[Emulador de Críticas] Superman contra o autoritarismo moral

Vivemos tempos difíceis. Cada vez mais os extremos se tornam aparentes. Presenciamos um mundo em que atitudes bárbaras podem ser vistas como normais. Nessas horas, a arte sempre serviu como escapismo ou como alerta para os caminhos que a humanidade poderia tomar.

Recentemente, tive o impulso de reler a edição 775 de Action Comics, intitulada “Olho por Olho?” no Brasil, mas com o pomposo nome original “What’s so Funny about Truth, Justice & the American Way?”, lançada em Janeiro de 2001. A edição é escrita por Joe Kelly, com arte de Lee Bermejo e Doug Mahnke. Após a leitura, parei para pensar sobre nossa situação.

A obra em questão é muito importante por diversos motivos. Ela é uma interpretação, bastante valida para a época, pois diziam que o Superman era um personagem datado e que, na verdade, equipes do universo WildStorm (que ainda não fazia parte da DC) como Authority e WildC.A.T.S eram mais interessantes que o Azulão, pois elas resolviam o problema, matavam seus antagonistas e não dialogavam com eles ou buscavam tentar reformar os arquirrivais. Em uma história curta, o trio de criadores mostra que o caminho que todos acham ser o certo está errado, pois essa violência descabida pode desencadear coisas terríveis em nós. A Elite que o herói enfrenta, apesar de ter uma boa ideia, executa suas escolhas das piores formas, se apoiando no velho discurso “O Fim Justifica os Meios”.

 

Mas até que ponto o fim justifica os meios?

Não precisamos ir muito longe para pensar sobre isso. Basta pegarmos nossos celulares e abrirmos um dos aplicativos das redes sociais. São diversas pessoas desejando o mal para aquilo que não compreendem, demonizando pessoas em praça pública, fechando os olhos para fatos e preferindo acreditar em textos e notícias sem fundamento ou fonte.

É preconceito, segregação, homofobia e medo do futuro. Artistas sendo censurados porque existe uma classe conservadora que não tem a mínima vontade de entender uma mensagem. Acredite ou não, juízes que acham que podem afirmar o que é uma doença ou não. É triste ler isso. Pensar que, ao invés de evoluirmos para um mundo onde a liberdade deveria ser algo bom e comum, nos voltamos para um lugar onde o autoritarismo ganha mais poder e pessoas que se dizem ‘de bem’ executam o mal, apenas por outros não seguem o padrão de vida que as primeiras acreditam ser o certo.

Não me entendam mal. Acho que todo mundo pode fazer o que quiser das suas vidas. Porém, ninguém deve ditar o que os outros vão fazer e muito menos o que não devem fazer, seja na forma de se vestir, de falar, de amar, de crer ou o que assistir, ler ou ouvir. Enquanto uma parcela da população busca abrir caminho para um mundo mais diverso, temos, em contraposição, uma parcela que busca apenas se manter presa a ideias retrógradas, que ainda por cima se vitimizam porque os tempos mudaram e essa mesma parcela acha, portanto, que os outros têm que se adequar ao jeito que ela está presa à viver.

Voltemos ao Superman. Todos sabem que os EUA estão vivendo tempos, no mínimo, estranhos. O presidente Donald Trump, que ameaçou destruir um país soberano em plena Assembleia Geral da ONU ontem (19), é um crítico ferrenho de imigrantes no seu país, algo no mínimo incoerente com a história da sua terra, que também foi colonizada e sempre serviu como bastião de liberdade para as pessoas — mesmo que historicamente eles tenham seguido caminhos bastante escusos no quesito liberdade. Vemos na última edição de Action Comics, a #987, o herói salvando imigrantes que estavam sendo atacados por nacionalistas. Isso lembra o fato que aconteceu recentemente em Charlottesville, onde houve confrontos entre nacionalistas e neonazistas contra negros e imigrantes. Porém, contrariando o governante do EUA, o Superman tomou um lado e este foi os das pessoas que foram hostilizadas.

Em Action Comics #775, nos foi mandada uma mensagem: talvez precisemos de mais lições do Homem de Aço. O caminho da Elite não é o certo, não é “matar primeiro e perguntar depois”. Não é tentando uma “cura gay” (rebatizada eufemisticamente de “reorientação sexual”) que vão acabar com homossexuais, não é censurando artistas que o mundo vai ficar melhor. Entendam: para se dialogar, você tem que estar disposto a ouvir o outro lado. Do contrário, você se torna uma pessoa reativa, que dissemina o ódio e não é um cidadão do bem, na verdadeira acepção da palavra. Não é cerceando ou abafando uma discussão que você acaba com ela.

Talvez o caminho não seja aplicarmos a Lei de Talião para os outros. Não é olho por olho, dente por dente. O fim não justifica os meios. O que precisamos realmente é empatia, é entender que as pessoas podem ser diferentes, podem ter interpretações diferentes e, ainda sim, haver respeito mútuo. Perceba que escrevi respeito e não tolerância, que são coisas diferentes.

 

Esse autoritarismo moral vai nos levar novamente para os tempos da barbárie, e a História já nos mostrou várias vezes onde é que isso vai parar.

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