Arlequina: Terra Zero celebra os 25 anos da personagem

1992 parece que foi ontem. Você se lembra deste ano? No Brasil, Itamar Franco assumia a presidência do Brasil após a renúncia/impeachment de Fernando Collor de Mello, o que aconteceu meses depois das inesquecíveis Olimpíadas de Barcelona, em que nosso país faturou três medalhas: duas de ouro com a seleção brasileira masculina de vôlei e no judô, com Rogério Sampaio, além da prata de Gustavo Borges na natação (100m livres). Na cultura pop, o Batman novamente tomava conta dos cinemas, mais uma vez reunindo os esforços de Tim Burton e Michael Keaton.

Por falar em Batman, nesse mesmo ano, os produtores, roteiristas e artistas Bruce Timm e Paul Dini mudavam para sempre o mundo da animação ao criar a série televisiva do herói, inspirada pelos famosos desenhos animados dos irmãos Fleischer para o Superman. A série foi um divisor de águas na forma de se fazer desenhos animados baseados em quadrinhos, como já falamos no Terra Zero anteriormente. Como se isso não bastasse, eles criaram uma das personagens mais incríveis da modernidade, a Arlequina. Neste ano em que ela completa 25 anos, vamos celebrar suas duas décadas e meia de vida com comentários de vários membros do site sobre ela e sua contribuição para a cultura pop.

Morcelli

Quando penso na Arlequina, certamente me lembro das divertidas participações dela no desenho do Batman ou da Liga da Justiça, dos anos 1990/2000. Eu a conheci mais ou menos na época em que foi criada mesmo, pois já acompanhava a animação do Morcego no SBT quando era mais novo. O que mudou quando me tornei adulto foi a percepção da personagem. Não apenas em termos de importância para a mitologia do Batman (um papel que só cresceu durante os anos), mas também por refletir uma nova geração de leitores com temas sérios (como abuso) e engraçados (como a vida dela fora da relação com o Coringa, por vezes vilanesca, por vezes heroica, sozinha ou ao lado das Sereias de Gotham).

A Arlequina consegue ir de um espectro a outro com toda a naturalidade do mundo, tendo passado pelos mais diversos criadores possíveis. Para uma personagem que é tão jovem neste universo, tamanha pluralidade merece ser celebrada. Que venham mais 25, mais 50 anos de boas histórias!

Débora de Albuquerque

Arlequina… o que dizer dela? O que falar da personagem rainha dos cosplayers, fenômeno de vendas da DC, com vários produtos licenciados? Como mulher, a minha relação com a personagem é um tanto ambígua, porque a relação de abuso dela com o Coringa sempre me incomodou muito (ainda mais quem aqueles que “shippam” os dois), assim como a extrema sexualização da personagem (beijo, David Ayer). Porém, a personagem tem passado por uma grande jornada; a palhacinha que servia como alívio cômico da animação do Batman foi crescendo e ganhando história, e também se emancipando.

Margot Robbie, a Arlequina dos cinemas.
Margot Robbie, a Arlequina dos cinemas.

Hoje, a Arlequina é uma mulher que saiu da coleira do Coringa e vive então uma vida livre. Ela também é a personagem que permite ao roteirista e ao leitor rirem de si mesmos, com histórias bizarras que abraçam a zoeira e permitem um respiro da cronologias. Nenhum personagem, e nem mesmo a editora, escapam dessa zoeira da personagem.

Esteticamente, a personagem também tem um acerto. Apesar de não usar mais o macacão hoje em dia, ela é uma personagem que tem um visual muito interessante, que se assemelha ligeiramente com a mulher do dia a dia, ainda que um pouco sexualizada. O legal é que o corpo dela é desenhado com mais proporcionalidade do que a de outras personagens.

Não considero a Arlequina um exemplo de personagem, mas ela é interessante e tem uma complexidade. É a mulher vitima de um relacionamento abusivo que se libertou; a louca que muitas vezes é mais racional que o Batman; a mulher excêntrica que também é muito comum. A Arlequina é a mulher que mata sem pudores, mas que também pinta as unhas com as amigas, vai tomar sol e sofre por amor. Portanto, apesar de ela não ser um exemplo para mim, ela é relacionável a várias mulheres.

Igor Tavares

A Arlequina pra mim sempre foi uma personagem com a qual tenho ZERO identificação. Meu primeiro contato foi com a versão da série animada do Batman, e ali ela era somente uma capanga engraçadinha com uns trejeitos meio psicóticos. Ao longo dos anos observei mais atentamente a evolução (e os erros cometidos) com a personagem e, sinceramente, apesar do crescimento dela como franquia, ainda não acho grande coisa e nem me motiva a ler. Acho que há potencial para histórias divertidas e interessantes para a personagem. E a fase [Jimmy] Palmiotti / [Amanda] Conner tem seu público fiel e, com todos os méritos, ajudou muito a consolidar esta marca.

A Arlequina no Renascimento da DC. Arte de Amanda Conner.
A Arlequina no Renascimento da DC. Arte de Amanda Conner.

Brunão

Eu nunca fui particularmente interessado na Arlequina; gostava da personagem em Batman: The Animated Series, mas não havia um personagem ali que eu desgostava. Mas, se ela nunca me interessou, eu admito que já perdi um bom tempo pensando no “fenômeno” Arlequina: sem muito destaque nos quadrinhos desde sua transposição da tela de tevê para estes, um título sem muitas pretensões – e com toda cara de fill-in até a próxima onda de relançamentos – tornou-se o título mais vendido e popular não só da DC, mas da indústria americana por bons meses.

Cosplays da personagem se tornaram tão comuns em eventos que alguém podia vir a se questionar se, naquele ponto, ainda constituíam um cosplay ou se as variações do uniforme haviam sido absorvidas pela moda do dia a dia. Textões e problematizações – muito justificados, em sua maioria – abundaram na rede social de sua escolha. E, na minha opinião, o mais legal da Arlequina é existir, de certa forma, “acima” desse barulho: é uma personagem problemática, com um relacionamento abusivo em sua gênese, diversos episódios de objetificação em todas as mídias e uma condição psiquiátrica, mas inúmeras meninas e mulheres a adotaram como símbolo de bom humor, não conformismo e liberdade.

Arlequina em Batman - Louco Amor, na arte de seu cocriador, Bruce Timm.
Arlequina em Batman – Louco Amor, na arte de seu cocriador, Bruce Timm.

Arlequina, a meu ver, tornou-se como que um ídolo punk pra meninas dentro do chamado espaço “nerd” (¬¬), e apesar de eu não estar em posição de dizer o motivo do apelo inicial, acho sensacional a vida própria que sua iconografia tomou.

Diego Bachini

Para mim a Arlequina era um simbolo de diversão e, claro, de um louco amor nos anos 1990. Não que isso fosse necessariamente positivo, mas revendo os episódios de BTAS, fica claro que ela trouxe alguma humanização e, apesar de ser usada e abusada, ela despertou sentimentos no Palhaço do Crime. Óbvio, isso não justifica a forma como ele a trata, nem de como ela é doente por ele. Mas mostra como uma personagem despretensiosa pode influenciar sutilmente um já estabelecido.

Infelizmente a exploração do sucesso dela começou com a versão dos jogos, com Batman: Akham Asylum. Digo infelizmente, porque antes uma personagem que era uma ex-ginasta, magra e ágil, passou a parecer mais uma modelo de pouca roupa. Muito do carisma dela e da própria sensualidade inocente que ela tinha no traço das animações se perdeu completamente para roupas muito mais voltadas para o sexy do que para a diversão.

A Arlequina dos jogos Arkham.
A Arlequina dos jogos Arkham.

Embora seja obra do próprio Paul Dini, o resultado acabou a descaracterizando. Não existiria problema nenhum no universo Arkham ela usar sua roupa tradicional, fazendo a versão de enfermeira (e suas futuras derivadas) acaberem focando apenas na sexualidade da personagem (que, não vamos mentir, está lá desde o começo, mas nunca era o que chamava atenção nela). Arlequina era uma boba da corte. Funcionava como simbolo de diversão, era boba e sensual ao mesmo tempo. Isso se perdeu.

Tanto no filme quanto as ultimas versões nos quadrinhos parecem não dar tanta atenção a simplicidade da personagem, e se por um lado isso chamou mais atenção, por outro parece ter apenas desvirtuado a personagem. Ela parece ser hoje mais um objeto comercial do que uma personagem. Porém, acredito que o cerne da personagem não será jamais perdido, e em algum momento aquele espirito mais clássico vai retornar.

Leandro Damasceno

A Arlequina talvez tenha sido a primeira personagem que vi passando por um fenômeno de apropriação.

O que chamo de apropriação é aquele fenômeno no qual o público se apropria de uma personagem à revelia do que ela é ou representa em sua concepção. É como se uma parcela dos leitores (neste caso, muito mais fortemente, das leitoras), tivesse cooptado a personagem dizendo: “Esta aqui me representa”. E, assim sendo, estas leitoras partiram para reinterpretações próprias a respeito do que Arlequina é ou deveria ser, como já dito, independente da sua “realidade” nos quadrinhos.

Imagem oficial da DC divulgando o sucesso de vendas da Arlequina no DC Rebirth.
Imagem oficial da DC divulgando o sucesso de vendas da Arlequina no DC Rebirth.

É importante também dizer que a Arlequina não foi uma personagem dos quadrinhos. Foi criada para a série animada, uma ocorrência recente de algo que foi lugar comum no passado em relação ao Batman e ao Superman, que tiveram partes de suas respectivas mitologias criadas em programas de rádio ou antigos seriados de TV live action. Esta natureza transmídia da personagem talvez tenha informado aos fãs, de uma maneira subconsciente, que a própria Arlequina era passível de múltiplas interpretações.

Mais recentemente, a Capitã Marvel passou por um processo semelhante, quando comandada por Kelly Sue DeConnick. Kelly Sue criou uma espécie de clube de seguidoras da personagem (ou, talvez ela tenha sido a pessoa que facilitou a criação), denominado The Carol Corps. Esta parcela de fãs de Carol Danvers tinha a personagem como elo de ligação, mas o que Carol fazia ou deixava de fazer nos quadrinhos pouco importava. Ela foi apenas o conduíte para que aquelas mulheres se encontrassem e criassem uma fraternidade. A representatividade social da Capitã Marvel ultrapassou os limites das mídias e foi apropriada como parte do dia-a-dia das pessoas.

A Arlequina inaugurou isto em tempos modernos e de uma maneira bem mais orgânica e espontânea.

O que a Arlequina é hoje independe dos quadrinhos, videogames, filmes ou desenhos animados. Se é sexy, trágica, engraçada, maluca, etc. pouco importa. Ela é o que o público que se apropriou dela quer que ela seja.

Delfin

Eu sou fã incondicional da série animada do Batman, a que consideramos clássica, baseada nas animações do Super-Homem dos Fleischer. O fato dela ser feita em full animation, de aprender com o clássico sem descuidar em momento algum da vanguarda, de parecer ser ambientada em um mundo em que zepelins são mais pujantes que cargueiros aéreos, em que ternos, gravatas e chapéus nunca saíram de moda, em que o soturno está presente mesmo em lindos dias de sol. Aquilo era diferente de quase tudo o que eu já tinha visto e influenciou para sempre a animação ocidental. A Arlequina, naqueles dias, era apenas parte disso, mas com um destaque: de todas as mulheres do bat-verso, era a única que não tinha ares de femme fatale: sem a máscara, ela era, ao mesmo tempo, tanto a garota que mora logo ali quanto a loirinha meio pixie que você podia encontrar numa balada e não ficar cheio de dedos de puxar uma conversa – mesmo porque Harley Quinn é do tipo que tomará a frente da ação.

Sua relação com o Coringa, como princípio (ou seja, de alguém se apaixonar pelo vilão e não pelo herói), não é algo inédito. De fato, na vida real, mulheres que se apaixonam por prisioneiros ou condenados existem em uma quantidade maior do que a sociedade está em condições de julgar (ainda que o pensamento conservador, que adora se meter na vida dos outros, tente muito). A condição da jovem psicóloga que se apaixona pelo interno psicótico é base para a construção do ethos da personagem. Seja nos anos 90, seja hoje em dia.

O mundo de hoje mudou e o questionamento sobre a relação perniciosa do Coringa em relação à Arlequina se torna cada vez mais preemente (na verdade, é um questionamento verdadeiramente feito desde Batman: Louco Amor). Só que a personagem se tornou muito maior do que isso e, com Os novos 52 e o filme Esquadrão Suicida, o que fez com que ela conquistasse públicos diferentes, que em boa parte não chegaram a ler os quadrinhos. Isso faz com que a Harley Quinn de cada um suplante a personalidade original e que a barreira entre ficcional e real seja quebrada: cosplayers de todas as idades não são representantes de um amor corrompido, mas, sim, de uma visão feminina coletivamente construída, o que faz com que a capacidade memética da jovem personagem seja cada vez mais amplificada.

No fundo, é isso: Harley Quinn, hoje, é um exemplo prático de memética na cultura pop. A ideia coletiva da personagem supera suas origens, sua personalidade, seus medos, suas histórias. E é por isso que, hoje, estamos aqui escrevendo sobre ela, inclusive quem nunca deu muita bola pra boba da corte favorita de todos. E não há nada, além do próprio pensamento coletivo, que possa parar a Arlequina agora.

  • Guylherme Lobo

    Gosto muito da personagem e ela, pra mim, é um grande condutor que leva muitas meninas a começarem a ler os quadrinhos, assim como a Mulher Maravilha.

    Porém, acho bem forçado o modo como querem fazer dela o Deadpool da DC, sendo que já existia o Homem Borracha e o Besouro Bisonho há anos. Gosto do jeito dela engraçadinha, simpática e determinada a defender quem ama, mas esse negócio de só usar ela pra zuera me dá desgosto.

    PS: Bem observado isso da sexualização da personagem. Nunca achei que sentiria falta do macacão.

  • Banzé Menezes

    Não gosto da personagem. Ela nasceu para ser uma vilã, e não heroína. Estão descaracterizando ela, pra poder fazer filmes, e vender bugigangas.

  • ̲̅L̲̅υ̲̅C̲̅α̲̅ร̲̅ ̶A̶N̶D̶R̶A̶D

    Acho ela uma boa personagem
    Mas acho q ela sozinha não se destaca
    A hq dela é muito forçada
    Deveriam fazer ela voltar com o coringa, ela em gotham arrebenta no esquadrão suicida e sozinha é só legalzinha

  • Absolute Superman

    Pra mim ela só funciona no meio de outros personagens, como no universo de Gotham ou dentro do ES. A utilização dela no Exterminador do DC You, por exemplo, é ótima. O título solo é desprezível e só me faz lembrar da tranqueira do Deadpool.