[Emulador de Críticas] Marvel, DC e o mito da imparcialidade

E aí, pessoal!

Vivemos tempos de extremos! Os ânimos estão sempre à flor da pele. Uma palavra mal colocada em uma frase pode fazer pessoas escreverem textões do tamanho do multiverso. Um mundo mais globalizado encontraria momentos de polarizações, mas parece que a internet não está preparada para isso. Ou uma parcela de pessoas. Chegamos ao ponto de leitores clamarem por imparcialidade quando estamos falando de quadrinhos. Essa palavra, que remete a pessoas “sem lado” tem cada vez mais se tornado pauta de pessoas que simplesmente não aceitam que existam pensamentos diferentes dos delas.

Primeiro, vamos recorrer ao dicionário. A palavra “imparcial”, de acordo com o dicionário Aurélio, nos diz:

1 – Que não favorece um em detrimento de terceiro.

2 – Que revela imparcialidade.

3 – Que não tem partido.

4 – Reto, justo.

5 – Que julga como deve julgar entre interesses que se opõem.

Ao ler isso, as pessoas devem estar perguntando por que estou escrevendo este texto, já que sou parcial na maior parte do tempo. Estou explicando aqui que não existe essa tal imparcialidade, pois todos temos um lado. Não interessa o quanto uma pessoa tente correr atrás dessa meta, ela nunca vai conseguir, porque fomos criados em ambientes diversos, com ambições, gostos e opiniões próprias. Ou seja, quando qualquer coisa dessas está ligada, a imparcialidade não vai acontecer.

Chegamos, então, ao problema que vem afetando os quadrinhos.

A DC Comics e a Marvel Comics viraram pauta de sites, portais e grandes meios de comunicação. Vira e mexe leio algum comentário dizendo que os sites de quadrinhos são parciais. O site “x” é Marveco; o portal “y” é Deceneco. Isso motiva as pessoas a dizerem as coisas mais estranhas, ao ponto de acusar muitos sites ou escritores de receberem dinheiro de determinada editora apenas porque estaria “ajudando” a vender um gibi. Recentemente, fui acusado de ter recebido dinheiro da Marvel Comics, graças a uma coluna sobre o Capitão da Hidra. Na verdade, só analisei o contexto político em que a HQ estava inserida.

Se quisermos ir um pouco mais a fundo na questão, vamos encontrar, além da rixa clássica Marvel vs DC, o Disney vs Fox vs Warner. Ideias que são jogadas em sites apenas noticiando assuntos são consideradas opiniões de escritores. São tantas formas de interpretação de um texto, que fica até difícil você entender como as pessoas conseguem absorver o conteúdo. Um jornalista pode tentar fazer algo da forma mais simples possível, mas corre o risco de encontrar detratores de seu trabalho. Nesse momento, você acaba percebendo que não existe imparcialidade.

Convivo com fenômenos assim no estado onde moro, por conta do futebol. A cultura do Rio Grande do Sul é dividida entre Internacional e Grêmio, e toda santa vez que abro sites jornalísticos falando sobre esporte, que contêm alguma crítica para o lado vermelho ou azul, existe sempre um comentário acusando o site de falar melhor de um time ou do outro. “O colunista tal é gremista ou colorado enrustido”. O problema é que tudo que envolve paixão acaba crescendo e se tornando gigantesco. Nos quadrinhos, isso sempre rolou, porém, estamos chegando em pontos absurdos de rivalidade, onde a paixão está se sobrepondo à razão.

Analisando o cenário, acabo percebendo que as pessoas que pedem algum tipo de imparcialidade para sites são normalmente pessoas com visões extremamente parciais. O que me leva à constatação: esse leitor não quer imparcialidade, quer legitimar sua opinião nos textos que está lendo. Se isso não acontece, lidamos com acusações nos comentários, como “Fake News”, “vocês se venderam”, “estão sendo muito parciais”… Nesse ponto já estou espumando, porque muita gente cria fanfics na cabeça e não sabe o quanto sites e jornalistas se esforçam para tentar dar uma notícia de forma neutra, de buscar opinar nos espaços que lhes são direito.

Ultimamente, é difícil você se expressar sem ter uma plateia ao seu lado. Deve-se usar as palavras com cuidado e, muitas vezes, uma pessoa opinar ou dar uma ideia diferente sobre algum assunto virou um mar de reclamações. Isso rola ao ponto de algumas pessoas irem cobrar jornalistas ou escritores por conta do que pensam ou deixam de fazer. O público busca em seus escritores algum tipo de porta-voz de suas ideias e escolhas. Mas nunca uma pessoa ou matéria vai agradar todo mundo.

Talvez esteja na hora de tirarmos esse véu de imparcialidade sobre os quadrinhos. A Marvel e a DC vivem desse clubismo, e não é errado você dizer que gosta mais de “A” ou “B”. A imparcialidade não vai acontecer. Estamos tentando chegar nesse ponto jornalístico desde Gutenberg. Ainda não conseguimos. Se você tem dificuldades para viver com pessoas que pensam diferente de você, talvez Lua ou Marte seja uma lugar mais adequado, pois uma sociedade plural e igualitária é um dos poucos caminhos para arranharmos essa tão mítica “imparcialidade”.

Até a próxima!

  • Luiz Magno

    “talvez Lua ou Marte seja uma lugar mais adequado”

    Pablo, você se refere à Lua do universo Marvel (lá tem a excelente área azul respirável) ou Marte do universo DC (que tem o Ajax, o melhor personagem da Liga)?

    Brincadeiras à parte, entendo que é bem difícil de se encontrar um consenso.

    • Moroni Machado

      Talvez a arte não precise de consenso. E não é necessário procura-la. Na minha opinião Frank Quintley desenha melhor que Picasso. E só por causa disso não sinto a necessidade de provar para o mundo inteiro que estou certo.

      • Luiz Magno

        Frank Quitely desenha muito!

  • Moroni Machado

    A imparcialidade vem a partir de dar as noticias e não em coluna (opinião).
    Segundo é possível ser imparcial em várias coisas, eu apenas acho que impossível ser em todas as coisas.
    Quando não é possível ser imparcial, é só avisar no começo da coluna e pronto.

    • Claudia Carvalho

      Acho que só dá pra ser imparcial em assuntos que não te atingem pessoalmente. Se for algo com que você está envolvido sempre vai ter um favoritismo, por menor que seja.

  • Fernando Conceicao

    Acho assim, não é ruim ser parcial, é ruim querer parecer que não é. Você citou o caso de grêmio e inter aqui no RS. Qualquer pessoa que trabalha com esporte vai ter um time, não existe isento, então é menos feio assumir um lado e ser profissional quanto a isso.

  • Cassiano Cordeiro Alves

    Saudações tricolores, Pablo! “A cultura do Rio Grande do Sul é dividida entre Internacional e Grêmio”. Não. É entre Grêmio e Internacional (o clássico é Gre-Nal, Inter-Mio). Brincadeiras à parte, vamos tratar do site de de hqs. Entendo o seu ponto. A exacerbação dos ânimos, principalmente na internet (onde a segurança do teclado permite aos usuários “esquecer” o mínimo de respeito e cordialidade nos diálogos) é um problema com o qual todos temos de lidar. Cabe a cada um de nós não “alimentar o monstro” e praticar o bom debate. E sou testemunha de seu esforço neste sentido, nas colunas e respondendo a nós, leitores, aqui nos comentários do site.
    E para um bom debate, imparcialidade não é essencial, apenas respeito. A imparcialidade, como escreveu o Moroni Machado, está na divulgação das notícias, sem especulações, sem achismos. E quando opinar, fazê-lo dentro do contexto daquele fato, sem valorizar ou desmerecer “a” ou “b” em razão de gosto pessoal. No exemplo futebolístico aqui do RS, dois dos melhores analistas de futebol que já vi trabalhar foram o falecido Cláudio Cabral e Paulo Roberto Falcão. Ambos colorados notórios, mas que comentavam os jogos com brilhantismo, sem enaltecer fora de hora ou deixar de criticar tanto Inter quanto o Grêmio. Aqui no Terra Zero, antes Multiverso DC, entendia piadas com Marvel e marvetes (algumas beiravam o desrespeito, é uma linha tênue…), pois era a casa da DC na internet “brasileira”. Com a mudança do site, uma mudança de postura se fez necessária, e acho que vocês melhoraram muito neste quesito. Se me permite mais dois exemplos, lá no Marvel 616, tanto os redatores quanto nos comentários é praticamente ignorada a existência da DC/Warner. Não é foco/pauta deles,evita muitos problemas com leitores, não ofende quem gosta da DC (piadas/menções são MUITO eventuais). E no consagrado Universo HQ, o Sidão é assumidamente decenauta, mas isso nunca comprometeu seus textos ou podcasts sobre a Marvel, nem lhe impede de criticar a DC/Warner (criticaram merecidamente BVS, enquanto aqui vcs fizeram um esforço “inumano” – ops – para enaltecer a película, e hoje reconhecem que não foi tudo aquilo que falaram à época).
    Desculpe o texto grande. Um abraço! E boa segunda!

    • Pablo Sarmento

      Então, já ouvi algumas pessoas dizendo que não deveria falar de coisas da Marvel porque sou abertamente decenauta.

      Sobre o Marvel 616 e UHQ. Eu não posso falar porque sei o que rola nas “interna”. Mas aqui nosso ideal é sempre dar a notícia mais neutra possível. Se a pessoa tira parcialidade isso. Eu não entendo mais. Hahahaha

      Sobre Inter e Grêmio ou Grêmio e Inter. Eu falo greNAL, apesar de saber que o nome foi cunhado por jornalista gremista hahahahah.

      Abraço.

  • Fábio da Luz

    Imparcialidade realmente é difícil existir, contudo o clubismo deve ser evitado.

    Esse lance de abraçar a polêmica e cultivar rixa não é o ideal no jornalismo, pelo menos penso eu.

    Por exemplo, uma coisa é você noticiar um rumor, outra coisa é você tratar rumor como verdade e começar a vender que filme de editora X é uma bagunça total, conforme um certo site de ovos faz.

    Opinião é opinião, isso é fato, devemos respeitar e buscar sempre tratar a opinião alheia de forma educada.

    Mas jornalismo como é feito por alguns sites que possuem grande público parecem mais revista tititi do qualquer outra coisa (não incluo Terra Zero nisso).

    Enfim, deixo a minha opinião aqui, aberto sempre a discutir.

  • Eu fico pensando quando sites noticiaram que o filme da MM era uma bagunça por conta de rumores.
    Eu acho que dá para ser imparcial sim.
    Mas o clickbite gera mais receita.

  • Marck Antenado

    A ESQUERDOPATIA ESTÁ DESTRUINDO AS HQs.

    • Aquaman, O Lego Emo

      Tomara.

    • Erika Atayde

      Leia Transmetropolitam.

    • Adriano Borges

      E os sites de quadrinhos

  • Samuel Almeida

    Eu acho que um site tem que pelo menos tentar se afastar ao máximo desse clubismo: Editora A lança um material novo, aí vem o cara do site e publica a história da maneira mais rápida e desinteressada do mundo. Vem a editora B e também publica material novo, aí vem o cara do site e posta, em caps lock, negrito, efeitos especiais e tudo mais, a notícia enorme, toda detalhada, escrita com o maior gosto e cheia de “ESTAMOS NO CHÃO”, “NÃO ESTAMOS SABENDO LIDAR”, etc.

  • Neo

    O cuidado com as palavras é essencial.
    Mas o excesso de clickbaits e as várias noticias que são verdadeiras “fake news” é que tiram a credibilidade. Aí é que acabam mostrando a sua parcialidade.

  • San Saint Batroc

    Seja la quem escreveu a materia,esta de parabens

    • Pablo Sarmento

      Valeu! :)

      • San Saint Batroc

        Meus parabens amigao,nao sabia que era voce,vc destacou mt bem essa analogia no futebol,aqui no RJ tem mt isso tbm,Flamengo vs Vasco,vs Fluminense,vs Botafogo,nem o America eo Bangu escapam

  • Da Roça

    Uma sexta definição para imparcialidade.
    “Imparcialidade é aquele conceito que deixa de existir logo após a aula inaugural de Teorias da Comunicação I”

    • Pablo Sarmento

      hahahaha!

      Excelente definição.

  • Sergio Torquato

    Todos gostamos de algo, simpatizamos com alguma coisa, detestamos outras e simplesmente ignoramos outras. Isso é ter juízo de valor. É opinião subjetiva. E cabe aqui no cantinho da plateia, na torcida. Jornalismo trabalha com fatos, mais do que apenas opiniões. É um trabalho de informação segura que envolve checar as fontes e realizar um serviço profissional. Acho que essa é a diferença entre nós e um profissional do jornalismo. Não que seja proibido deixar uma opinião ou impressão sobre a notícia. Mas isso deve ser deixado bem claro para que a opinião não se confunda com a própria notícia.

  • Jonas Reis da Cruz

    Marveco?Deceneco?Mais alguém entendeu a referência?Eu conheci o MDM láááá em 2005,procurando informações sobre Batman Begins..A mistura de humor(as vezes chulo) e cultura pop era cativante.Mas,aí em 2008, a Marvel,com seu Homem de Ferro,começou a fazer sucesso e ao mesmo tempo o Hell,o MAIS Hater DC dos MDMs, ganhou plenos poderes no blog e eles viraram um blog marvete da pior espécie.Nada que a DC fazia era bom.Tudo era ruim,merda,bosta e lixo.E se você fizesse qualquer comentário que fosse contrário aos do Hell,sua mãe era Quenga,você estava bostejando,você era putinha da DC ou estava “estourando o absorvente”!Ou recebia singelos apelidos do Hell.Quem não lembra do”Paulo Rompido”?Eles popularizaram o ” Chupa DC”.Imparcialidade ali ,só nos seus sonhos!

    • Pablo Sarmento

      O Hell é deceneco velho. Nada depois da Crise Nas Infinitas Terras e John Byrne para ele é digno de nota na DC. hahahahaha

      • Jonas Reis da Cruz

        Você o conhece melhor do que eu.A propósito,eu conheci o “Terra Zero” através do MDM e seus impagáveis “Podcasts” e seus convidados.

        • Pablo Sarmento

          Opa! Que legal. Espero que a experiência esteja sendo boa… Ou ruim. Vai que tu gosta de sofrer vindo do MDM hahahahaha!

        • Maximus,FuncionárioPúbPauNoCu

          E depois que conheceu….. NÃO VEIO AQUI PRA CAÇAR !

    • Maximus,FuncionárioPúbPauNoCu

      “Paulo Rompido” não tem nada a ver com Marvel x DC .
      Era um leitor de lingua lusitana que escreveu certa vez que “se rompeu” lendo alguma coisa (mais ou menos como “morreu de rir”) então galera pegou no pé dele. Isso está na “historiografia do site”.

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