História e vida do Quarteto Fantástico: seu nascimento, sua morte

O cancelamento de um quadrinho por baixas vendas é algo normal nos Estados Unidos e, em menor escala, no Brasil também. Desde que o Terra Zero foi criado, em janeiro de 2008, vimos dezenas de títulos que gostávamos serem cancelados mesmo quando parecia que determinadas vendas mínimas seriam suficiente. O primeiro que vem à mente é Manhunter, que teve pouquíssimas histórias lançadas pela Panini sob o estranho nome de Justiceira. Sinto falta dela no Renascimento DC.

Mas enfim, Zeronauta, não é de DC que vamos falar hoje. É de sua principal concorrente. A Casa das Ideias. Desde 2015, quando abrimos o site para falar de quadrinhos de todas as editoras, o Quarteto Fantástico é um tema recorrente por aqui. Pegamos a época em que um reboot cinematográfico estava agendado para sair pela Fox e, como todos viram em nosso superespecial analítico, aquele projeto todo se tornou um verdadeiro Fracasso Fantástico.

O final do Quarteto Fantástico em arte de Alan Davis e Mark Farmer.
O final do Quarteto Fantástico em arte de Alan Davis e Mark Farmer.

Enquanto isso, eles foram desaparecendo aos poucos nas HQs, graças a reuniões nada amigáveis entre Marvel Studios e Fox, que tentaram renegociar a propriedade intelectual do grupo para mudar de estúdio. Ou seja, a Marvel não teve sucesso e, como consequência, tornou-se público que Ike Perlmutter, o chefão da divisão televisiva do estúdio e um de seus principais acionistas, ordenou o encerramento do grupo nos quadrinhos.

Quando o evento Guerras Secretas chegou ao fim, o casal Richards de fato foi embora singrar pelo multiverso; Coisa e Tocha-Humana arrumaram outros postos. Isso levanta um questionamento: será que foi isso mesmo que fez o Quarteto Fantástico sumir das HQs? Ou será que é mais simples do que isso?

O Bleeding Cool, conhecido por suas infames matérias baseadas em informações muitas vezes de fonte duvidosa, fez um levantamento realmente interessante sobre a história do título mensal do Quarteto nas últimas décadas. O estudo apresentado por eles prova que, ao contrário do que Tom Brevoort, vice-presidente de vendas da editora, afirma, o Quarteto não ia tão mal assim.

Pôster brasileiro de O Quarteto Fantástico.
Pôster brasileiro de O Quarteto Fantástico.

O buraco é mais embaixo, ainda que sua solução seja bem simples e óbvia, como Jonathan Hickman revelou neste final de semana: a Marvel cancelou tudo porque os diretos de cinema estão com a Fox. Mas como isso não é o bastante para nós, vamos nos aprofundar no que vem acontecendo com o Quarteto Fantástico nos últimos anos até chegarmos em Marvel Legacy, que está pertinho de começar lá fora.

Em 2014, quando todo mundo já desconfiava que a revista da equipe iria para o buraco, Brevoort disse: “Nós vamos publicar QUARTETO FANTÁSTICO. Mês que vem, publicaremos QUARTETO FANTÁSTICO. Daqui a um ano, assumindo que ela continuará vendendo bem, vamos continuar publicando QUARTETO FANTÁSTICO.”

Vocês sabem o que isso significou de verdade, né?

Não só a revista do Quarteto foi cancelada como, aos poucos, o grupo foi desaparecendo de outros materiais da Marvel. Personagens começaram a parar de falar deles nos outros quadrinhos e os produtos da editora, como camisetas, jogos e colecionáveis passaram a não conter mais ninguém do Fab Four. Eles desapareceram evolutiva e descaradamente. O mesmo não aconteceu com os X-Men porque a propriedade é muito mais lucrativa para a editora. O que não significa, de forma alguma, que o Quarteto vendesse mal, mas passava relativamente longe do sucesso que os mutantes representam para a Marvel como um todo, independente de seus filmes estarem com outro estúdio.

Mas calma. Não estamos falando que o Quarteto Fantástico sempre foi um sucesso de vendas. Foram sim, durante alguns anos, em fases muito específicas como as de Stan Lee & Jack Kirby, John Byrne, Mark Waid e outros, mas, anos atrás, quando Bill Jemas mandava em tudo na Casa das Ideias, as coisas estavam mal. Ele queria cancelar tudo. Ou seja, desde aquela época já se falava em dar um fim no Quarteto, mas por razões um pouco diferentes.

Contemporaneamente, o Quarteto recebeu grandes nomes, como James Robinson, Mike & Laura Allred, Matt Fraction e Jonathan Hickman, que fizeram o título vender um pouco melhor com grandes histórias que recuperaram o prestígio da família. Vejam só como estavam as vendas deles em 2012, conforme levantamento do Bleeding Cool:

A 40ª posição é razoável. Estruturalmente, Quarteto Fantástico tornou-se um título de nicho dentro de um mercado que já é pequeno, com propostas mais desafiadoras ao leitor comum. Mas vejam, ele estava acima de outras coisas que continuam saindo nas duas editoras: Mulher-Gato, X-Men, Wolverine, e Vingadores. É um número bom.

O relançamento de 2014 foi ainda melhor, ficando na frente do megassucesso The Walking Dead. Meses depois esse número caiu (como sempre acontece após estreias), mas permaneceu bom o suficiente para o título continuar existindo tranquilamente:

Infelizmente não foi o que aconteceu.

Quando as Guerras Secretas acabaram em 2016, um ano depois do início da saga, o Quarteto Fantástico acabou de vez. Eles foram fundamentais para o desenrolar do evento, e nem isso os salvou. Hickman, responsável também pela saga que prestou grandes homenagens a todo o universo cósmico da Marvel e às Crises da DC, falou o seguinte ao Newsarama:

Sabíamos que o Quarteto Fantástico não seria mais publicado pela Marvel depois de 2015. Quando isso nos foi oficializado, tivemos que mexer na saga para que ela se tornasse “a última história do Quarteto Fantástico”. Ela não é isso de verdade, mas foi o melhor que pudemos fazer com as amarras que tínhamos.

Ao mesmo site, Brevoort disse em 2016:

Seja amanhã, seja daqui um ano, seja daqui cinco anos, a probabilidade é de que tenhamos uma nova revista mensal do Quarteto. Neste meio-tempo, esses personagens, para as pessoas que os amam, ainda estão por aí, ainda são importantes para o Universo Marvel. Mas a onipresença deles não. Talvez esta ausência torne um futuro anúncio do Quarteto Fantástico mais valioso do que agora.

Hickman é mais pragmático:

A Disney provavelmente precisa comprar a Fox.

Não vai rolar.

O final do Quarteto Fantástico nas Guerras Secretas, de Jonathan Hickman e Esad Ribic.
O final do Quarteto Fantástico nas Guerras Secretas, de Jonathan Hickman e Esad Ribic.

Então chegamos em 2017. Quando a Marvel anunciou a iniciativa Legacy, que, grosso modo, trará as versões clássicas de seus heróis de volta (saiba detalhes aqui), milhares de fãs pelo mundo esperavam que esse que tem tudo para ser o grande evento do ano nos quadrinhos marcasse o retorno do Quarteto. Mas nem assim a família voltou. O retorno, na verdade, foi da união entre Coisa e Tocha-Humana em uma nova versão de um antigo (e divertido) título da Casa das Ideias: Marvel Two-In-One.

Seria esse título uma espécie de teste para analisar o mercado para um triunfal retorno do Quarteto Fantástico? Talvez sim, mas, como Hickman bem disse, a situação é mais complexa. São estúdios que valem bilhões de dólares batalhando, com muito rancor, pela propriedade. Na verdade, o mercado de quadrinhos se torna algo menor perante esta guerra de gigantes. Contudo, a esperança não está esgotada; quem sabe uma demanda grande pelo reencontro dos dois membros mais cômicos do Quarteto não proporcione uma reanálise por parte da Marvel…

  • Camilo Lelis Ferreira da Silva

    Seria a série “Power Pack” (Quarteto Futuro) o Quarteto Fantástico que a Disney permite a Marvel fazer?

  • Leandro Silva

    Quem sabe o Coisa não dá uns murros na parede da realidade???

    • Lucaaaah

      Prime thing

  • Cassiano Cordeiro Alves

    Guerras Secretas realmente apresentou um final digno para o Quarteto Fantástico. É uma pena, o grupo merecia continuar tendo histórias publicadas.