[#SDCC] DC: Colapso mercadológico, Revolução e o Futuro

Faz quase 10 anos que o Terra Zero foi criado e faz todo esse tempo que comentamos sobre o encolhimento do mercado de quadrinhos. Isso na verdade é engraçado, pois o que se vê lá fora é um típico caso de efeito sanfona; às vezes o mercado dá uma aumentada, depois encolhe de novo. E assim vai. Se você, querido Zeronauta, fizer algumas buscas aqui no site procurando por artigos sobre o mercado, suas vendas e seus recessos, vai encontrar bastante material. Tornou-se tão corriqueiro ver isso acontecer, que nós, jornalistas de quadrinhos, ficamos até meio “sedados” em qualquer uma das situações.

Muitos sites informaram no final de semana que Jim Lee teria dito, na San Diego Comic Con deste ano, que “temos que impedir o colapso da indústria de quadrinhos”. O artista e copublisher da DC refuta isso, tendo afirmado em seu Twitter que ele jamais diria tal coisa. Seja como for, quadrinhos não vendem como antes há anos. Desde o primeiro grande colapso (esse aconteceu) dos anos 1990, a indústria tenta se manter como pode, tentando conviver, oferecendo seus produtos de papel, com games e internet.

Ela já competia com cinema e TV anteriormente, é claro, mas os anos 1990 mudaram tudo. Era mais legal jogar Spider-Man: Maximum Carnage (SNES) do que ler o quadrinho em que o jogo foi baseado, por exemplo. De certa forma, Lee foi responsável por isso.

Os WildCATS de Jim Lee.
Os WildCATS de Jim Lee.

A Image foi maravilhosa e péssima ao mesmo tempo. Da mesma forma que ela mostrou um respiro de liberdade para que artistas pudessem brilhar por si só, sem depender de majors que levassem a maior parte do lucro do suado trabalho desses caras, a editora (que está viva até hoje, fazendo outra revolução, desta vez, intelectual, com quadrinhos da melhor qualidade e muito premiados) expôs o que os super-heróis poderiam ter de pior. Os exageros visuais com roteiros fracos deram um boom nunca visto no mercado, mas, infelizmente, a bolha mercadológica criada pela Image estourou, levando todas as outras editoras juntos. Isso por si só daria um grande artigo, que talvez façamos um dia.

Enquanto isso, vamos falar do presente.

Os quadrinhos de super-heróis estão colapsando faz tempo. Há anos, principalmente depois que os anos 2000 trouxeram diversos filmes e séries de super-heróis que fizeram muito sucesso (hoje, os filmes de heróis são a força motriz de Hollywood), os quadrinhos não são mais a mídia primária para alguém conhecer um super-herói. A pessoa primeiro vê na tela e, depois, talvez, com muita sorte, ela se interesse por comprar algum quadrinho. É um paradoxo meio irônico; os super-heróis nunca estiveram tão populares, mas os quadrinhos nunca venderam tão pouco como nos últimos 20 e tantos anos. Isso significa que um colapso está chegando? Depende.

Pode ser que um dia as pessoas deixem de comprar papel, mas isso não impedirá quadrinistas de venderem sua arte para dispositivos como tablets e celulares. Ou seja, a indústria pode mudar, mas não morrer. Por outro lado, em termos de super-heróis, as coisas não andam fáceis. Editoras ainda investem em mega sagas para conseguirem aumentos (temporários) de vendas, que compensem os previsíveis períodos de recessão. Virou um ciclo.

Os Novos 52, da DC, a iniciativa que balançou o mercado todo em 2011. Novamente uma arte de Jim Lee.
Os Novos 52, da DC, a iniciativa que balançou o mercado todo em 2011. Novamente uma arte de Jim Lee.

Quando a DC lança, por exemplo, uma iniciativa mais bem planejada como o Renascimento, as coisas duram mais tempo, porque o planejamento tem prazo maior e não depende exclusivamente de uma saga lotada de tie-ins. Isso é bom. Contudo, uma hora a novidade passa e, em uma época em que o imediatismo impera, em que a maior parte das coisas se torna descartável em muito pouco tempo, é necessário se virar nos 30 o tempo todo para manter a relevância nos quadrinhos.

A DC já pensou em como atrair atenção agora que a febre do Renascimento passou: Doomsday Clock, a história que mesclará personagens do UDC e de Watchmen; a Marvel está fazendo um back-to-basics com seu Marvel Legacy. Cada uma está fazendo à sua forma; enquanto a DC opta por brincar com metalinguagem novamente usando o cinismo e o pessimismo de Watchmen justamente para representar um novo período em que a humanidade vive assim, a Marvel faz seus heróis serem clássicos e reconhecíveis depois de um longe período trabalhando em outras frentes, com outras caras.

A real é que nenhuma das empresas, ambas subsidiadas por dois gigantescos grupos de comunicação, querem que seus quadrinhos sejam sustentados por outros produtos. Todas querem que as revistas vendam, que a indústria de quadrinhos sobreviva por si mesma. Contudo, as coisas já foram mais abertas neste mercado, e isso sim foi falado por Lee (e Dan DiDio) no painel da SDCC. Ambos estão planejando um braço editorial na DC que volte a investir em histórias fora da caixa, como aconteceu nos anos 1980 com a própria Watchmen e Cavaleiro das Trevas, por exemplo. Lee afirmou que a editora está em busca de talentos no nível de Neil Gaiman (ou mais) para investir nessa linha de publicações para leitores maduros, quadrinhos que “permitam dar respiro à arte”, nas palavras de DiDio.

É aí que a coisa fica interessante.

Mais no começo do ano, Scott Snyder, que está à frente das revistas do Batman desde 2010 (e criando coisas cada vez mais malucas envolvendo o personagem), tem afirmado que vai deixar de escrever Grandes Astros Batman para criar histórias para outra iniciativa. Algo muito maior! O que seria? Segundo ele:

A DC chegou pra mim e disse: “Você gostaria de pegar algumas dessas coisas em que você vem trabalhando com Sean [Murphy] e fazê-las em um novo, e prestigioso formato? Ao invés de fazer isso de forma mensal, por que não em um formato que permita algo maior, inclusive para a arte, e publicar a história de um novo jeito, permitindo que as coisas que você faria em seguida com Paul Pope , Afua Richardson e Lee Bermejo saia em uma formato que enalteça a arte – com papel diferente, corte diferente e tudo mais?”. Pareceu-me óbvio, de certa forma, e a solução perfeita; ao invés de ter todo mundo trabalhando mês a mês no formato de um quadrinho convencional, poderíamos ser os primeiros por trás desse novo caminho na DC. Estou muito empolgado com isso.

Ele levantou a bola, falou a real.

Dark Nights: Metal - evento cósmico liderado pelo Batman que vai mudar a forma como enxergamos a DC moderna.
Dark Nights: Metal – evento cósmico liderado pelo Batman que vai mudar a forma como enxergamos a DC moderna.

A DC está planejando alguma coisa grande, algo para mexer com o mercado de verdade. E isso não significa que ela pare de utilizar de certas iniciativas para promover melhor suas mensais. DiDio disse no evento que a DC tem feito de tudo para não abusar de “perfumaria”, digamos assim, lançando seus produtos como eles são, sem muitas capas variantes, com preço mais acessível etc. Apenas coisas muito específicas ganham este tipo de tratamento, como a saga The Button, por exemplo, lançada com capas lenticulares. Ela já percebeu que lançar revistas com diversas capas variantes só infla o mercado a traz resultados a prazos muito curtos. A Marvel ainda não tomou este caminho, mas não deve demorar.

Só a título de esclarecimento, as capas variantes são um problema sério na indústria. Por quê? Porque, cada edição que ganha diversas capas variantes possui níveis diferentes de variação de preço e raridade. Colecionadores perseguem as raridades em busca apenas do produto ou do desenhista que ele ama, o que causa uma queda drástica de vendas na edição seguinte, pois ela não tem o mesmo nível de raridade ou os mesmos desenhistas nas variantes. E claro, produtos raros têm preços inflados, afastando ainda mais os colecionadores casuais.

Dark Matter, uma iniciativa da DC menos falada do que merece, parece ser um ensaio para o que DiDio falou. Ramificações surgirão deste selo, que trazem personagens bem diversificados, com ideias inovadoras e uma abertura artística muito maior que a convencional. Pelo menos para a editora. Os quadrinhos deste selo ainda sairão com preços mais acessíveis que o normal, assim como todos os especiais de Dark Nights: Metal.

Neles estarão só nomes gigantes: Jim Lee, John Romita Jr., Greg Capullo e Andy Kubert. E mais: preço mais baixo, pelo menos na teoria, indica mais vendas. Ainda mais com esses nomes e com a garantia de que a participação dos desenhistas será muito maior. Nada mais correto em uma indústria em que o visual é o grande chamariz.

Fora isso, como dissemos, há a misteriosa iniciativa para leitores mais velhos. Pouca gente deve se lembrar disso, mas as graphic novels Earth One foram criadas sob uma premissa bem parecida. A ideia era levar os heróis às megastores em volumes dedicados a leitores mais exigentes e que não tinham o hábito de ler quadrinhos. Nunca soubemos de verdade o quanto isso funcionou, pois as vendas para esse tipo de loja não são (obviamente) contabilizadas pela Diamond Comics, o único canal de distribuição de quadrinhos nos EUA.

O que é estranho nisso tudo é a situação da Vertigo. Criada nos anos 1990 justamente para abrigar quadrinhos desafiadores, servindo como uma via paralela ao resto da indústria, ela está sucateada hoje. A mente por trás dela, Karen Berger saiu da DC há tempos; sua sucessora, Shelly Bond, também. Hoje a Vertigo publica pouquíssimos quadrinhos e é apenas uma sombra do que foi na década retrasada. Ou até na década passada.

A nova iniciativa pode eclipsar a Vertigo de vez. Contudo, se ela for algo revolucionário (como parece que pode ser), desafiando leitores inclusive com os super-heróis em propostas bem arranjadas e diferenciadas, e fizer bem para a indústria como um todo, será que não é melhor assim? Afinal, os profissionais remanescentes do selo podem ser absorvidos pelo novo braço editorial.

No fim das contas, o que pode acontecer é termos uma nova Vertigo. Com outro nome e com possibilidade de uso dos personagens do UDC, mas, ainda assim, uma iniciativa inédita e aberta a criadores com ideias diferenciadas.

Se isso for verdade (e torcemos para que seja), que venha a nova DC!

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