[Review] Shirtless Bear-Fighter #1, de Girner, LeHeup, Spicer e Vendrell

Felizmente, o conteúdo de quadrinhos nos últimos anos lentamente tem se diversificado o suficiente, a ponto de abranger temas ainda não explorados, reunir elencos que representam melhor a nossa realidade e colocar figuras que fogem um pouco de estereótipos surrados de outrora como protagonistas. Ainda há certa resistência de fãs tradicionalistas, alguns lojistas e de certa parcela do público mais leigo em relação a mudanças de alguns vieses, mas o sentimento geral é que estamos caminhando lentamente para um horizonte no qual teremos histórias em moldes mais inclusivos, com mais sensibilidade narrativa e que atendam a um público diversificado através de seus protagonistas. Este não é o caso de Shirtless Bear-Fighter, lançado pela Image. E, contrariando a lógica vigente, isso de forma alguma torna esta leitura menos interessante ou divertida.

Shirtless Bear-Fighter é uma criação dos editores Sebastian Girner e Jody LeHeup que trabalharam por alguns anos na Marvel em títulos como DeadpoolJusticeiro e X-Force, em colaboração com os relativamente novos artistas Nil Vendrell Mike Spicer. O quadrinho conta a história de Shirtless, um homem que foi criado pelos ursos da floresta, mas em sua idade adulta foi traído por seus criadores e agora vaga pelas florestas lutando contra seus criadores, comendo panquecas e salvando desavisados. Quando a cidade chamada Major City é atacada por ursos malignos, um relutante e irado Shirtless é convocado pelo governo para ajudar e assim começa a revista.

Girner e LeHeup são extremamente diretos na premissa, apresentação e caracterização de seu protagonista. Shirtless é o anti-herói traumatizado quintessencial: violento, solitário, monossilábico e desiludido com a humanidade. Apesar do tom amargo de seu personagem principal, a revista tem um tom extremamente bem humorado, afinal estamos falando de um cara que anda nu pelas florestas lutando contra ursos, mora em uma cabana feita de peles dos animais, tem um avião feito de peles de ursos e se alimenta exclusivamente de panquecas.

Com diálogos curtos e objetivos, um ritmo muito confortável, piadas de situação e bastante ação testosterônica, a primeira edição de Shirtless Bear-Fighter acaba conquistando o leitor pela sua sinceridade, apesar de protagonizado por um homem branco de meia-idade agredindo animais silvestres gratuitamente. É bastante impressionante como Girner e LeHeup tornam o conteúdo acessível a qualquer tipo de leitor através de uma premissa tão trivial e que facilmente poderia se tornar ofensiva, caso levada muito a sério.

A arte da dupla Vendrell e Spicer é cinética e cartunesca simultaneamente. Muito do humor na primeira edição da revista acaba sendo transmitido na parte visual, tendo em vista que os diálogos são bem sucintos e o protagonista é bastante calado. Os artistas fazem um trabalho bastante impactante principalmente nas sequências de ação (que permeiam quase que a totalidade desta edição). Com uma colorização energética, enquadramento estilizado e caracterização marcante, Shirtless Bear-Fighter torna-se um quadrinho que chama atenção visualmente muito pela premissa, mas também pela execução certeira da equipe de arte.

Em um mundo no qual (felizmente) os protagonistas “brucutus” com molde mais tradicional vem perdendo espaço, a equipe editorial de Shirtless-Bear Fighter e a Image desafiam tendências, mostrando que é possível fazer histórias que divirtam um público diversificado mesmo se valendo de personagens meio batidos. Shirtless é um clichê que caminha e, mesmo assim, é escrito e ilustrado com tanta sinceridade, e de forma tão honesta e divertida, que acaba conquistando o leitor.

Shirtless Bear-Fighter é uma prova de que há espaço para qualquer tipo de premissa tosca nos quadrinhos em pleno ano de 2017, se a execução tiver qualidade.