[Review] A infância do Brasil escancara a infância de um país

Como leitores e entusiastas de quadrinhos, muitas vezes nos vemos envolvidos em temáticas escapistas e leituras que nos trazem um certo bálsamo contra as mazelas que encaramos diariamente. Este é um aspecto importantíssimo da chamada Nona Arte e não deve ser menosprezado de forma alguma. No entanto, no vasto espectro temático da arte sequencial, há espaço para obras que nos tragam informação e nos coloquem a refletir sobre a realidade que nos cerca. Este é o caso de A Infância do Brasil, do roteirista e artista José Aguiar, lançado neste ano pela editora Avec.

A Infância do Brasil é uma compilação de seis histórias semi-interligadas, originalmente publicadas online entre 2015 e 2016. Foram produzidas por Aguiar, colorizadas por Joel de Souza e possuem textos complementares da historiadora Claudia Regina Moreira. As histórias curtas mostram a realidade na vida de crianças brasileiras desde a época da pós-colonização, no século 16, até a atualidade. Temas como abuso, violência, injustiça, intolerância racial, trabalho escravo e sexismo permeiam toda a narrativa temporal de Aguiar.

 

O principal mérito do roteiro de A Infância do Brasil é a precisão cirúrgica em descrever temas muito complexos e cheios de nuances em poucas páginas de quadrinho, com a quantidade exata de diálogos. Em momento algum, há excesso de explicação ou falta da mesma. Aguiar é certeiro na caracterização e nos ganchos deixados para reflexão. A contextualização histórica agrega um valor imenso a esta obra e nunca é um empecilho para a montagem dos pequenos arcos — muito pelo contrário, é uma ferramenta narrativa poderosa e pungente. Há um misto de sutileza e brutalidade em cada uma das seis histórias mostradas e os temas fortes que são mostrados pelo autor jamais parecem gratuitos ou panfletários. Ao final de cada um dos contos, o autor relaciona o tema abordado a algum fantasma que assombra nossa atualidade, deixando um gosto amargo a cada capítulo lido. Ao final do encadernado, temos os valorosos textos de contextualização histórica escritos pela professora Claudia Regina Moreira, detalhando de forma precisa e didática tudo que o roteiro do quadrinho usa como fundação para seu desenvolvimento. Sem dúvida, uma adição essencial para esta leitura.

A precisão no roteiro de A infância no Brasil é acentuada pela caracterização cartunesca e os traços oblíquos de Aguiar. Apesar de muita referência visual histórica bem esmerada na parte gráfica, o destaque da arte fica para a expressões corporais, faciais e fotografia obtida pelo autor em cada um de seus quadros. Há muita paixão no traço de Aguiar e isso se reflete tanto nas cenas mais violentas ou melancólicas quanto nas (poucas) mais alegres que são apresentadas neste quadrinho. É complicado transitar por tantas eras históricas em intervalos relativamente pequenos de páginas, e Aguiar torna esta apresentação natural e homogênea, sem perda de impacto entre seus contos. Há sempre algo em comum entre os personagens do quadrinho.

A infância do Brasil é o que podemos chamar de um quadrinho completo. Através de pequenas e duras incisões, o leitor é posto para pensar em uma realidade que o cerca e vem se perpetuando por séculos. Ao mesmo tempo, somos entretidos, à medida em que a mensagem se internaliza e instrui. Um material que facilmente pode ser usado tanto como tema de discussões abrangentes em foros muito elevados quanto em uma aula de história no ensino médio. Uma verdadeira vitória dos quadrinhos nacionais, que demonstra o grau de personalidade e talento que nossos artistas tem atualmente — em especial, o talento de Aguiar.