[Review] A Epopeia de Gilgamesh Bonner

Jim Starlin é conhecido por suas space operas no universo de quadrinhos de super-heróis, redefinindo o conceito de sagas cósmicas, além de ter trabalhado com praticamente todos os super-heróis da Marvel e da DC. Porém, não vou falar sobre sua memorável passagem pelo Capitão Marvel, a nem tão memorável minissérie Odisseia Cósmica, ou o épico DreadStar. Em 1989, Starlin publicou pela DC Comics a minissérie Gilgamesh II, escrita e desenhada por Starlin e colorida por Steve Oliff. A minissérie é uma reinterpretação da Epopeia de Gilgamesh ou Épico de Gilgamesh, que, por sua vez, é um copilado de poemas e lendas mesopotâmicas cujas origens e veracidade se perderam na difusão oral, adaptação cultural e textos fragmentados.

Acredita-se que as narrativas contidas na epopeia deviam ser muito populares em sua época, pois são encontradas em várias versões escritas por vários povos e línguas diferentes, sendo que as primeiras versões da mesma, datam do Período Babilônico Antigo (2000-1600 a.C.). Acredita-se também que Gilgamesh tenha sido baseado num rei verdadeiro, e que esses escritos tenham influenciado na escrita da Gênese bíblica.

Há uma versão “padrão” que foi compilada no último terço do segundo milênio AC em acádio, baseada em histórias mais antigas. Nela, Gilgamesh é descrito como sendo filho de um mortal e uma deusa, sendo assim um semi-deus descrito como dois terços deus e um terço humano, dotado de força sobre-humana. No início do poema, o herói é apresentado como o protetor de Uruk e construtor da magnífica muralha da cidade. Era, porém, um líder arrogante e tirânico, que recrutava violentamente os jovens para o serviço militar e violava as virgens. Para travar os excessos do rei, os deuses criam Enkidu, um homem selvagem que, após um confronto inicial, se torna amigo inseparável de Gilgamesh. Juntos, viajam à Floresta dos Cedros, onde combatem e vencem o seu guardião, o monstro Humbaba. Após o seu regresso a Uruk com a madeira da floresta e a cabeça do monstro, a deusa do amor Inanna tenta seduzir Gilgamesh. Este a rejeita e Ishtar, como vingança, convence Anu – o deus sumério supremo – a enviar o Touro Celestial, que causa grande devastação. Gilgamesh e Enkidu matam o touro.

Enkidu é marcado pelos deuses para morrer e adoece gravemente. Gilgamesh lamenta-se amargamente, mas não pode ajudá-lo. Após a morte de Enkidu, Gilgamesh, desesperado com a consciência de sua condição de mortal, lança-se numa busca pela imortalidade. Nesta jornada, o herói encontra Utnapishtim, sobrevivente de um grande dilúvio que acabara com toda a humanidade. Utnapishtim conta a Gilgamesh sobre uma planta que cresce sob o mar e que confere a imortalidade; com grande dificuldade, o herói consegue obtê-la mas, num momento de descuido, a planta é roubada por uma serpente. Gilgamesh retorna a Uruk, encontrando as grandes muralhas construídas por ele, que seriam sua grande obra duradoura.

A HQ de Starlin conta a história do alienígena Gilgamesh Bonner, que, ainda bebê, é ejetado de uma nave que orbita a Terra, a procura de um lugar onde recomeçar sua espécie que foi destruída. Porém, por um erro de cálculo robótico, são enviados dois machos e o erro não pode ser corrigido, pois os EUA responde com poderio nuclear e destrói a nave, acreditando ser ela uma ameaça. Porém, nunca ficam sabendo dos dois módulos de fuga que foram ejetados.

Um deles cai no México, onde os hippies e traficantes Steppenwolf e Sunflower Bonner o encontram e à criatura dentro dele. Apesar de ser claro em seus traços que a criança é alienígena, Sunflower convence a Steppenwolf que devem criá-la como seu filho. O outro módulo cai na selva colombiana, onde a criança cresce por conta própria e se torna um protetor do local.

Starlin cria um cenário interessante para história. Em 1992, a Rússia e a maior parte da Europa oriental desapareceram num acidente com uma experiência de teletransporte. EUA e a China se tornaram as maiores potências mundias e deram inicio ao uma guerra fria. A China bombardeou a Austrália, que havia se aliado aos EUA, que por sua vez bombardearam a Nova Zelândia. Isso enfureceu o Cartel Unido das grandes corporações, que resolveu intervir (afinal, havia perdido dois grandes mercados). E isso deu inicio as Guerras Corporativas que duraram cinco anos e, no fim, o mundo havia abandonado os conceitos de governo por ditadura e democracia dando lugar à liderança corporativa. O soldado que mais se destacou durante a guerra foi o gigantesco Gilgamesh Bonner, que foi eleito presidente vitalicio do mundo pelo corpo de diretores. Governando com mão de ferro, o extraterrestre que todos pensam ser humano, arrebanha tanto amigos como inimigos que querem tomar o poder.

Enquanto Gilgamesh governa, o Outro continua vivendo nas selvas colombianas impedindo o avanço predatório das Corporações. As ações do Outro acabam o colocando frente a frente com Gilgamesh, tornando-o assim o seu Enkidu. Assim como na lenda, após uma breve batalha, os dois se tornam amigos e o Outro passa a se chamar Otto.

Otto é nomeado supervisor do projeto de recuperação da América do Sul. Suas propostas ambientalistas não são bem vistas pelo corpo de diretores que armam um esquema para se livrar de Gilgamesh e Otto. E então temos o confronto com a Sombra da Noite, um terrível monstro que protege o que restou da Amazônia, assim como Humbaba, e o Ciborgue Frank assumindo o papel do Touro Celestial. No fim, Gilgamesh, adentra o imenso Vazio onde antes se encontrava a Rússi, para poder encontrar o segredo da vida pós-morte, mas o que ele encontra não é nada agradável.

Apesar de utilizar de alguns conceitos defasados (um exemplo é o mito de que a Amazônia é o “pulmão” do mundo), Starlin conseguiu atualizar o mito de Gilgamesh. Não é só uma HQ de ficção cientifica, mas um épico sobre um homem que tinha os céus e perdeu tudo enquanto almejava o impossível. Foi publicado no Brasil em 1990 pela editora Globo como minissérie e mais tarde em um encadernado reunindo as quatro edições. Infelizmente a publicação foi caindo no esquecimento com o passar dos anos e quem ficou curioso vai ter de apelar a scans, sebos ou, é claro, torcer para que alguma editora a republique.


Este texto foi originalmente publicado no site Quadro a Quadro, mas fiz algumas alterações para deixa-lo mais completo. Claro que ainda faltam muitos detalhes pois estou longe de ser um especialista em história antiga, mas para quem quiser saber mais a respeito deixo os links dos sites que consultei: http://homoliteratus.com/historia-mais-antiga-da-humanidade e http://www.klepsidra.net/klepsidra23/gilgamesh.htm

4 Comentários

Clique para comentar

3 × 1 =

WP Twitter Auto Publish Powered By : XYZScripts.com