[Review] A Chegada do Capitão Feio às Graphic MSP

O projeto com o Capitão Feio, intitulado Identidade, foi um dos anúncios mais interessantes das Graphic MSP desde sua concepção. Editorada por SIdney Gusman, a linha de graphic novels para adultos (e jovens adultos) com padrão europeu trouxe diversidade de conteúdo e aventuras para todos os gostos, mas faltava algo a ser explorado. Restava o personagem escondido no recôndito mais sombrio das criações de Mauricio de Sousa: seu grande vilão.

Não se enganem; o Capitão Feio não é um vilão como Lex Luthor, tampouco como o Coringa. Ele também é dotado da mesma inocência e graça das outras criações do Mauricio. Todavia, neste novo projeto, dado aos irmãos gêmeos Magno e Marcelo Costa, daria para se explorar um pouco mais das sombras que permeiam um dos mais complexos personagens dos quadrinhos nacionais. E foi o que eles fizeram.

Capa de Capitão Feio: Identidade por Marcelo Costa.
Capa de Capitão Feio: Identidade por Marcelo Costa.

Há momentos de heroísmo e vilania na tragédia do Feio, um homem relegado ao lixo e que esconde suas habilidades controversas da sociedade, como um indigente. Conhecedores da realidade brasileira, os irmãos Costa vão fundo nas mazelas do país ao mostrar um homem sem nome, que vive do lixo e sozinho, tentando usar suas habilidades para dar vida às coisas que lhe são mais preciosas – justamente aquelas que nós, pessoas com um mínimo de privilégio na sociedade, jogamos fora.

Ao ser descoberto pelo público, o Feio enfrenta seus verdadeiros desafios, pois deve ao mesmo tempo entender o funcionamento de seus superpoderes (que incluem voo, rajadas e nuvens de sujeira) e compreender quem ele é. Observado de longe por um vilanesco Senhor Olimpo (numa grande homenagem a Lex Luthor e vilões da mesma estirpe), o Feio deve assumir sua real identidade e tornar-se o Capitão Feio.

Arte de Capitão Feio: Identidade por Marcelo Costa.
Arte de Capitão Feio: Identidade por Marcelo Costa.

Com um roteiro sem muitas cadências, devido às limitações estipuladas pelo uso dos personagens da MSP, Capitão Feio: Identidade chega no limite possível de mostrar o lado mais sombrio deste universo. Ou seja, os irmãos Costa foram até onde conseguiram para narrar a tragédia de um personagem diferente de todos os outros mostrados nesta linha de graphic novels, enquanto também mostram a dureza da indigência daqueles que vemos nas ruas todos os dias, principalmente nos grandes centros urbanos. É um feito e tanto.

Por outro lado, quem esperava um conto ainda mais sombrio, que de fato mostrasse um vilão cometendo atrocidades e tornando-se um pilar de maldade nesta linha de HQs mais adultas, certamente irá se decepcionar. Não é disso que as Graphic MSP se tratam e é importante que o leitor tenha isso em mente ao adquirir este volume.

Apesar do roteiro amarrado, que deixa bons cliffhangers, como em uma típica história de super-heróis (até com direito a um presentinho na página final), o grande destaque fica para a arte cinematográfica de Marcelo Costa. Se isso já estava claro em outros de seus projetos, como no western antropomórfico Oeste Vermelho, aqui ele eleva suas qualidades narrativas a outro patamar. Com cuidado tanto na composição de páginas como na caracterização de personagens, o desenhista dos Costa cria um filme por si só. Da melhor qualidade.

Não dá pra negar: o Feio nunca foi tão bonito.