Milk shakes, mulheres e os desagradáveis leitores machistas

É tão triste escrever sobre esse assunto. Talvez uma das coisas que mais cortam o coração de uma pessoa que trabalha com jornalismo e HQs é ler casos constantes de misoginia no ramo dos quadrinhos. Novamente, temos um caso de uma profissional das HQs sendo atacada pelo simples fato de ser mulher e estar feliz. A vitima da vez é a editora da Marvel Comics Heather Antos, que virou alvo de leitores machistas pela simples fato de postar uma foto tomando milk shake com suas colegas de trabalho.

Antos é uma das profissionais que vem ganhando espaço dentro da Marvel Comics. Ela trabalha editando a revista da Gwenpool e  The Unbeatable Squirrel Girl, essa última faturando o Eisner Award desse ano como Melhor Publicação Adolescente, um fato que coroa o bom trabalho de toda uma equipe criativa. Na última segunda-feira (28), como qualquer pessoa que posta fotos sobre sua vida e divide momentos de lazer nas suas redes sociais, a editora postou uma foto tomando um milk shake com suas colegas de trabalho da Casa das Ideias. Veja o tuíte abaixo:

Após a foto do Milkshake Crew (que pode ser traduzido como “A turma do milk shake”), Antos começou a ser atacada de forma gratuita em sua conta do Twitter. O fato de estar fazendo uma pausa no trabalho e tirar uma foto com algumas das várias mulheres que trabalham na Marvel virou um momento de ataques sociais, dos mais variados. Segundo esses seres, que se escondem atrás de avatares de heróis, as mulheres que trabalham na Marvel são as culpadas pela diversidade e pelas várias mudanças de status quo dentro da editora. Tudo isso ainda é resquício da frase mais infeliz do ano no mercado, “Diversidade Não Vende”, dita por David Gabriel durante o encontro com donos de comic shops dos Estados Unidos no último mês de abril.

O grande problema do pronunciamento de Gabriel é que os ataques à mulheres profissionais de quadrinhos tem se tornado cada vez mais comum. Recentemente tivemos casos marcantes, como o de Chelsea Cain, a escritora que acabou abandonando o Twitter por causa dos constantes ataque de leitores, algo alavancado pela capa do gibi da Mockingbird (no Brasil, Harpia), em que a protagonista usava uma camiseta em que estava escrito “Ask Me About My Feminist Agenda” ( ou “pergunte-me sobre minha agenda feminista”).

Podemos trazer o caso para mais perto de nós, brasileiros, e lembrar os diversos ataques a roteirista da Turma da Mônica Jovem Petra Leão, que foi exposta a ataques de raiva misógina pelo conservador campineiro Olavo de Carvalho, que tirou do seu contexto original um quadro de um edição da Turma da Mônica Jovem, em que a protagonista dizia “Meu corpo, minhas regras”.

Lendo casos absurdos como esse, temos que realmente botar a mão na consciência e tentar entender o motivo de tudo isso. O mundo globalizado deveria unir as pessoas, não afastá-las. Pode ser surpreendente para alguns, mas não há nada de errado em mulheres trabalharem com quadrinhos. É preciso ressaltar o óbvio aqui: quanto mais delas, melhor a mídia vai ficar, já que, nos quadrinhos, sempre tivemos grandes mulheres trabalhando nas editoras, no ramo de edição e administrando os quadrinhos que esses garotos machistas lêem. Exemplificando algumas pessoas: Janette Khan, Karen Berger, Shelly BondAlex de Campi, Sana Amanat e a própria Florence Steinberg (a #FabulousFlo do tuíte de Heather Antos, para quem não pegou a referência), a segunda parte do duo inicial de funcionários que originou a Marvel, juntamente com Stan Lee.

Karen Berger
Karen Berger

Antos é apenas mais uma vítima do que nós devemos combater. E quando digo nós, eu digo todos nós. É preciso combater os machistas e misóginos vazios e que não aceitam que outras pessoas brinquem com os brinquedos deles.

O lado bom é que isso começa a acontecer de forma mais efetiva. Um grande número de artistas e leitoras começaram a apoiar a editora da Marvel com fotos e a hashtag #MakeMineMilkShake. São fotos, desenhos, textos com palavras de apoio para a funcionária da Casa das Ideias.

A tag chegou a tal nível de popularidade que a DC  também entrou na campanha contra o machismo nos quadrinhos, postando uma foto com suas funcionárias. Esse movimento ganhou uma grande proporção e mandou um recado para todos os leitores: as majors estão unidas e vão se apoiar contra os leitores que atacarem suas funcionárias.

O Terra Zero está com a turma do milk shake. Vamos apoiar as profissionais de quadrinhos. E queremos cada vez mais multiversidade nos quadrinhos, sempre.

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