O legado de Len Wein

Neste último final de semana, a indústria de quadrinhos mundial perdeu um de seus colaboradores mais influentes e carismáticos: Len Wein.

O envolvimento de Len Wein com os quadrinhos começou como um leitor e fã. Como um jovem que tinha problemas de saúde, Wein era frequentemente presenteado por seus pais com pilhas de quadrinhos na infância e, com isso, desenvolveu apreço por esta forma de arte.

Na adolescência, Wein e seu amigo Marv Wolfman, eram frequentadores assíduos do tour semanal pelos escritórios da DC Comics durante a década de 1960. Juntamente com Wolfman, Wein produzia histórias e distribuía aos editores durante os passeios e, eventualmente, os dois foram contratados.

Marv Wolfman, Len Wein e Scott Edelman em uma das primeiras convenções de quadrinhos em Toronto nos anos 1970.

Ao final da década de 1960 e início da década de 1970, Wein trabalhava a todo vapor como roteirista, tanto para a DC Comics quanto escrevendo eventualmente para a Marvel. Em 1968, em sua passagem pelo quadrinhos dos Titãs, Wein cocriou, junto com seu amigo Wolfman, o primeiro super-herói russo do universo DC, o Estrela Vermelha. Ainda neste período, o roteirista desenvolveu, juntamente com Bernie Wrightson, uma de suas maiores contribuições para o universo DC: o Monstro do Pântano.

O Monstro tem sua estreia em The House of Secrets #92, de julho de 1971. Segundo Wein, o autor teve a ideia andando de metrô pelo bairro do Queens em Nova York e o nome “Swamp Thing” vem da falta de uma ideia de nome. Segundo Wein, ele frequentemente dizia que estava trabalhando em uma “Coisa do Pântano” e, portanto, acabou adotando o nome para o personagem.

Swamp Thing #1. Arte: Bernie Wrightson.

Ainda em seu período inicial pela DC Comics, Len Wein teve uma passagem curta, porém marcante, pelo título Justice League of America, no qual ele reintroduziu os Sete Soldados da Vitória à cronologia da época, assim como os Combatentes da Liberdade, em cerca de 14 edições do título.

No outono de 1972, Wein e autores contemporâneos como Gerry Conway e Steve Englehart desenvolveram o primeiro crossover não oficial entre personagens Marvel e DC em quadrinhos. A história, que se passava durante a popular parada anual de Halloween de Rutland Vermont, coloca heróis Marvel e DC interagindo com membros da organização da parada, autores e até a própria esposa de Wein na época, Glynis.

Imagens das festas de Halloween em Rutland Vermont

A história foi publicada em três partes, em Amazing Adventures #16 (Englehart, Bob Brown e Frank McLaughlin); Justice League of America #103 (Wein, Dick Dillin e Dick Giordano) e Thor #207 (Conway e John Buscema). Por motivos óbvios, em nenhum momento os heróis de fato se encontram; no entanto, as histórias se passam no mesmo universo, tempo e localidade.

Tom Fagan, organizador da festa anual de Halloween de Rutland é um personagem tanto da Marvel quanto da DC Comics. Arte: Dick Dillin

No início dos anos 1970, Wein começa a escrever regularmente para a Marvel. Seu trabalho se estende por títulos populares da época como Marvel Team-UpHomem-AranhaThorQuarteto Fantástico Hulk. Especificamente durante esta passagem pelo título do Golias Esmeralda, Wein cocriou um dos personagens mais famosos da Marvel: o mutante canadense Wolverine, em Incredible Hulk #180-181, de 1974. Em sua primeira aparição no título do Hulk, Wolverine é um agente super-humano do governo canadense. O personagem foi encomendado pelo então editor chefe da Marvel, Roy Thomas, a Wein como um baixinho canadense com um temperamento explosivo. Com isso Wein e John Romita Sr. desenvolveram o anti-herói que foi desenhado pela primeira vez por Herb Trimpe. Trimpe, que nega ter qualquer envolvimento com a criação do personagem, diz que Wolverine era um daqueles personagens secundários ou terciários que os próprios autores não tinham noção se iriam se manter na linha de quadrinhos ou não, pois era bastante comum, principalmente no quadrinho do Hulk, este tipo de adversário.

Capa de Hulk #181. O primeiro confronto entre Hulk e Wolverine. Arte: Herb Trimpe.

Talvez a contribuição mais valiosa que Len Wein tenha dado para a Marvel e para os quadrinhos em geral seja uma única e especial edição que reposicionou um popular grupo de heróis de volta no universo Marvel: Giant Size X-Men #1.

Giant Size é uma edição única que resgata o time de mutantes criado por Jack Kirby e Stan Lee de um hiato editorial de cinco anos na Marvel. A história não só traz de volta todos os conceitos do universo mutante como reforma completamente a equipe liderada por Ciclope. Ao lado do talentosíssimo Dave Cockrum, Wein cria personagens icônicos da segunda geração de X-Men, como TempestadeColossusNoturno Pássaro Trovejante, além de trazer de volta sua criação prévia, Wolverine, para a equipe — como um elemento disruptivo e selvagem em um time que não tinha uma dinâmica de conflitos internos tão acentuada ainda. A partir de Giant Size, os quadrinhos regulares dos X-Men em meados dos anos 1970 se tornam incrivelmente populares entre jovens leitores na passagem de Chris Claremont. O próprio Claremont frequentemente afirma que toda a indústria deve muito a Wein e Cockrum por sua contribuição para os X-Men.

Giant Size X-Men #1. Arte: Gil Kane.

Ao final dos anos 1970, Wein retorna a DC Comics, agora como muito mais prestígio como roteirista e editor, trabalhando em títulos como New Teen TitansBatman and the Outsiders, e All-Star Squadron, entre muitos outros. Nos anos 1980, já como um consagrado profissional da indústria, Wein exerceu cargo de editor em duas obras fundamentais de literatura adulta do universo DC: A saga do Monstro do Pântano e Watchmen, ambos do aclamado Alan Moore.

Na última década, Wein escreveu talvez uma de suas obras mais intimistas e apaixonadas, na forma de DC Universe: Legacies, uma série limitada em dez edições na qual vemos a história do universo DC pelo olhar de um admirador de super-heróis, desde a Era de Ouro dos quadrinhos até os tempos modernos. Legacies é uma declaração de amor do autor pelo material com o qual trabalhou por cerca de quarenta anos, e um material extremamente didático para se conhecer os personagens da editora.

DC Universe Legacies. Arte: Andy Kubert.

Logicamente, um artigo como esse não abrange toda a magnitude de um profissional do calibre de Len Wein. Sua contribuição para a arte sequencial não só como roteirista, mas como ser humano é inestimável e sua influência em profissionais atuais é enorme. Obituários são necessários por conta do caráter informativo da notícia, mas é importante celebrar relembrando o quanto um artista deu a seu público no decorrer de sua carreira. Portanto, fica o convite nos comentários para que relembremos histórias marcantes deste gigante da indústria de quadrinhos.

  • Ultra CUBAZUELISTA

    CRIOU O LUCIOUS FOX TBM! QUE LHE RENDEU UNS BONS TROCADOS PELA ADAPTAÇÃO NO CINEMA AO CONTRÁRIO DA ADAPTAÇÃO CINEMATOGRÁFICA DO WOLVERINE Q SÓ RENDEU UNS TROCADINS !

  • Cinéfilo da Terra 2

    Ótimo homenagem. Parabéns, Igor.

  • Monitor

    Parabéns pela matéria. A maioria dos sites ou internautas só tem citado Monstro do Pântano e Wolverine, às vezes as hq do Batman, mas este artigo nos fez viajar no tempo. Legacies saiu em Universo DC antes do relaunch. Foi ótima e rebootou a história dos Sete Soldados da Vitória ao incluir Dan Dinamite e seu sidekick no grupo.

  • Raphael Pereira

    Eu, Wein!

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