Feminilidade não é fraqueza

Olá zeronautas, tudo bem com vocês? Mais uma vez, tenho a honra de escrever pra vocês.

Vim aqui pra fazer um desabafo sobre algo que vejo na cultura pop e, especialmente, nos quadrinhos, que me incomoda muito: a associação da feminilidade com fraqueza.

Legalmente loira. Mas não se engane achando que isso é sinal de fraqueza!
Legalmente loira. Mas não se engane achando que isso é sinal de fraqueza!

Quantas vezes você desprezou algo por ser “de mulherzinha?”, ou usou um adjetivo, ou outro termo que remeta ao “universo feminino” pra diminuir algo?

Pra muitos leitores de quadrinhos, uma história só serve se estiverem transbordando nas páginas músculos, violência, cenário escuro e sombrio, conversas pesadas e “profundas” e quando algo assume um ar mais leve, colorido e diferente, lá vem os adjetivos: “que lixo”, “coisa de menininha”, “idiota”.

Quer ver um exemplo?

Batgirl de Burnside. Se eu ganhasse cinco centavos por cada vez que li um comentário rebaixando a personagem e HQ, só por ela ser feminina e “de menina”, eu estaria rica. Muita gente simplesmente não suporta que a atual HQ tenha diversão. A heroína comprando roupas, namorando, saindo, passeando, passando tempo com as amigas e sorrindo. Porque uma menina, sendo feliz e tendo uma vida comum, é algo ruim, idiota, estúpido e tantas ofensas mais, tanto que a revista foi pra lama. Por quê? Porque ela tem que sofrer, ser amargurada, com visual agressivo e sombrio, com uma vida pesada, buscando vingança e refletindo sobre o lado sombrio da sua alma. Só assim a revista serve; se for diferente, aí não! Não pode mais!

E isto não é só com ela, não. Muitas personagens femininas dos quadrinhos são privadas de ter uma vida e caracterização mais “feminina” porque isto faria delas fracas. Nós não podemos ver a Mulher-Maravilha, Canário Negro, Capitã Marvel e outras mulheres dos panteões principais das editoras sendo mulheres comuns, que menstruam, tem TPM, passeiam, vão ao shopping, conversam com as amigas. Sim, eventualmente há uma edição, ou  momentos da HQ, em que elas até tem seus momentos, mas geralmente elas tem que ser as parrudonas, mal-humoradaa e grossas, porque, se não, elas não são fortes o suficiente. Porque se elas, ou mesmo os homens, ficam fora deste estereótipo, são fracos e inferiores.

Sei que há exceções. Temos personagens solares, mas mesmo os mais felizes, como Superman e Flash, tem de ter um trauma, um fardo pra carregar. Tem que ser o último filho de seu planeta, perder a mãe, esposa e o que mais for. Porque ser uma pessoa que não tem um trauma ou danos emocionais, é associado a fraquezas e insuficiência.

Mesmo o visual da mulher pra ser considerada forte tem que ser “masculinizado”. Me diga, que coisa é esta de cortar o cabelo com moicano ou joãozinho? Oi? Pra mulher ser a líder de uma equipe de heróis, ela tem que ter estes visuais? Nada contra, acho que cada mulher pode ter o cabelo que quiser. Mas o caso é que, pra Tempestade parecer mais imponente, vamos fazer moicano. Pra Capitã Marvel ter respeito, vamos cortar curtinho o cabelo dela. Me diga, ter cabelo comprido e cuidar dele é errado? É fraco? Sei que a maioria das heroínas tem cabelos longos, e lindos. Mas, se ela está passando por um processo de mudança e independência, o que os autores fazem? Cortam o cabelo dela.

E por fim, Lois Lane. Sim, não poderia não falar dela. Ela, que sempre me inspirou, por ser uma mulher comum, que faz a diferença com o que está ao seu alcance, é considerada pouco pra muita gente, pela mesma razão. Pra muitos, a mulher que quer ser “digna” do Superman tem que ser, no mínimo a Mulher-Maravilha, porque ser Lois não é suficiente.  Ela ser uma mulher que fica com os pés cansados, que chora, ri, ama, sente ciúmes, fica despenteada, tem olheiras, cansa e tudo o mais, torna a mulher que ela é inferior. O fato dela simplesmente ser mulher, uma mulher comum, faz dela menos. Porque a mulher ideal não pode mudar o mundo usando seu trabalho, que no caso dela é com as palavras, ela tem que ser ideal, porque é musculosa e cai na porrada com os outros.

Estes são alguns exemplos de como a feminilidade é sempre retratado como algo inferior e ofensivo. Temos tantos outros exemplos, como o preconceito por etnia, que também afeta as mulheres, a sexualização e muito mais. Mas, acho que com o que escrevi aqui, pude deixar o meu recado.

Se tem outros exemplos, comente e compartilhe.

  • Wando Machado

    Quadrinhos são um última análise um produto, públicos distintos,gostos distintos. Coisas de mulheres jovens são bacanas…para mulheres jovens. O fanboy padrão que compra hqs sempre vai buscar ação, pancadaria e histórias densas, mesmo que a personagem seja feminina. Se a revista foi cancelada é porque a DC não encontrou um novo público para a revista em uma quantidade suficiente que valesse a pena a produção da mesma. É uma pena, pois me parecia uma ótima revista para adolescentes.