[Review] Secret Empire #10, de Spencer, McNiven, Reis, Marquez

Desde que começou a ser publicada em abril deste ano de 2017, Secret Empire chama a atenção de fãs e entusiastas de quadrinhos muito mais pela controversa premissa do autor Nick Spencer do que pela história em si. As reverberações de um Capitão América tirânico, liderando uma organização de origem nazista, com uma proposta de regime totalitário e calcado na intolerância com os mais fracos motivou inúmeras discussões acerca da qualidade do material publicado pela Marvel como sua principal saga neste ano de 2017. Não há como negar que Spencer mexeu em um enorme vespeiro muito antes de Secret Empire começar, lá na primeira edição de Captain America: Steve Rogers. No entanto, a premissa, por mais estapafúrdia que seja, não é a história. O leitor pode muito bem não concordar com a proposta de história de Spencer, mas desqualificar o material somente por conta de uma premissa inicial é, no mínimo, preguiçoso.

No Terra Zero, temos feito análises pontuais de cada edição de Secret Empire individualmente (além de muitas outras matérias e podcasts), destacando os pontos positivos e negativos do material, levando em consideração a premissa, sim, mas não apenaseste aspecto da obra. E, enfim, chegamos aqui ao final da jornada trágica de Steve Rogers nesta última edição de Secret Empire.

As forças opositoras ao regime da Hydra se uniram na nona edição de Secret Empire e a vitória parece quase certa. Em uma jogada final desesperada, com o intuito de manter seu domínio sobre o Hemisfério Norte, Steve Rogers (o Capitão Hydra) se equipa com um protótipo de armadura energizada por um Cubo Cósmico quase completo. Enquanto isso, no lugar chamado Vanishing Point, o antigo Capitão América — que na verdade é um conglomerado de memórias do Sentinela da Liberdade mantido dentro da mente senciente do Cubo Cósmico (representado pela menina Kobik) — tenta retornar a realidade. O verdadeiro Capitão América é o trunfo final para derrotar sua versão vilanesca. Portanto, com a ajuda de Kobik, do Soldado Invernal e do Homem-Formiga, os heróis executam um plano de Sam Wilson e trazem de volta Steve Rogers nesta edição final.

O retorno do Capitão América não chega nem a ser uma reviravolta aqui, pois é o encaminhamento mais previsível para o clímax de Secret Empire. Uma batalha final entre os dois Rogers é prevista desde que o personagem começa a aparecer em sua versão amnésica no Vanishing Point. Por este motivo, o clímax perde bastante impacto narrativo. Por outro lado, a execução da parte final, assim como na grande parte da saga, continua impecável. A maneira como Steve Rogers convence a menina Kobik a encarar seus medos é inspiradora e reflete bem o que o personagem representa.

O ritmo de leitura permanece gratificante e, apesar do tom ufanista e meio demagogo nas caixas de texto durante a luta entre os dois Rogers, temos um confronto final bastante emocionante. Bem nos moldes das histórias de Spencer, há uma retroexplicação acerca da marreta Mjolnir. A passagem, que é basicamente o clímax e mensagem final sobre ser digno de uma posição heroica ou não, tem um impacto enorme nesta edição, e carrega uma mensagem forte sobre manipulação de massas os tempos atuais. Ainda aqui, vemos um gancho interessante, que explica de maneira razoável o que a Marvel tem feito nas edições únicas da linha Generations.

A arte da edição final de Secret Empire agrega um valor imenso ao produto final. Steve McNiven dispensa apresentações e deixar o confronto entre os dois Capitães nas mãos de um artista deste calibre foi uma sábia jogada do editorial da Marvel. Em outras cenas, vemos o ótimo trabalho de Rod Reis no retorno de Rogers do Vanishing Point, além de arte complementar de David Marquez, que não deixa o nível da história cair em momento algum. Visualmente, o final de Secret Empire tem seus momentos de inconsistência (como em todas as edições anteriores), muito por causa da alternância entre desenhistas nas partes que se passam principalmente no mundo real. Entretanto, o esforço da equipe de arte para entregar uma apresentação digna é louvável e o quadrinho tem brilho e cara de produção grande.

O final de Secret Empire é, sim, bastante previsível. Esse é um dos principais argumentos negativos em relação a esta saga. Simplificando, tivemos uma mudança de status quo, uma luta para retornar as coisas a uma “normalidade” e um retorno triunfal de um ícone. O conteúdo da saga, no entanto, é rico, bem executado, divertido e, em muitos momentos, nos diz bastante sobre o mundo no qual vivemos. Assim como é fácil olhar uma notícia sobre um Capitão América nazista e não dar crédito ao conteúdo da história, é também muito fácil ignorar os vilões da nossa realidade e seguir nossas vidas achando que tudo aquilo é normal quando não é. O principal mérito de Secret Empire é que, em diversos momentos da história, somos forçados a pensar se realmente estamos questionando a realidade que nos foi imposta ou simplesmente vivendo nela. Spencer mostra que não é preciso necessariamente um Cubo Cósmico para moldar uma sociedade, basta um bando de mentiras e um símbolo para repeti-las a exaustão. Devemos, sim, questionar nossos símbolos, por mais altivos que eles possam parecer, só assim os verdadeiros Capitães América retornarão fortalecidos.

WP Facebook Auto Publish Powered By : XYZScripts.com