundo semestre de 2017 dentro da plataforma de crowdfunding Catarse tem chamado atenção dos artistas e leitores de quadrinhos, por conta do grande número de projetos em captação de valores visando a impressão de HQs. Percebendo as mudanças na forma de consumir e produzir HQs no Brasil, buscamos analisar o mercado e trazer alguns comentários sobre a crescente leva de projetos e dados importantes acerca do quanto ainda existe de espaço para expansão, quando se fala de quadrinhos independentes no País.

Nesse momento, existem 74 projetos na categoria Quadrinhos no Catarse e,, recentemente a plataforma anunciou um recorde de arrecadação histórica de 1,5 milhões de reais. O diretor e criador do Catarse Diego Reeberg vê esse crescimento e lançamentos de quadrinhos com bons olhos:

Em 2017, só em Quadrinhos, já foram arrecadados R$1,5 milhão (15,4% a mais do que em 2016 inteiro), e isso porque ainda tem mais 3 meses até o fim do ano. Esperamos que esse ano a gente cresça, em Quadrinhos, pelo menos 30% em relação a 2016.

Ele acredita que essa melhoria tem motivos: “Entendemos que isso foi impulsionado principalmente em 3 campos: a) artistas com base sólida de leitores passaram a adotar o financiamento coletivo (como Carlos Ruas); b) muitos realizadores retornam todos os anos (alguns mais de uma vez por ano, como é o caso do Felipe Cagno) para lançar suas novas HQs através do Catarse; c) o Catarse já tem um público cativo de apoiadores que recorrentemente entram no site para buscar novas histórias e fazer parte da realização das publicações que eles querem ver no mundo”.

O editor da Balão Editorial, Guilherme Kroll, que recentemente fez uma parceria com o artista Leo Finocchi para o lançamento da HQ Hell NO!, também financiada pelo Catarse, acredita que há mais elementos para se analisar a respeito esse crescimento de projetos:

Existe crowdfunding de quadrinhos no Brasil, com uma alta taxa de sucesso, desde 2011, então acho seguro afirmar que já se construiu uma cultura ao redor do formato. Os leitores apoiam porque confiam nos autores, tanto na qualidade dos produtos quanto na capacidade de finalizar os projetos. Isso gera um ciclo virtuoso de produção e arrecadação. Mas nem tudo são flores. Acho que podemos ver que, junto, vem uma certa saturação do formato.

Felipe Cagno, um dos artistas que tem melhor conhecimento do financiamento coletivo (atualmente com 11 projetos financiados na plataforma), afirma que a chegada do Catarse fez bem para o mercado de HQs: “O crowdfunding veio para revolucionar o nosso cenário. Foi só através dele que pudemos preencher a lacuna entre zines e HQs lançadas por grandes editoras, criando toda uma nova leva de lançamentos”.

Já o roteirista Pablo Casado (recentemente financiou o quarto volume de Mayara & Annabelle) diz que a liberdade que o Catarse proporciona faz com que o artista trabalhe visando um resultado mais efetivo:

O financiamento coletivo ajuda ao proporcionar de forma financeiramente saudável para os autores que eles publiquem sem a necessidade de assumir algum risco de prejuízo. Isso não garante que o produto entregue será de qualidade ou que o quadrinista vá ficar livre de preocupações (quem já fez crowdfunding sabe a dor de cabeça que é o pós-financiamento), mas pelo menos ele pode concentrar mais esforços na produção.

Reeberg fica satisfeito em ter aberto um novo canal para as HQs nacionais e a fortificar a cena: “A gente criou o Catarse para que mais pessoas pudessem tirar seus projetos da gaveta e é uma alegria imensa ver que isso de fato tem acontecido através da nossa ferramenta”. Ele continua:

Sabemos que o Catarse é valorizado porque permite uma interação maior entre artista e público, além de diminuir o risco de publicação de novos quadrinhos, uma vez que ela será feita caso haja pessoas interessadas. Hoje têm editoras que usam o Catarse para conhecer novos artistas. Até por isso, é importante ressaltar que o financiamento coletivo é um modelo complementar às formas tradicionais de financiamento e publicação de quadrinhos.

Um dos grandes motivos do crescimento e do projetos com financiamento coletivo são os eventos de cultura pop. Porém, Casado adiciona mais alguns fatores, como o fortalecimento do Catarse enquanto plataforma e dos autores bem sucedidos nela, sejam recorrentes ou não: “Um projeto que agrade o leitor pode motivá-lo a conhecer uma nova obra que esteja buscando apoio. Por fora, eventos como a CCXP e os canais no YouTube, por exemplo. Várias das publicações encontradas nesses espaços são independentes, financiadas através do Catarse, o que deve atrair e renovar o público da plataforma de tempos em tempos”. Isso explicita que, agora, os artistas se preparam com antecedência para grandes eventos como CCXP e FIQ. Ambos os evento movimentam muito o público leitor de HQs.

Uma das grandes preocupações de alguns artistas é a saturação do número de projetos, com o Catarse encontrando uma bolha de expansão. Sobre isso, Reeberg explica: “Acreditamos que ainda exista muito espaço para expandir”, e continua:

Campanhas como Anésia, do Will Leite; Um Sábado Qualquer, do Carlos Ruas e Parzifal, do Hiro Kawahara, trouxeram juntas mais de 3 mil pessoas que nunca tinham apoiado um projeto no Catarse. Estamos chegando em 50 mil pessoas que apoiaram pelo menos 1 projeto na plataforma, um evento como a CCXP traz mais de 200 mil pessoas para consumir produtos de cultura pop e do universo geek.

Com dados como o de número de apoiadores únicos, agora existe uma noção de o quanto o crowdfunding pode crescer no Brasil. O diretor do Catarse adiciona ainda: “Além disso, o financiamento coletivo é uma ferramenta importante que faz parte de um processo de consolidação do mercado de quadrinhos nacionais. Ele tem ganhado força nos últimos anos, mas ainda tem muito potencial. Entendemos também que os artistas tem um trabalho de engajar novos públicos para consumir o seu trabalho e, consecutivamente, consumir quadrinhos”.

Casado faz uma análise interessante sobre o segundo semestre de 2017: “O segundo semestre no Catarse é tipo o verão no cinema americano, quando aparecem os blockbusters”. Ele dá algumas dicas para se destacar com seus projetos:

Se você não for um figurão ou um autor com projetos previamente bem sucedidos, o negócio é trabalhar bem no texto e nos vídeos de apresentação do seu projeto, apresentar uma quantidade de páginas finalizadas que possam dar uma noção da qualidade do seu projeto e estabelecer uma meta com os pés no chão. Não estou dizendo para pedir menos do que você precisa, não é isso. Mas se com X você consegue rodar o projeto, peça isso e torça pros 2X acontecerem naturalmente, como progressão da campanha.

Cagno complementa que é importante “vir se preparando o ano todo, criando público e expectativa. Com a quantidade de projetos hoje no Catarse [agora são 74 projetos online ao mesmo tempo], se você não fizer a lição de casa e trazer o seu próprio público para dentro da plataforma, provavelmente terá enorme dificuldade em se destacar”. Guilherme Kroll concorda e acrescenta: “Qualidade do projeto em primeiro lugar. É essencial uma arte interessante que fisgue o leitor. Depois, é importante que o projeto esteja bem estruturado e seja bastante divulgado para que chegue ao maior número de possíveis colaboradores”.

Perguntado sobre como o Catarse tem se estruturado para ajudar os novos criadores a ganharem espaço junto a grandes nomes dos quadrinhos nacional, Reeberg comenta: “A gente entende que os artistas com mais nome acabam, na verdade, trazendo mais público para a plataforma e, com isso, ajudam os projetos de artistas menos conhecidos. A comunidade se fortalece e todos os projetos ganham. O fundamental é você entender bem seu público, apresentar bem seu projeto (imagem, título, descrição, vídeo) e fazer uma campanha de comunicação envolvente”.

O criador do Catarse ainda dá informações preciosas para os marinheiros de primeira viagem: “Para quem não consegue alcançar a meta (e para quem consegue também), a gente tem investido na criação de novos conteúdos, seja através do Blog do Catarse ou da Escola do Financiamento Coletivo, que, em geral, trazem dicas práticas de como se fazer uma campanha. Criamos recentemente um Fórum do Catarse para os realizadores poderem compartilhar dicas e boas práticas para se fazer uma campanha.” Ele finaliza:

Também temos participado de feiras e eventos (CCXP, Banca de Quadrinistas, Feira Miolo, em São Paulo; Game XP no Rio de Janeiro; EmpreendeNerd em Brasília, FIQ em BH; Bienal de Quadrinhos em Curitiba) e conversado com os quadrinistas para tirar dúvidas, mostrar exemplos e inspirá-los para organizarem suas campanhas da melhor maneira possível.

  • Excelente Post!
    Esse é o TZ que mexe com os nossos corações! S2

  • Raphael

    Excelente matéria, parabéns. Realmente a expansão do catarse é absurda, espero que a bolha demore muito para estourar. O ruim é que essa quantidade de projetos, fica difícil apoiar todos, agora mesmo, tinha o projeto do Rapha Pinheiro, Kalil, Luciano Salles, Brão, vários projetos fodas, mas não há dinheiro que dê

    • Raphael

      Esqueci de comentar, na versão mobile do site, não aparece o autor das matérias, poderiam corrigir isso? Como acesso muito pelo celular, fico meio perdido, sem saber quem fez as coisas.

  • Digo Freitas

    Excelente texto!