[Review] Marvel Legacy #1 e o retorno dos ícones

Desde que foi anunciada, no início de 2017, a iniciativa editorial Marvel Legacy divide opiniões entre leitores, entusiastas e críticos de quadrinhos. A ideia de resgatar, através de uma edição única, elementos marcantes da mitologia Marvel, para alguns parecia uma medida desesperada contra a perda recente de uma parcela do mercado para a concorrência. Ao mesmo tempo, muitos fãs entendiam que este era o caminho natural para as publicações da editora, após tantas mudanças recentes em sua linha de personagens.

O fato é que, agora, temos em mãos a edição única Marvel Legacy, cujo roteiro fica a cargo do premiado Jason Aaron e com arte de diversos profissionais da Casa das Ideias, incluindo Esad RibicSteve McNivenJim CheungStuart ImmonenRussel DautermanGreg LandChris Samnee e alguns outros. O que a publicação apresenta, no entanto, não é nenhuma novidade para quem acompanha os quadrinhos da editora desde a primeira iniciativa Marvel Now!

Legacy #1 é um grande compilado com 58 páginas de pequenas cenas que tem a função principal de introduzir os temas a serem abordados nos primeiros arcos dos títulos que começam a ser lançados a partir de outubro sob o selo Marvel Legacy. A função secundária da revista (que foi a mais divulgada pela editora) é, sim, resgatar alguns valores tradicionais heroicos desta mitologia, trazer de volta alguns velhos ícones queridos dos leitores e lançar um pequeno mistério acerca das origens deste universo que, com certeza, povoará a mente dos fãs por alguns meses.

As pequenas passagens mostram o atual status dos principais personagens da editora, como os Vingadores, os Campeões, Capitão América (os dois), Thor (os dois), Homem de Ferro, além de alguns outros. Estas introduções são interligadas de forma bastante solta por uma macrotrama que remonta aos primórdios da humanidade neste universo, e tem origem com um time pré-histórico de Vingadores se estendendo até os dias atuais, através de dois protagonistas bem incomuns: o Motorista Fantasma Estigma. A narração em Legacy, além de ter muitas passagens reflexivas sobre o que representa este universo, dá um tom de mistério até a última página quando, em um dos momentos mais felizes deste roteiro, é revelada a identidade do narrador.

Devido a alternância constante de cenas, o mistério acerca da trama principal e a expectativa criada para um final apoteótico, a leitura das 58 páginas de Marvel Legacy se torna bastante acelerada (principalmente para os leitores mais ansiosos). Aaron consegue de fato envolver e, ao mesmo tempo, pincelar os principais temas do segundo semestre na Marvel, além de cultivar a promessa de algo bem grande envolvendo todos os seus principais heróis em um futuro não muito distante.

Sobre os retornos de personagens, temos três bem significativos em Legacy. O primeiro é o de Steve Rogers, em uma cena bastante burocrática, mas que já define brevemente o tom de seu vindouro título produzido, pela dupla Mark Waid Chris Samnee. O segundo e terceiro retorno especificamente são bastante felizes e aguardados por muitos fãs saudosos da editora. Apesar de uma das cenas (que se passa na Terra com um gigante de gelo) não ser tão impactante como deveria.

Talvez o ponto mais cativante de Legacy seja sua conexão discreta, porém direta, com Guerras Secretasde Jonathan Hickman. Esta se dá principalmente no final, mas, com uma releitura, pode ser sentida em quase todas as partes da narração da história. Não que tudo entre Guerras Secretas e Legacy tenha sido desconsiderado (muito longe disso), mas os elementos “multiversais” são uma presença inegável e dão gravidade a grande parte do que é mostrado aqui. Os temas criados por Aaron para os primórdios do universo e o time de Vingadores pré-históricos são instigantes na medida certa, ocupam muito menos espaço da publicação do que se esperava e, mesmo assim, acrescentam muito a esta mitologia sem apelar para algum tipo de retcon indigesto.

Devido a constante alternância de artistas entre as cenas em Legacy, fica inviável avaliar em algumas palavras a arte, como um todo, nesta resenha. Pode-se, no entanto, destacar principalmente as passagens principais da história produzidas pela dupla Esad Ribic e Matt Wilson. Este último, aliás, está creditado como colorista de grande parte da edição, e faz um trabalho de ambientação bastante homogêneo, mostrando muito versatilidade ao lidar com diversos estilos de artistas. Voltando a Ribic, este produz os momentos mais memoráveis visualmente em Legacy, e isso se valendo de personagens nem um pouco icônicos. Sua caracterização limpa e distinta, somada ao design inovador para novos personagens e uma fotografia marcante; são um belo de um cartão de visitas para quem está retornando aos quadrinhos da Marvel agora. Muitas memórias do trabalho de Ribic em Guerras Secretas são instantaneamente reativadas no cérebro de quem pega Legacy para dar uma olhadinha.

Ao contrário do que se possa pensar pela massiva campanha divulgação desta edição única, Marvel Legacy não redefine coisa alguma sobre as origens do universo Marvel. Temos aqui uma prática já recorrente na editora desde a primeira edição única de Marvel Now!, chamada Point One, lançada lá em 2012. Ou seja, há a introdução tanto de novos arcos para esta nova temporada de suas principais publicações quanto de uma macrotrama que possivelmente resultará em uma nova saga. Isso fica nítido principalmente nas passagens com os Guardiões da Galáxia e Loki.

No entanto, de forma alguma este formato prejudica a história e os temas pincelados por Jason Aaron na revista. As ideias propostas pelo autor são bastante interessantes sim e há coisas em Legacy que de fato atraem a curiosidade do leitor (a passagem rápida em Wakanda é um exemplo). Fora isso, os retornos apelam para o saudosismo de forma bastante sadia e o fluxo de leitura até a página final gera um sentimento bem positivo em relação a este universo como um todo. Portanto, se o objetivo do editorial era capturar a atenção de quem estava desgostoso com a maioria do portfólio da Marvel e tirar um pouco do gosto amargo de certas decisões recentes da empresa, pode-se dizer que Aaron foi bem-sucedido.

Esta não é uma leitura que empolgará toda uma geração ou revolucionará a Marvel, mas, se você é fã de quadrinhos de super-heróis e não quer saber um pouco mais sobre as aventuras dos dois personagens que aparecem nas últimas páginas desta revista, pode estar mentindo para si mesmo.

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